Haicais – poesia da natureza

 

 

  Cintila na noite

Riscando a escuridão

   – Lindo vagalume

 

 

                                         Caiu uma gota

                               com força outras vieram

                                     começa a chover

 

 

 

     São fortes as cores

das asas das borboletas

      – flores a voar

 

 

 

Amar (Dia de poesia, ou, dos namorados)

Não se há definir amar

e muito menos lhe impor regras.

Amar dispensa definições,

não cabe em simples verbetes.

Se a paixão é uma torrente,

o amor é um turbilhão.

A quem na vida coube amar

– dádiva divina,

também coube muito sofrer –

lágrimas que se misturam…

Se num momento se vai ao céu,

logo em seguida se desce ao inferno.

A dúvida é companheira constante,

um eterno desassossego:

é um bem-me-quer-mal-me-quer sem fim.

Ama-se no outro o que falta em si

e se espera ser completado.

Não se ama por uma razão,

amar não tem um por que.

É um sentir de tanto querer,

 um querer de muito sentir.

Sem limites, sem regras,

sem cobranças, sem lógica,

apenas amar

Janela de ver a vida

  Je rends grâce à cette terre qui exagère tant la parte du ciel. (Roger Caillois)

 

Da vidraça da janela vejo a vida passando pela rua. Pessoas, carros, bicicletas, motos, alguns ônibus.

Onde vai toda essa gente? Por que só eu estou dentro de casa?

Do outro lado da rua vejo uma moça na outra vidraça. É uma vitrine e a moça é de resina – ou gesso – não sei do que são feitos os manequins de vitrines.

Por que as moças que não são de verdade são tão perfeitas? Por que seus cabelos estão sempre penteados, sua maquiagem nunca está borrada nem a meia desfiada?

Sentado de costas para a parede vejo um homem com seu cão, que dividem uma refeição em uma marmitinha de papel alumínio.

Por que para eles essa comida miserável é tão apetitosa? Por que nada lhes faz mal e eles não ficam doentes de comer sobras que não fora guardadas com todos os requintes que a saúde pública exige?

Passando alegres e saltitantes vejo duas adolescentes voltando da escola.

Por que para os jovens a vida é tão leve? Por que acham tudo maravilhoso e vivem tão intensamente como se não houvesse um amanhã?

Logo depois vejo um casal que passa empurrando um carrinho de bebê. Conversam despreocupadamente da mesma forma que o bebê dorme.

Anoitece, está na hora de fechar a janela e enfrentar a vida aqui deste lado. Já não vejo mais nada, mas suspeito – seriamente – que lá fora a vida continuar palpitante e iluminada, não partilhando o escuro que reina dentro de mim.

(05.11.08)

Sinto falta

Sinto saudades de ti, sem ainda te ter.

Sinto desejo de ti, sem nunca te ter tocado.

Sinto a tua falta, sem nunca teres estado junto de mim.

Sinto o que nunca aconteceu como que tudo tivesse acontecido.

Sinto falta do teu calor, sem nunca te ter tocado.

Sinto falta do teu amor sem nunca me teres amado.

Sinto falta das palavras de amor que nunca proferiste.

Sinto falta dos teus abraços que ainda não me deste.

Sinto falta e desejo de tanta coisa que conosco nunca aconteceu, porque sinto no teu olhar, que sentes o mesmo que sinto eu.

Sinto que quando olhas para mim, fantasias comigo, o que nunca aconteceu e que de noite na cama, sonhas comigo, como que eu já fosse teu.

É verdade!

Sentimos falta, do que entre nós, nunca aconteceu, mas que acontece, todas as noites, em que eu sonho que já és minha e que tu sonhas, como que eu já fosse teu.

Sentimos desejo do que nunca aconteceu e só deixará de haverá desejo quando tu já fores minha e eu já for teu.

Mas se o desejo continuar, é porque ainda não nos amamos o suficiente. para que ele possa acabar, ou então, nosso amor é ilimitado e quanto mais nos amarmos, mais nos desejamos amar…

(Piátnitsa Melo)

Da alegria

Hoje é domingo.

Mais – ou menos – um domingo na nossa vida.

Não importa, sendo mais ou sendo menos, temos de vivê-lo. Ou superá-lo. Enfrentá-lo. Com alegria.

Meu avô sempre destacou a alegria. Que devíamos por alegria em tudo o que fizéssemos.

Levei muito tempo para entender sua lição. Talvez só tenha absorvido completamente essas palavras depois de sua morte, em dos dias mais tristes que vivi, e que deixou um vazio imenso – onde mais tantas lições, tanta sensibilidade para falar sobre a vida, sobre a tristeza, sobre a superação, sobre tudo o que nos torna mais humanos?

Mas, sempre guiada em suas palavras, toquei minha vida nesses quase 35 anos órfã de meu avô  “… A casa de meu avô… Nunca pensei que ela acabasse! Tudo lá parecia impregnado de eternidade. Recife… Meu avô morto…”, escreveu Manuel Bandeira em Evocação de Recife. E a casa de meu avô também se foi, morta, ficou presa em um passado enroscado no peito e na saudade.

E comecei a pensar muito na palavra “alegria” que ele tanto usava.

E entendi, um dia, como em um flash, o que é a alegria. A alegria que devemos por até mesmo na tristeza que sentimos. A alegria que temos de ter sempre dentro da alma para conseguirmos superar tudo – até mesmo a depressão.

Porque alegria não é rir do palhaço no circo.

Alegria não é a felicidade de ver o nascimento de mais um filho/neto/sobrinho…

Alegria não é o abraço de amor pelo qual tanto ansiamos.

Alegria é o combustível da vida. É sentir que somos. Que podemos. Que conseguiremos.

Alegria é o ingrediente secreto que deve ser posto – com cautela e na dose certa – em cada ato de nossa vida.

Desde abrir os olhos pela manhã com a alegria de ter mais um dia, quanto a alegria de nos despedirmos de quem parte para sempre, pelo que esse alguém foi na nossa vida. A alegria de saber que esses nossos mortos viverão para sempre dentro de nós, com suas palavras, seus ensinamentos, o norte que sempre nos deram.

Alegria de ter um trabalho para executar e, fatigado, mas com alegria, no final do dia encerrar mais uma jornada, pelo que nos foi proporcionado.

Alegria pelos dons que recebemos. Alegria até mesmo na dor, na doença, no desespero, de saber que haverá um amanhã e que tudo isso passará.

Então, em mais – ou menos – um domingo de nossa vida, só desejo que todos tenhamos um dia com muita alegria.

Hoje é dia de Poesia – Neruda

Para mi corazón basta tu pecho,
para tu libertad bastan mis alas.
Desde mi boca llegará hasta el cielo
lo que estaba dormido sobre tu alma.
Es en ti la ilusión de cada día.
Llegas como el rocío a las corolas.
Socavas el horizonte con tu ausencia.
Eternamente en fuga como la ola.
He dicho que cantabas en el viento
como los pinos y como los mástiles.
Como ellos eres alta y taciturna.
Y entristeces de pronto como un viaje.
Acogedora como un viejo camino.
Te pueblan ecos y voces nostálgicas.
Yo desperté y a veces emigran y huyen
pájaros que dormían en tu alma.

(Poema nº 12 de Veinte Peomas de amor y una cancipon desesperada – Pablo Neruda)