Despedida

Ficou parada no vão da porta, observando enquanto a velha tia cochilava, tranquila, em sua poltrona. Sentiu-se inundada das lembranças daquela sala, o “seu” sofá, onde era a única pessoa autorizada a deitar… a mesa de canto, pequena, com duas poltronas onde tomavam chás, sucos ou café, com bolachinhas caseiras enquanto punham a conversa em dia.

Há três dias, no outro lado do mundo, recebeu uma ligação de sua mãe. Estava com voz preocupada que traduzia tristeza. Sua tia está morrendo, disse. Ela não diz nada, mas espera ansiosamente por você. Dá um jeito de vir.

Imediatamente entrou num site de passagens, fez a compra, largou tudo e voou quase um dia. Mas precisava vir.

Olhava com ternura a velha senhora, tão diminuída pela idade, os traços quase irreconhecíveis pela velhice, mas que tinha sido sempre seu mundo de amor incondicional.

A tia acordou. Olhou desinteressada ao redor. Notou o vulto encostado no batente. Levou um susto. Levantou o corpo, apertou os olhos.

– Você! Você!

Levantou-se e veio devagar, como se tivesse medo que ela desaparecesse, que não fosse real o que via…

Abriu os braços.

– Tia, estou aqui. Senti saudade e vim vê-la.

Abraçou o pequeno corpo e se perguntou onde estava aquela tia grande, sólida, que tanta segurança lhe dava.

Voltaram abraçadas até a poltrona, a tia se sentou. Ela se sentou no sofá ao lado. O sorriso da idosa a rejuvenescia décadas, era o mesmo riso de toda sua vida, desde o nascimento.

– Você deve estar cansada. Deita aí, minha filha.

Ah, como era bom essa voz, que continuava incrivelmente a mesma, aveludada e carinhosa, autorizando a deitar no sofá…

Deitou-se de forma a ficar de frente para a tia, vendo seu rosto e segurando sua mão.

Aquela mão que tanto a segurara… sempre lhe tirara os medos. Pedra, poça, muro, degrau, tudo que era intransponível, e a tia, com aquela mão estendida e a voz calma dizendo “Venha, princesa, pode vir que eu ajudo você a conseguir”.

Assim foi tudo o que conseguiu na vida. Até a carreira.

Aqueles mesmos braços que a seguraram forte quando bebê, a ampararam quando começou a andar, e deram adeus quando se foi para o outro lado do mundo buscar seu próprio caminho. “Vai com Deus, minha flor. E já sabe, estou aqui para o que precisar”.

Sabia. E como sabia. Como sempre soube, desde sempre. Estava ali, para resolver as disputas com os irmãos. Para ajudar nas lições da escola quando começaram a ficar difíceis. Para mediar os desentendimentos com os pais quando adolescente. Para completar o dinheiro quando as contas eram maiores que os meses. Para rirem juntas, delas mesmas, dos outros, das coisas…

Às vezes nem precisava pedir. Bastava pensar intensamente nela, e, como se adivinhasse, ela aparecia. “Está precisando de alguma coisa, minha querida? Posso ajudar?”

Toda a segurança que veio dela, e nunca percebeu que ela envelhecera, pois continuava a ser seu porto seguro. Nunca pensara nela como simples mortal. Sabia que um dia os pais e os irmãos morreriam, como morreram os avós e alguns tios mais velhos. Mas ela? Ela era eterna, imortal em seu imaginário.

– Pensando em que, florzinha?

– Nada, tia.

– Você deve estar cansada. Mas estou tão feliz que esteja aqui. Você está de férias?

– Estou. E vim ficar uns dias aqui com a senhora. Matar as saudades, rir um pouco. Estou carente de amor e colo…

– Veio no lugar certo, que bom que ficaremos juntas uns dias, como nos velhos tempos…

Sorriu alegre. Fechou os olhos e mergulhou em suas lembranças. Começou a cochilar.

Olhou com ternura para a tia, também estava cansada, com sono depois do longo e desconfortável voo. Adormeceu.

Acordou de repente, sem saber onde estava. Voltou à realidade. Alguém a cobrira com uma delicada colcha, o dia terminava e uma luminosidade mortiça entrava pelas frestas da cortina, tornando o ambiente surreal.

Viu que a tia cochilava, mas não se soltaram as mãos. As mãos que sempre se encontraram e se ampararam.

Voltou a dormir. Sonhou que voava junto com a tia. Não tinha asas. Mas as asas da tia bastavam para as duas voarem juntas. E foram se distanciando de tudo, a paisagem foi diminuindo, o corpo cada vez mais leve. E a tia a levava, e ela ia confiando cegamente porque estava segura, estava com quem sempre a protegera.

Repentinamente, as mãos se soltaram e ela se viu solta no ar, sabia que cairia, tentou gritar e acordou assustada, respirando com dificuldade.

A tia soltara sua mão, e, ainda guardando um sorriso de felicidade, mansamente se fora, voara para outra dimensão…