Semana Inesquecível Vinicius – 3 – Para viver um grande amor

Continuando nossa semana em homenagem ao poeta Vinicius de Moraes, nascido em 19 de outubro.

“… Sou carioca da Gávea, bairro amado de onde nunca deveria ter saído. Fui, sou e serei casado. E apesar do que se diz, não me acho tão mau marido. Filhos: três e um a caminho. Altura: um metro e setenta. Meão, pois. O colarinho: trinta e nove e o pé quarenta. Peso: uns bons setenta e três (precisam ser reduzidos…)…” – Vinicius, por Vinicius

Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso – para viver um grande amor. 

Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher… – não tem nenhum valor. 

Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro – seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada – para viver um grande amor. 

Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o “velho amigo”, que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor. 

Para viver um grande amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fieldade – para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.  Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô – para viver um grande amor. 

Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito – peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor. 

É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista – muito mais, muito mais que na modista! – para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor… 

Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs – comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica, e gostosa, farofinha, para o seu grande amor? 

Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto – pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer “baixo” seu, a amada sente – e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia – para viver um grande amor. 

É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que – que não quer nada com o amor. 

Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva escura e desvairada não se souber achar a bem-amada – para viver um grande amor.

Dia de poesia – Vinicius de Moraes – Soneto do amigo (Inesquecível Vinicius, 02)

Continuando nossa Semana Inesquecível Vinicius, trago hoje um singelo soneto, mas que diz tanto sobre a amizade e a lealdade, sentimentos que transbordavam no grande Poetinha.

Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica…

Inesquecível Vinicius

O sagrado dia 19 de outubro se aproxima. Nasceu, nesse dia, aquele que cantaria o amor, a paixão, o compromisso com o viver feliz.

O poeta maior, nosso inesquecível Vinicius de Moraes. Inicio, aqui, hoje, minha “Semana Inesquecível Vinicius”, e, em vários dos próximos dias, esse espaço será dedicado a sua poesia, a sua música, a seus textos.

Vinicius, meu professor de amor.

Dor da saudade

Carrego em mim todas as dores do mundo. As dores do corpo e as dores da alma.

Dores crônicas, agudas, lancinantes…

As dores físicas que já suportei levariam outras pessoas ao desatino.

Mas eu sempre aguento. Uma hora a dor vai passar, eu sei.

Difícil aguentar as dores da alma. Doem mais do que prender o dedo na porta, do que cólica de rins, ou quebrar a perna…

Dentre elas as piores são as dores da indiferença e da saudade.

O contrário do amor não é o ódio. Ambos são sentimentos fortes e motivantes. O verdadeiro contrário do amor é a indiferença. Que machuca, marca fundo na alma. Dói intensamente. E não passa.

E a dor da saudade?

Abrir os braços para o vazio e abraçar a ausência de quem se foi?

Voar sozinho em seus sonhos porque o outro desistiu de voar com você?

Acordar de madrugada e não ter mais aquele alguém a seu lado, mas somente o frio e o nada?

Isso é saudade. Isso dói lancinante. De dar vontade de desistir de tudo e morrer. Essa dor eu não aguento. Ela não passa, jamais.

Saudade é tudo o que não há. É o nada. É o vazio. O buraco escuro onde nos debatemos sem a menor possibilidade de sair.

Saudade é a dor conjunta de todas as partes do corpo. Porque dói a alma, dói nossa essência, dói nossa vontade de continuar vivendo.

É sentir o toque de quem já se foi, ouvir a voz que não fala mais, sonhar o impossível que não acontecerá.

É mais que solidão. Porque solidão não é falta. E saudade é feita apenas de ausência.

Saudade é a presença da ausência que nos acompanha constantemente.

É a vontade de se lanhar em pedras quentes para sentir outra dor maior, de bater a cabeça nas rochas para parar de pensar na falta de uma presença.

Derramar lágrimas sem fim, um pouco de bálsamo do coração, que aliviam a dor da alma.

Sentir saudade é sofrer. Beber até a última gota do cálice do sofrimento atroz. E doer e doer e doer. Dia e noite. Como um mecanismo que não cessa de rodar e moer a dor e despejá-la sobre nós.

Saudade é o não saber do outro, que não está mais perto, que não dá notícias… não saber se está bem, se pensa em nós, se está longe por amar outra pessoa ou por mero orgulho…

Saudade é tristeza, é querer voltar no tempo por um instante ao menos e sentir a felicidade que a causou. E quanto mais se lembra, mais saudade se sente e mais se sofre, como em uma espiral infinita de pensamentos e sentimentos.

Tenho saudade, sim. Muita saudade.

E muita dor.

(outubro, 2019)

Poesia da casa – Versos para ti

Frases Feitas: A Maior Despedida da Minha Vida

Um dia hei de me cansar e me irei

E a ti, eu te deixarei para sempre

Quem te amará quando eu desistir de te amar?

Quem olhará nos teus olhos com tanto amor

Como sempre viste nos meus?

E ficará a teu lado em todos teus dias

E te esperará todas as noites e madrugadas?

Quem haverá de segurar tuas mãos nos momentos de dor

E nunca te dirá – mais tarde,  pois agora ocupo-me de mim?

Quem te enviará versos falando

De uma paixão ardente que abrasa a vida

Rompe o tempo e apaga a distância?

Quem mais te fará os versos que eu te fiz?