Vou pular a fogueira, e você?

Eu pedi numa oração / Ao querido São João

Que me desse um matrimonio / São João disse que não

São João disse que não / Isto é lá com Santo Antônio …

E junho chegou. 

Festa para todo lado. No fundo o brasileiro gosta mesmo é dessas festas populares, quermesse na praça da Matriz, tudo genuíno, tudo de uma singeleza histórica ímpar. 

Penso que todos conhecem essas típicas festas juninas, homenageando os três santos do mês: primeiro o casamenteiro Santo Antonio, que abre as festas no dia 13; depois São João, com a noite mais longa do ano, no dia 24 e finalmente vem São Pedro, no dia 29, fechando o mês e as festas com suas chaves.

Para quem é, mora, foi ou morou na roça, tudo isso tem um sabor especial. 

Lá na roça a festa começa bem antes. 

Escolhe-se o local, o terreno é aplainado – sem dança não é festa junina. 

Faz-se o buraco da fogueira, que fogueira que se preza, fogueira de verdade não é do chão para cima, ela começa a ser montada lá no fundo e é de dentro do buraco que sai que sai a armação que sustentará o fogo. 

Estende-se o oleado – a não ser que já exista um bom barracão, daqueles de guardar tratores e máquinas, que então é desocupado e varrido, e nesse lugar ficará a mesa. 

Não é uma mesa. Nem uma mesinha. 

É uma respeitável mesa, compridíssima – geralmente uns quatro metros pelo menos, e é feita com pranchas de madeira sobre cavaletes, num improviso que se repete em todas as festas. 

Cadeiras ao redor, algumas mesas de apoio, tudo simples, tudo bonito, enfeitado com flores e ramos, sem maiores gastos. 

As lâmpadas – ou lamparinas de querosene, depende das instalações, são providenciadas. 

O mastro. 

A madeira para a fogueira é cortada e durante algum tempo os homens terão uma folga. A não se que queiram montar balões. 

As crianças recebem a tarefa de recortar e colar no barbante milhares de bandeirinhas coloridas, que depois os homens estenderão e pregarão sobre o local da festa.

 As mulheres, na cozinha, preparam a comida. E que comida! E que fartura! 

Um bom caldo – de preferência uma canja feita com o galo velho do terreiro, porque o frio é intenso. 

E além de bolachinhas diversas, pé-de-moleque, paçoca, cuscuz, milho assado, frangos (que nunca faltam na roça), arroz-doce, canjica, curau, pipoca, pamonha, bolo de milho, amendoim torrado, maçã caramelizada – a deliciosa maçã do amor, pinhão e, o que não pode faltar, o quentão, e, modernidade, o vinho quente com especiarias. 

As roupas são preparadas com todo o cuidado. 

A fogueira é acesa um pouco antes para estar bonita quando os convidados chegarem. 

E chega a festa. A vizinhança vai chegando, muitos pratos são trazidos para aumentarem a fartura à mesa, casais vão se formando e outros, já vem formados, a maioria se separa: homens para um lado, conversando assuntos da roça e mulheres do outro, trocando receitas e olhando as crianças. 

A festa começa com a reza do terço – geralmente o padre já está no local, de batina e tudo. 

Depois o mastro é levantado. Começa a diversão. O Santo do dia é homenageado. 

E então entra em cena o sanfoneiro. Não existe festa junina sem sanfoneiro. Podem inventar televisão, vídeo-cassete, DVD, vitrola, toca-discos, CD Player, Home Theater, nada anima uma autêntica festa junina. Mas, no primeiro chorado do acordeom, o sanfoneiro põe fogo no recinto. 

As músicas – ainda que sempre as mesmas, divertem e todos conhecem as letras. 

Muitas vezes tem o casamento, geralmente o noivo só entra no recinto depois da noiva e com o pai e os irmãos desta armados com espingardas escoltando o “feliz” nubente. 

Dança-se a quadrilha – arremedo dos minuetos franceses de outros séculos, porém mais divertida. 

É balão subindo, é criança correndo com bombinhas para se assustarem na brincadeira, é rojão quase derrubando os dorminhocos das cadeiras. 

No final tem padre dançando, idosos cantando, todos se divertindo numa confraternização saudável e tradicional. 

Nestas ocasiões fica mais que comprovado que alegria é contagiante. 

E, depois de bastante quentão servido, tem outra diversão: pular a fogueira. Em criança eu ficava apavorada ao ver os homens dando a corridinha e saltando por sobre o fogo. 

Depois de grande, quando talvez até arriscasse eu mesma pular uma fogueira, não tem mais fogueira de São João, nem de São Pedro, nem de Santo Antonio. 

Mas um dia – quem sabe – encontro os três juntos lá para onde eu for, e aí pularei quantas fogueiras quiser.

 

 

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