A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –
Não sou “messiânica”, mas sou otimista. E acredito na força do pensamento, da gratidão e da palavra. Por isso sempre guardei esse texto, cuja autoria desconheço:
Obrigado Senhor pelos meus braços perfeitos… Quando há tantos mutilados.
Pelos meus olhos perfeitos… Quando há tantos cegos.
Pela minha voz que canta… Quando tantas emudecem.
Pelas minhas mãos que trabalham… Quando tantas mendigam.
É maravilhoso Senhor! Ter um lar para voltar… Quando há tantos que não tem onde ir.
Sorrir…quando há tantos que choram.
Amar…quando há tantos que odeiam.
Sonhar…quando há tantos que se revolvem em pesadelos.
Viver… quando há tantos que morrem antes de nascer.
É maravilhoso Senhor, ter tão pouco a pedir e tanto para agradecer…
O doce som de um mensageiro do vento me acorda. A brisa da madrugada vem dar seu passeio em minha varanda. E, como vozes de anjos, os sons de sinos chegam até mim.
Madrugada. A hora mais escura na noite, que precede o amanhecer. A hora em que o mundo se cala. Ouço o silêncio, às vezes quebrados pelos metais e pedras se chocando. Como um chocalho a embalar a criança que resiste dentro de mim.
Madrugada não foi feita para dormir. Mas para pensar. Sonhar acordada.
São vários conjuntos, nem todos sonoros, ao redor da varanda. De todas as formas – golfinhos, sinos, borboletas, pedras, pássaros, mandalas, estrelas; feitos de pedras variadas, de cobre, de madeira, de vidro… cada um com sua beleza.
Quando um deles vem me chamar na madrugada e me transporta para meu outro mundo, saio de mim e o sigo numa jornada única, partilhada entre mim e minha alma.
E atravesso o portal do tempo, da distância, da vida e do querer.
Por algumas horas, antes que o sol quebre esse encanto, renasço na alegria de existir, na companhia da solidão amiga, no regresso a mundos onde nunca fora antes.
Meus mensageiros trazem até mim quem está longe, quem partiu, quem não está. E vozes, e luzes, e cantos e carinhos há tanto já perdidos.
Brincamos de roda, cantamos ritmos, tudo dentro do mais absoluto e solene silêncio da madrugada. Nessas horas, em que estou mais viva do que durante o dia, sinto o prazer da vida, envolto pelo escuro e pelo silêncio.
E, quando a brisa os avisa que está partindo antes que a aurora a flagre desarrumando a ordem da noite, eles se calam, minha alma volta para mim, e então adormeço, até o raiar do novo dia.
Trazia em si o encanto da imensidãoNos olhos inundados de marSe movia no ritmo de ondasComo se vivesse em um barcoTrazia na alma uma imensa paixãoAlimentava-se de amor, luz e alegriaAmava a espuma frágil da vidaComo se fosse personagem de romanceTrazia uma esperança de felicidade imbatívelAcreditava que o amor venceria tudo e todosAté o momento em que viu seu mundo cair eSentiu a tristeza do abandono e solidãoE quando de seus olhos brotaramAs gotas do mar que trazia em siPela face tristemente correram,Lágrimas salgadas como água do mar
Dezembro conseguiu chegar, não obstante a pandemia, a hipocrisia, a histeria e tudo o mais de ruim que dominou este ano.
Ainda que alguns políticos estejam ameaçando proibir até mesmo as comemorações natalinas familiares, não há como fazer a população ignorar a realidade: ESTAMOS EM DEZEMBRO. NATAL . REVEILLON.
Para as crianças, o significado de tudo isso é um só: Papai Noel virá trazer os presentes de Natal.
Mas para os “mais crescidinhos”, Dezembro tem outra cara: os domingos do Advento, as missas solenes, a preocupação em organizar os encontros familiares.
E, para os donos de supermercado, além do vertiginoso aumento das vendas, a inclusão de faixa única no playlist – basta apenas o Jingle Bells. A partir do final de novembro, se você entra em um supermercado, tome jingle bells. De manhã, à tarde e à noite. Quando chega o Natal ninguém mais suporta ouvir essa música. De vez em quando até variam. Com apenas outra, a Simone cantando Então é Natal…
Mas são muitas as canções natalinas. E lindas. E as gravações, antigas ou modernas, extremamente agradáveis.
Tenho a minha predileta. Ao ouvi-la sou transportada para o verdadeiro espírito natalino.
Embora avessa às comemorações forçadas, hipócritas e comerciais do Natal, trago em mim o sentido religioso da festa máxima da Cristandade. Não há Natal sem Adeste Fideles. E, em qualquer ocasião, ouvi-la me traz o Natal.
E tantas outras canções – ouvidas desde muito cedo nas missas, depois cantada junto com os grupos de jovens, e, bem mais tarde, ensaiadas com as Irmãs e as crianças que se apresentavam na Paróquia que eu frequentava. Quantos Natais na minha vida.
Mas há um acorde inicial em uma harpa, pelas mãos abençoadas de Luis Bordon, que me traz o Natal, devolve à memória o cheiro dos assados, das frutas, da grande e cheirosa árvore montada na sala…
E, principalmente, devolve-me os sons do Natal, os sons da minha casa, num tempo distante em que tudo era alegria, em que havia as risadas dos primos, as vozes de meu pai, minha mãe, avós e tios, em que havia o infalível brinde da meia-noite, em meio à maravilhosa ceia que minha mãe caprichosamente preparava, o brinde comandado pela Vovó Nenê “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por ele amados”…
Ouvir esses acordes iniciais basta para me levar de volta a esse passado, que nunca passou de tudo, e a emoção impede que continue a escrever
Ligou o carro e saiu. Para não ir a lugar nenhum. Para não voltar a nenhum lugar. Só queria recuperar o prazer de dirigir. Sem pressa, sem bagagem, sem rumo.
Deixara tudo arranjado: contas pagas, armários, gavetas e geladeira limpos e arrumados. Despensa abastecida. A mesa posta. O jantar pronto.
Sabia que ninguém daria por sua falta. Já há algum tempo deixava tudo arrumado e ia para o quarto. No dia seguinte encontrava tudo do mesmo jeito – ninguém tinha o cuidado sequer de tirar o prato da mesa e deixar na pia. A mesa sempre suja e bagunçada, tudo por tirar.
Não davam pela sua falta, desde que o jantar e a mesa estivessem do agrado. Sua presença não era reclamada nem sentida sua ausência. Foi fazendo um balanço de sua vida nas últimas décadas.
De como a vida foi empurrando e então se deixando empurrar. Por problemas familiares deixou o emprego. Mudou de cidade. Praticamente mudou de corpo. Era outra pessoa ocupando o corpo que um dia lhe pertencera. E, de certa forma, até mesmo sua mente.
Não sabe dizer direito o que aconteceu que, de repente, enxergou isso tão claro. E quis recuperar os anos perdidos. Mas não teve jeito. Não havia como romper com tudo isso. Então foi se encolhendo. E sua presença não fazia falta, sua participação não era apreciada.
Por isso tomou a decisão. E tomou, também, todas as providências. Saiu no final da tarde. Sua falta somente seria sentida na noite seguinte, quando não haveria casa arrumada, nem jantar nem mesa nem nada. Era uma boa dianteira. Pensou tudo muito bem antes de executar. Para nada dar errado.
Passou pela ponte, bem devagar, para ver o local onde seus conhecidos se acidentaram há uns dias. Ninguém consertara a amurada. Apenas umas placas de compensado de lâminas de madeiras e luzes vermelhas de alerta mostravam a vulnerabilidade do local.
Tocou em frente. Sentiu saudade do tempo que era realmente sozinha – pelo menos era feliz e infeliz sozinha. Na maior parte do tempo era feliz. Muitos a consideravam louca, pois era livre num tempo em que as mulheres eram domesticadas.
Mas também caiu na armadilha. E se transformara na figura que a sociedade esperava, totalmente enquadrada. E totalmente infeliz.
Queria voltar à vida de porraloka da juventude. Mas era muito tarde.
Fez o retorno. Voltou para a ponte. Passou pelas luzes vermelhas. Acelerou tudo o que podia, e, rindo sozinha, depois de muitas décadas, fez novamente a manobra brusca chamada cavalo-de-pau. Ainda era mestra nisso. Fez mais uma vez e girou o volante na direção do madeirite.
O carro, possante e pesado, rompeu a barreira e mergulhou no vazio. Em paz, sentiu o baque na água e o suave balanço antes do mergulho final. O rio a recebeu. Abriu suas águas como braços para a acolhida. E recebeu o corpo e a alma que o mundo rejeitava.
Linda, soberana, instigante, surge a luz em seu esplendor.
Há quantos milênios ela se apresenta no firmamento, e sempre tão bela, tão jovem, com tanto esplendor. Qual será seu segredo para nunca envelhecer, jamais aparentar cansaço, nunca perder o brilho?
Olho maravilhada para a Lua. Há quantas décadas ela me fascina, me atrai, praticamente me obriga a procurá-la no céu a cada anoitecer, a cada madrugada?
Nós, míseros seres humanos, imperfeitos, feiosos, desbrilhados… Tentamos ajudar a natureza com tratamentos, roupas, disfarces, mas não conseguimos enganar nem a nós mesmos.
Quando em nosso outono o vento da vida vem e nos espalha como folhas secas que se desprendem dos galhos, temos a certeza da decadência física. Não importa o que fomos na juventude, envelhecemos monstros.
No entanto, ao final cada entardecer, a Lua volta a seu ponto máximo. E brilha.
A cada noite mais brilha, orgulhosa de sua beleza eterna, rejuvenescida a cada anoitecer.
E, quando amanhece, um pouco pálida, ela se retira, desaparece, para surgir ainda mais exuberante no começo da nova noite.
A Lua está sempre sozinha. Linda, fascinante, a todos atrai, mas a ninguém pertence.
Solitária, quiçá celibatária, marcando presença e deixando saudade, parece que a Lua é feliz.