Mãos

 

Busco suas mãos.

Eu as busco no conhecido e no desconhecido. No finito e no infinito. Na tristeza e na alegria.

Se tenho de atravessar um lindo campo, florido e iluminado, busco suas mãos. Para que você venha comigo, aproveitar desse momento único. Se estou em perigo, sem enxergar, correndo riscos, são elas que procuro para ter força e coragem, pois nelas eu confio.

Ao longo dessa vida busco suas mãos. Para todos os momentos. Para que guiem, sustentem, toquem e acariciem. Da mesma forma as buscarei no infinito, porque a morte não é o fim de um amor. O infinito é logo ali, fica atrás da cortina dessa existência, e lá estaremos juntos – um dará ao outro a mão na hora de atravessar o espelho.

Na tristeza só quero suas mãos. Quero suas mãos me afagando os cabelos, me abraçando e me fazendo acreditar que tudo vai passar. E, quando a alegria dominar novamente, serão suas mãos que buscarei, para nos tocarmos com paixão, e nos completarmos levando à comunhão das almas todo o aconchego que nossas mãos já deram aos corpos.

Por isso busco suas mãos. Hoje, aqui, amanhã, aí, antes, sempre e depois.

Busco suas mãos. Dê-me suas mãos. E vamos juntos conhecer a felicidade de amar.

Bolha de sabão

 

Paira, um momento, tão linda

Coloridamente flutua e roda

E sobe, e desce, e vem, e vai

Tocada por quase imperceptível brisa

 

E, como um ímã, hipnotiza

Já não vemos mais nada ao redor

Nossos olhos, fixos e encantados

Seguem a bolha de sabão pelo ar

 

Ela brinca com cada um que a vê

Chega perto e sorrindo foge

Não se deixa tocar nem prender

Sua vida é encantar e alegrar

 

Mas não nasceu para ficar

Tem de ir, flutuar, deslumbrar

Até que, num súbito momento,

Se desfaça no ar e quebre o encanto…

 

Assim também foi minha paixão

Surgiu num de repente da vida

Bailou, flutuou, me encantou

Hipnotizada eu a segui deslumbrada

 

Suas cores eram as mais lindas

Sua existência se tornou meu existir

E a brisa, teimosa, a levava de mim

Angustiada num momento insano tentei detê-la

 

E diante de meus olhos, agora molhados de lágrimas

Ela se desfez no ar e deixou-me a lembrança

De toda sua beleza, de tanta leveza

E então, no meu sofrer aprendi:

 

Nunca toque, nem tente prender a paixão

Porque ela é mera bolha de sabão…

Maravilhosa Praga

 

 

 

OK, respondo novamente, mas já publico e respondo aqui, de uma vez: 

A foto foi, sim, tirada em um restaurante de Praga, República Tcheca, há alguns bons pares de anos, na verdade, algumas décadas atrás. 

Estava tomando a genuína pilsen, em seu próprio berço – e pedi o copo pequeno, porque não sou muito de cerveja e nem fazia assim tanto calor, cerveja para mim é bebida de praia, de preferência em boa companhia. 

Mas, voltando à foto, foi uma viagem maravilhosa, eu sempre quis ir a Praga. Era um desejo recorrente. 

Eram livros de estórias e histórias que se passavam em Praga, cada vez que me caía um nas mãos sonhava mais e mais ir até lá. Eram filmes feitos na antiga Tchecolosváquia. E os vírus do turista profissional se multiplicando. 

Daí li A Insustentável Leveza do Ser. E quis mais ainda ir a Praga. 

Aí assisti Kolya. E delirei – se não fosse a Praga teria ataques de lombriga, chiliques e piripaques… só esperei a queda do comunismo, o que só veio a ocorrer em 1989, quando a  então Checoslováquia teve de volta a liberdade, através da “Revolução de Veludo“. Era a deixa para eu ir… E não fiz por esperar.

Até que… FUI À PRAGA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 

E não me decepcionei em nada. Era até mais do que eu sempre esperei. 

Estive em lugares que só se tornaram real porque fui lá, vi, ao vivo e em cores, esses locais que  povoavam um rico imaginário que é próprio de quem gosta de ler: 

Katedrála svatého Vítaa maravilhosa e antiga igreja; Pražský hrad , o famoso Castelo de Praga; Pražský orloj, o relógio astronômico medieval,em  rua central, diante do qual multidões param  esperando seus movimentos; Obecní dům – o notável prédio da Câmara Municipal, estilo Art Nouveau –  Vltava, o rio que corta Praga e sua Ponte Carlos; Mala Strana e sua roda d’água, bairro incrivelmente típico, peculiar, muito usado para filmagens;   –  Staroměstské náměstí, a velha Torre…, foram tantas as maravilhas que fica difícil enumerar aqui.  

Vi um grau de civilização bem mais elevado que o nosso aqui, do Brasilsão velho de guerra! 

Vi a temida polícia de preto, resquício dos anos de chumbo. 

Um povo que se redescobre a cada dia, mostra sua alegria de viver, seu empenho em ter a Pátria grande e respeitada, em ver a verdadeira democracia reinar absoluta. 

Vi os telhados vermelhos de Praga e constatei que realmente os telhados em Praga são vermelhos. 

Vi, ainda, a imagem original do Menino Jesus de Praga, que lá é chamado de Deus Menino, vi restos de guerra e, acima de tudo, vi os cristais mais lindos que poderia imaginar.

E ouvi a língua mais esquisita que poderia haver, aprendendo o básico para ser gentil e bem aceita pelos nativos. Mas reconheço, essa é difícil de verdade, não tem nenhum nexo com qualquer língua conhecida.

Imagino como se sentiam os navegadores e exploradores quando se deparavam com populações nativas falando línguas e dialetos absurdamente ininteligíveis. Mas, é claro, pequeno detalhe que em nada embaçou o prazer da viagem. 

Quase não voltei, porque lá estava muito bom, muito bom mesmo. Mas chegou a hora e o avião decolou… 

Quem sabe um dia volto para lá…

 

Hoje é dia de Poesia – Canção

 

Canção

(Cecília Meireles)

 

Pus o meu sonho num navio

e o navio em cima do mar;

– depois, abri o mar com as mãos,

para o meu sonho naufragar

 

Minhas mãos ainda estão molhadas

do azul das ondas entreabertas,

e a cor que escorre de meus dedos

colore as areias desertas.

 

O vento vem vindo de longe,

a noite se curva de frio;

debaixo da água vai morrendo

meu sonho, dentro de um navio…

 

Chorarei quanto for preciso,

para fazer com que o mar cresça,

e o meu navio chegue ao fundo

e o meu sonho desapareça.

 

Depois, tudo estará perfeito;

praia lisa, águas ordenadas,

meus olhos secos como pedras

e as minhas duas mãos quebradas

Tempo

Fiz um acordo de coexistência pacífica com o tempo: Nem ele me persegue, nem eu fujo dele, um dia a gente se encontra. (Mário Lago)

 

Há tantos mistérios na vida…

Por exemplo: em que momento, na noite que antecede o dia do aniversário, que se fica mais velho?

Vai-se dormir com uma idade e se acorda no dia seguinte com outra idade. Quando acontece essa nova idade?

Uma noite se vai dormir adolescente, com dezessete anos, no dia seguinte se acorda adulto, responsável, passível de prisão, podendo tirar a habilitação. Mágica essa noite que antecede o dia do aniversário, certo?

E não tem volta.

Um dia se vai dormir jovem com vinte e nove anos e no dia seguinte se amanhece com trinta anos – terrível para as mulheres.

O mesmo quando se passa dos trinta e nove para os quarenta anos – e parece que todo mundo fica sabendo, porque em todo lugar se começa a ser tratada por senhora…

Em algum lugar o tempo tem de reverter, porque não dá para ir sempre adiante, não existe isso. Será que algum dia alcançaremos esse ângulo que dá o caminho de volta, e os aniversários serão contados para trás – com reversão física, na aparência, recuperando a juventude ida e perdida?

Ou de repente saímos desse círculo então estaremos sempre caminhando em linha reta até atingir um fim?

E o pior é esse seguir adiante, envelhecendo um pouco a cada dia e um ano na fatídica noite que traz o dia do aniversário?

E hoje me pergunto: onde e quando perdi a alegria da véspera do aniversário, e ainda mais aquela do próprio dia, que, se eu pudesse, certamente eu o tiraria do calendário?

Ficou esquecida em algum canto da vida, caída, por certo, do pacote das ilusões, que se foram perdendo ao longo de todos esses anos.

Vou pular a fogueira, e você?

Eu pedi numa oração / Ao querido São João

Que me desse um matrimonio / São João disse que não

São João disse que não / Isto é lá com Santo Antônio …

E junho chegou. 

Festa para todo lado. No fundo o brasileiro gosta mesmo é dessas festas populares, quermesse na praça da Matriz, tudo genuíno, tudo de uma singeleza histórica ímpar. 

Penso que todos conhecem essas típicas festas juninas, homenageando os três santos do mês: primeiro o casamenteiro Santo Antonio, que abre as festas no dia 13; depois São João, com a noite mais longa do ano, no dia 24 e finalmente vem São Pedro, no dia 29, fechando o mês e as festas com suas chaves.

Para quem é, mora, foi ou morou na roça, tudo isso tem um sabor especial. 

Lá na roça a festa começa bem antes. 

Escolhe-se o local, o terreno é aplainado – sem dança não é festa junina. 

Faz-se o buraco da fogueira, que fogueira que se preza, fogueira de verdade não é do chão para cima, ela começa a ser montada lá no fundo e é de dentro do buraco que sai que sai a armação que sustentará o fogo. 

Estende-se o oleado – a não ser que já exista um bom barracão, daqueles de guardar tratores e máquinas, que então é desocupado e varrido, e nesse lugar ficará a mesa. 

Não é uma mesa. Nem uma mesinha. 

É uma respeitável mesa, compridíssima – geralmente uns quatro metros pelo menos, e é feita com pranchas de madeira sobre cavaletes, num improviso que se repete em todas as festas. 

Cadeiras ao redor, algumas mesas de apoio, tudo simples, tudo bonito, enfeitado com flores e ramos, sem maiores gastos. 

As lâmpadas – ou lamparinas de querosene, depende das instalações, são providenciadas. 

O mastro. 

A madeira para a fogueira é cortada e durante algum tempo os homens terão uma folga. A não se que queiram montar balões. 

As crianças recebem a tarefa de recortar e colar no barbante milhares de bandeirinhas coloridas, que depois os homens estenderão e pregarão sobre o local da festa.

 As mulheres, na cozinha, preparam a comida. E que comida! E que fartura! 

Um bom caldo – de preferência uma canja feita com o galo velho do terreiro, porque o frio é intenso. 

E além de bolachinhas diversas, pé-de-moleque, paçoca, cuscuz, milho assado, frangos (que nunca faltam na roça), arroz-doce, canjica, curau, pipoca, pamonha, bolo de milho, amendoim torrado, maçã caramelizada – a deliciosa maçã do amor, pinhão e, o que não pode faltar, o quentão, e, modernidade, o vinho quente com especiarias. 

As roupas são preparadas com todo o cuidado. 

A fogueira é acesa um pouco antes para estar bonita quando os convidados chegarem. 

E chega a festa. A vizinhança vai chegando, muitos pratos são trazidos para aumentarem a fartura à mesa, casais vão se formando e outros, já vem formados, a maioria se separa: homens para um lado, conversando assuntos da roça e mulheres do outro, trocando receitas e olhando as crianças. 

A festa começa com a reza do terço – geralmente o padre já está no local, de batina e tudo. 

Depois o mastro é levantado. Começa a diversão. O Santo do dia é homenageado. 

E então entra em cena o sanfoneiro. Não existe festa junina sem sanfoneiro. Podem inventar televisão, vídeo-cassete, DVD, vitrola, toca-discos, CD Player, Home Theater, nada anima uma autêntica festa junina. Mas, no primeiro chorado do acordeom, o sanfoneiro põe fogo no recinto. 

As músicas – ainda que sempre as mesmas, divertem e todos conhecem as letras. 

Muitas vezes tem o casamento, geralmente o noivo só entra no recinto depois da noiva e com o pai e os irmãos desta armados com espingardas escoltando o “feliz” nubente. 

Dança-se a quadrilha – arremedo dos minuetos franceses de outros séculos, porém mais divertida. 

É balão subindo, é criança correndo com bombinhas para se assustarem na brincadeira, é rojão quase derrubando os dorminhocos das cadeiras. 

No final tem padre dançando, idosos cantando, todos se divertindo numa confraternização saudável e tradicional. 

Nestas ocasiões fica mais que comprovado que alegria é contagiante. 

E, depois de bastante quentão servido, tem outra diversão: pular a fogueira. Em criança eu ficava apavorada ao ver os homens dando a corridinha e saltando por sobre o fogo. 

Depois de grande, quando talvez até arriscasse eu mesma pular uma fogueira, não tem mais fogueira de São João, nem de São Pedro, nem de Santo Antonio. 

Mas um dia – quem sabe – encontro os três juntos lá para onde eu for, e aí pularei quantas fogueiras quiser.