Triste Dia dos Pais

“Terceiro ano seguido que, órfã, nada tenho a comemorar no dia dos pais. Esse ano, com a partida do meu padrinho, mais órfã do que nunca. Republico, aqui, a mensagem de 2020, neste – agora – triste dia – para mim.

“Pai, há dezessete meses o senhor nos deixou. No dia mais triste de toda a minha vida. Porque eu não estava preparada para me tornar órfã. Sabíamos que sua ida era iminente, mas ainda o tínhamos aqui. Com seu carinho, sua presença.    

O senhor sempre foi nossa força, nosso incentivador, o centro de nossa família. E, de repente, não está mais aqui.      

Seu lugar vazio na mesa da casa de nossa mãe dói. Muito.

Chegar lá e não ter o senhor para me receber é de uma tristeza indescritível.

Onde está seu sorriso acolhedor? Onde estão seus lindos olhos amorosos? Por que tínhamos de nos separar assim?    

Tantas lembranças, tantas, que não cabem em um só coração.   

Meu lugar na mesa era a sua esquerda. E o senhor sempre teve um jeito todo próprio de manter a mão esquerda sobre a mesa. E eu, muitas vezes, deixava meu talher e pegava na sua mão. O senhor abaixava os olhos, olhava fixamente nossas mãos unidas. Depois olhava para mim e sorria.    

Ah, pai, o que eu não daria para ter novamente seu sorriso.

O senhor sempre sorria: sorria de alegria, sorria de galhofa, quando fazia suas brincadeiras, e seus olhos sorriam junto. Tenho tanta saudade de seu olhar, pai…  

Suas rimas, que podiam até irritar a mamãe, mas divertiam os filhos e netos – especialmente a Carolina – “espera aí, vovô, fala de novo que vou escrever…”… Suas paródias… “… a tal da angélica, moça…” … “…un automobile, naquela esquina…”…    

Sua voz, pai, explicando seu ponto de vista, sempre ponderado, nos dando um norte, sendo um farol para nosso pensamento, ainda ecoa dentro de mim.    

As histórias de sua infância, da onça, dos tiros, as lembranças de meu avô, (primeiro pai que perdi)… Invernadinha, Negro Dionísio, Tio Ary saltando de guarda-chuva, Romeu montando no burro… tantas histórias, tantas risadas. Ninguém nos conta mais histórias, pai. Ninguém mais conhece o Guilherme J. Kuhll…    

Lembra-se da estrada para Morro Agudo? Quantas vezes encravamos para aqueles lados em dias de chuva. Hoje nem se sabe mais o que é encravar. O que é pneu lameiro. O que são correntes… E o senhor nos tirava de todos os embaraços.      

E quando o senhor perdeu a paciência com a tal da Odila ou Otília, não me lembro mais do nome, só da feia cara da funcionária de mau humor, na faculdade Toledo de ensino de Presidente Prudente e me mandou de volta para terminar a faculdade em Ribeirão Preto. Sofri, pai, porque eu não queria morar em pensão, não queria morar em outra cidade. Mas fui. E assim que peguei meu canudo vazio das mãos do Dr. Pessini, voltei para casa.

Estou aqui, pai, nesse final de dia, vendo o mar que o senhor tanto amava e nos ensinou a amar também, e tomando meu whisky “regulamentar” como o senhor dizia. E me lembrando de quantos whiskies tomamos juntos – foi o senhor quem me ensinou a gostar do single escocês. E tantas outras coisas na vida que o senhor me ensinou. Só se esqueceu de me ensinar como continuar sozinha, sem sua valiosa opinião, seu apoio incondicional e seu amor de pai.    

Não vou comemorar, pelo segundo ano seguido, o dia dos pais. Porque nada tenho a comemorar – só a saudade que tenho do senhor, só a falta que eu sinto de um abraço de pai, que nunca mais terei.     

Sei que não serei merecedora de ir a seu encontro na eternidade, mas queria muito, pai, pelo menos uma vez, de relance que seja, vê-lo e abraçá-lo. Mesmo que fosse por uma única vez.       

Saudade, meu pai. Muita saudade, e tristeza nesse dia dos pais, e meu eterno amor de filha.”

(obs. – na foto acima, meu pai, Carlos, com a bisneta Helena, do acervo pessoal da autora)

Lembranças – e saudade – do meu pai

Meu pai partiu. Deixou-me órfã. E isso dói. Sempre e muito.

Era um homem feliz e realizado. Bom. Justo. Passou aos filhos valores morais inegociáveis. E deixou, também, deixou um legado de amor e dedicação à família como poucos homens podem deixar.

Sua alegria era ter a casa em festa, com filhos, netos e bisnetos.

Não importava onde eu estivesse residindo – nos dois dias sagrados do ano – 15 de janeiro (seu aniversário) e dia dos pais, eu vencia qualquer distância, atravessava qualquer rincão, mas ia me encontrar com ele.

Não esperei “as coisas se acalmarem”, nem “dar um jeito nos negócios” para me dedicar a meu pai. Dediquei-me enquanto ele era vivo, e podia me receber com um abraço e um sorriso.

Sinto muito a falta dele. E essa dor é para sempre.

Hoje, véspera de mais um dia dos pais, agora órfã, presto-lhe uma homenagem, com sua música preferida:

Poesia da casa – A morada do poeta

Poeta, onde é sua morada? 
Quero encontrá-lo, ver onde vive, do que é feito seu mundo. 
O poeta me recebe, mas não é bem uma casa onde ele mora.
Sua morada é o mundo, seu telhado é o céu
De dia ele avista as nuvens, à noite dialoga com as estrelas
Também não tem paredes, porque o poeta é livre
Seus limites são os limites do Universo
Não precisa portas nem janelas, não há cercas nem muros
O chão do poeta é o imenso oceano
Pisa nas espumas das ondas, repousa nas marolas
Os vizinhos do poeta são as matas, os rios,
A natureza tranquila e exuberante
Na casa do poeta se ouvem o mar, o vento e o silêncio
E os suspiros da paixão não correspondida
Se vêem os quadros das lágrimas dos que choram por amor
Pode-se tocar o concreto sofrimento dos abandonados
Tudo é etéreo, tudo é difuso
Porque o poeta medita, em profunda solidão, 
vive dentro de si para conseguir ver o mundo
Procurando a morada do poeta, não a vi
Ela não está sobre a terra, não está no horizonte
Descobri então que o poeta, na verdade
Mora na alma dos apaixonados
Vive a eterna dor da finitude da paixão
Em contraste com o amor infinito 
Sua alma abriga todas as penas humanas
E seus olhos enxergam o que ninguém vê
O poeta mora na brisa que sopra
No brilho de cada estrela da madrugada
Nos pingos da chuva mansa que nos acalma
Nos sons do pranto do desesperançado
Ah, poeta, agora que consegui vir à sua casa
Deixa-me, eu também, morar nesse universo...

(Imagem: banco de imagens Google)

Memória – O preço da verdade (há dois anos…)

Qual o preço da verdade? Por que nunca admitimos nossos erros e nos recusamos a assumir a responsabilidade e pagar esse preço?     

Por mais escura que seja a noite, haverá um amanhecer luminoso. E tudo será exposto, tudo será visto, a verdade conhecida e restabelecida.     

Não adianta tentar se esconder, como a lua por trás das nuvens, porque o vento a desnudará.     

Guardamos dentro de nós comportamentos infantis, como acreditar que se cobrirmos nossos olhos com as mãos, estaremos invisíveis. Mas, nunca estivemos nem estaremos.     

Há pessoas que mal enxergam o que está à frente dos próprios olhos. Há outras que nem precisam dos olhos para enxergar. Simplesmente sabem o que está acontecendo, captando no ar o que lhe tentam esconder.     

Fugir nunca foi solução. Porque sempre se pode fugir. Mas nunca haverá um lugar para permanecer escondido.

E disfarçar a culpa é ainda pior. Porque a cara da criança que quebrou o pote mostra claramente o que aconteceu. Ainda que se tenha tentado esconder os cacos.     

Diz-se – com muita propriedade – que se pode enganar alguns por muito tempo, e muitos por algum tempo. Mas não se pode enganar todos o tempo inteiro. É verdade.

E, se alguém é enganado, isso não aconteceu porque o outro é mais esperto. Mas porque o enganado acreditou, confiou ou amou demais.     

Enganar é apenas se aproveitar da confiança e da boa-fé do outro, e não significa ser mais esperto nem mais inteligente.     

Acredito que para ser considerado adulto, o primeiro passo é assumir os erros. Ainda que o preço da verdade seja alto e implique até mesmo em rompimentos sofridos.

Mas seria uma forma de se demonstrar um mínimo de dignidade.

(Imagem: banco de imagens Google)

Dia de poesia – Cândido Arouca – Busca permanente

Se te conhecesse toda,
se soubesse tudo de ti,
se não houvesse mais nada para desvendar,
se fosses previsível,
se fosses perfeita,
onde encontraria eu motivos para te continuar a amar?
É nas incertezas que o teu amor me incendeia,
me revolve,
(quase) me dissolve!
É nesta busca permanente que te desvendo.
É nesta necessidade constante de te conhecer mais todos os dias que me conquistas.
É na incerteza do teu Universo que me sacio e me reencontro!
É nesta expectativa que és inteira e completas o meu todo.
E é assim que te vou querer sempre!”

(Imagem: banco de imagens Google)

Entre almas – Rosita


Essa noite sonhei com você, um sonho incomum
Não de amor, nem sobre todas as paixões cegas, foi um sonho só.
Do limiar que nos entristece, como a dor de uma estúpida solidão
Não foi sobre flores desencontros ou qualquer desculpas.
Neste meu pensar, você não mora mais, não vive, perambula pelos cantos do meu coração
Contei nos dedos aqueles que em comum passaram pela minha vida
Em todos levaram um pouco do meu coração
Sob em cada pedaço um lembrança
Porque todo amor é amor
Das mais leves ondas, do mais alto das emoções.
É, eu tive um nobre sonho com você
Sob todas as coisas, poemas, versos em cada estrofe
Foram rumores, toda sorte que nos manteve
Tão bem como todo sentido nos fez
Mas não foi só por sonhar, como um acordo de almas, quão andava perdida por aí
A vagar, e nela sensações inevitáveis
Até bucólicas
No anoitecer em você meus pensamentos
Do mais durador que seja, do que fomos no amanhecer
Ali, não tivemos nenhuma garantia das inúmeras paixões inventadas
Fomos uma questão quase despercebidas
Um amontoado de dúvidas
Ah, como sonhar este sonho que um dia foste realidade
Tão sentida, frágil por deveras coração partido que ainda se lamenta
Foste perda, inquietações
Do amor, ao desastre final
Em contra partida, você aqui no meu sonho celestial
Que belo presente dos deuses gregos que eu fiz a merecer afinal
Sou pobre poetisa sem inspirações, sem nada mais a querer, pensar
Como tão estranho sonhar, deste significado amor que não era mais amor
O que fica, marca nas memórias, tende a ficar
Não foi Sobre todos os sentidos, palavras que nos deixamos o amor se calar
Todo silêncio foi falho, perturbador .
Entre versos seus ainda vivo, por mais voltas que o mundo dá
Sob fantasias, deslumbre na alma, ilusões desenfreadas o amor ainda continua lá.
Onde se encontra, se diz, desfaz, se repousa
Em todos os verbos, linhas
Onde o amor, que era para ser amor
Em meu sonho, sei que for preciso
Vou ter que acordar
De você tenho recordações
Nos quais, eu ainda sei que nos teus sonhos
Eu estarei sempre lá …

(Imagem: banco de imagens Google)