Poesia da casa – Vem me buscar

Vem me buscar!

Traz a paz que já não tenho

E a alegria que eu perdi

Mas vem me buscar

Não conseguirei sair sozinha

Como um barco preso, sem saída

Esquecido em um remanso qualquer

Que anseia pela liberdade de seguir

Que chora pelo rio que já não vê

Vem me buscar!

Traz a confiança que eu preciso

E a fé que eu perdi

Mas vem me buscar

Como um pássaro cativo em uma gaiola

Eu me debato inutilmente neste lugar

E o desespero de meu canto não é notado

Não poderei abrir essa porta trancada

Que me prende sem compaixão

Vem me buscar

Traz a paixão que em mim esfriou

E a vontade de viver que perdi

Como uma mulher abandonada,

Que chora pelo amor perdido

E espera pela redenção

Vem me buscar!

(Imagem: foto de Carlos Eduardo Ferreira)

Canção das mulheres – Lya Luft

Que o outro saiba quando estou com medo, e me tome nos braços sem fazer perguntas demais.

Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta, mas entenda que não o amarei menos porque estou quieta.

Que o outro aceite que me preocupo com ele e não se irrite com minha solicitude, e se ela for excessiva saiba me dizer isso com delicadeza ou bom humor.

Que o outro perceba minha fragilidade e não ria de mim, nem se aproveite disso.

Que se eu faço uma bobagem o outro goste um pouco mais de mim, porque também preciso poder fazer tolices tantas vezes.

Que se estou apenas cansada o outro não pense logo que estou nervosa, ou doente, ou agressiva, nem diga que reclamo demais.

Que o outro sinta quanto me dói a ideia da perda, e ouse ficar comigo um pouco – em lugar de voltar logo à sua vida.

Que se estou numa fase ruim o outro seja meu cúmplice, mas sem fazer alarde nem dizendo ”Olha que estou tendo muita paciência com você!”

Que quando sem querer eu digo uma coisa bem inadequada diante de mais pessoas, o outro não me exponha nem me ridicularize.

Que se eventualmente perco a paciência, perco a graça e perco a compostura, o outro ainda assim me ache linda e me admire.

Que o outro não me considere sempre disponível, sempre necessariamente compreensiva, mas me aceite quando não estou podendo ser nada disso.

Que, finalmente, o outro entenda que mesmo se às vezes me esforço, não sou, nem devo ser, a mulher-maravilha, mas apenas uma pessoa: vulnerável e forte, incapaz e gloriosa, assustada e audaciosa – uma mulher.

(Imagem: fotomontagem de Maria Alice)

Texto de Franciane Costa

Sei que é estranho, mas sinto saudade de tudo que não vivi com você. Ultimamente ando meio assim, deve ser coisas da idade ou a solidão batendo na porta. Lembro com carinho que você sempre dava um jeito de mandar uma mensagem, estivesse você casado, namorando ou ilhado num templo budista, era como se dissesse sem dizer: “Sei que já faz tempo, mas eu ainda amo você”. Sinto falta do seu abraço e do seu olhar que dizia tudo sem pronunciar uma palavra sequer e hoje me vejo aqui lembrando sozinha trancada no mundo. Você nunca soube, mas eu te amei. Sempre fui assim, as pessoas que realmente mereciam nunca ouviram isso de mim, agora não tenho nem como me arrepender, você já tem alguém para preencher o lugar que sempre foi meu, mas eu nunca quis ocupar. Talvez um dia você ligue para dizer que continuo sendo sua grande e velha amiga, ai sim eu vou dizer: “Sei que é tarde, mas ainda amo você”.

Dia de poesia – Soninha Porto

Hoje você tocou em mim.
despertou  enfim
o gosto por te amar
afloraram os carinhos 
acalentou meu ninho 
paciente soube esperar  
e ao me olhar 
percebeu que ali estava 
a mulher que tanto esperavas
ansiosa por tuas palavras
as de amor tantas vezes ditas
e que antes não eram ouvidas
por uma resistência maldita
eu fingia não ouvir 
e não queria sentir 
e trouxe esta música perfeita
com belas frases feitas
que embalam meu coração
e mandam embora uma ilusão
Agora vês?
Estou pronta para teu amor 
sinto que vou renascer.

(imagem: banco de imagens Google)

Memória do blog – Tanta saudade

De quem é a culpa?

Ah, saudade…

Tanta saudade, tanta ausência, tanta falta…

Às vezes penso que sou feita só de saudade, por isso a distância existe – para que eu também possa existir…

Não há Drummond, Vinicius ou Neruda que consiga cantar a saudade que sinto. Essa saudade é tão minha, tão carne, tão sangue, que outros não a pressentem nem sentem. Só eu posso tê-la, senti-la, descrevê-la. É o que mais tenho de meu nessa vida: essa saudade, companheira inseparável, péssima conselheira, grande estimuladora de bobagens, bebedeiras, e lágrimas.

Porque sentir saudade é viver do que não há; é tentar forçar a realidade dentro da névoa do esquecimento; é tentar esquecer dentro do whisky; é chorar, chorar e chorar…

A vida, muitas vezes, é leve, mas a saudade que arrasto tem um peso imensurável.

A presença é pouca, é pequena. Mas a ausência, ah, essa é ilimitada. E a saudade que a ausência traz é de tamanho indescritível.

E por isso o sorriso se torna raro. A alegria se esgarça.

Caminho, levando comigo o fardo e a doçura dessa imensa saudade. Que se tornou, depois de tanto viver a meu lado, a única e fiel companhia que tenho.

(Imagem – banco de imagens Google)

Desespero

Não, não é sobre viver. Mas sobre como sobreviver.

Quando todas as portas se fecharam, o escuro e o silêncio se fizeram a seu redor, e você, paralisado, já não tem para onde ir.

Você poderia estar, alegremente, buscando um novo imóvel para se mudar e começar uma nova vida.

Mas você se surpreende entrando em uma agência funerária e escolhendo uma urna para suas cinzas.

Você poderia estar planejando uma nova viagem, nova aventura, novo viver. Mas apenas marcou na agenda uma data limite para suportar o peso da vida. E essa data se aproxima a passos largos. Você não tem saída. Sabe quando e onde. Mas ainda precisa decidir o como.

Você poderia estar comprando novas roupas, novos livros, fazendo planos. Mas está esvaziando os armários, doando para obras de caridade, bibliotecas públicas, porque nada mais será necessário.

Você poderia estar planejando uma nova vida. Mas só consegue planejar a morte.

Você poderia estar escrevendo, neste momento, um post apaixonado. Mas faz mais sentido escrever seu testamento.

Isso tem nome. Isso machuca. Isso dói.

Isso é mais do que desespero – isso é desesperança.

(Imagem: banco de imagens Google)