Do mar a Nelson Rodrigues, passando por orcas e cães…

O mar é lindo. Sempre. Qualquer que seja o nome que lhe deem, ou o ponto do globo terrestre onde se encontra.

Mas, em alguns lugares é especialmente espetacular. Na Patagônia, em especial o conjunto de mar, praias e falésias da Península Valdés é de uma beleza ímpar.

Naquele remoto lugar um biólogo e pesquisador – Beto Bubas – vivia como guarda-fauna. Por algum motivo não explicado, as orcas que ali habitam desenvolveram dois comportamentos totalmente diferentes de sua espécie: buscavam seu alimento na praia, caçando quase na faixa de areia, com uma habilidade única em vista de seu peso e tamanho. E – ainda mais extraordinário – estabeleceram um relacionamento com um ser humano, o próprio Bubas.

Esse fato, único por si, despertou a inveja e a ira de outros responsáveis pela manutenção da vida selvagem local. E Bubas foi tirado do local onde, por mais de dez anos, estudava as orcas e seu peculiar comportamento.

Transformada em filme – O farol das orcas – a história, aliada à deslumbrante paisagem, tem encantado os telespectadores.

 Bubas foi punido porque não deveria se aproximar das orcas, nem tocá-las.

Mas as orcas vinham até Bubas. Ele era um membro da família delas. Brincavam com o biólogo, jogando algas na areia para que ele jogasse de volta, como se brinca com cachorro, ao qual se joga uma bola ou um pedaço de pau.

Ele nadava com as orcas. Elas acorriam ao toque de sua gaita.

Enfim, os animais, mesmo selvagens, interagiam com esse homem, que ficou conhecido como o “encantador de orcas”.

Como puni-lo por amar os animais pelos quais deveria zelar?

Aí está a questão que ponho, comparando a realidade da situação desses animais – livres, soltos, selvagens, que se aproximaram de um ser humano – e só dele – e de outros animais, capturados, torturados, vivendo em cativeiro, para dar lucro a homens sem princípios morais, sustentados pela ignorância dos frequentadores desses lugares?

A atitude respeitosa de Bubas pelas orcas não as expunha a risco nem descaracterizava sua natureza. São animais imensos, pesados, belíssimos, sociáveis, que devem ser preservados. Mas os mesquinhos quiseram convencer o mundo que Bubas não podia ter amizade com os animais.

E esse mesmo mundo, ainda mais mesquinho, tolera circo com animais, aquários onde baleias, golfinhos e orcas vivem em cativeiros, nem sempre adequados, sendo adestrados muitas vezes com dores e torturas, apenas para divertir humanos que não entendem que prender um animal é contrariar sua natureza.

Que orcas e golfinhos não existem para divertir quem pode pagar para entrar nesses tanques e tocar nos animais. Isso é insano. Primitivo. Remonta ao começo da humanidade, quando a diversão dos homens era judiar dos animais e de outros homens.

Quando há um “acidente”, como aqueles que envolveram a orca Tilikum, que, em ocasiões diferentes, matou três treinadores, fazem várias reportagens espalhafatosas para chamar público e depois continua tudo igual.

Os casos de golfinhos que atacam turistas nos tanques são abafados para não prejudicar a arrecadação.

Os animais vivem estressados, isolados, não têm liberdade nem convivência com outros de sua própria espécie. Mas tudo bem. Dá dinheiro, a maldição da humanidade. Então pode.

É algo tão surreal ver um homem ser punido por respeitar os animais enquanto outros são pagos para fazer o contrário.

Da mesma forma, não entendo seres humanos que dizem adorar seus animaizinhos de estimação como se fossem seus filhos.

De se deixar bem claro que um animal nunca foi, não é, nunca será nem pode ser filho de seres humanos.

Amamos os filhos, se temos a infelicidade de perder um filho, choraremos eternamente essa morte, esse vazio que nada poderá preencher estará sempre presente na ausência do filho que se foi.

No entanto, quando o animalzinho “amado como filho” morre, o dono corre para comprar outro e colocar no lugar. Não é preciso dizer mais nada. Nem comentar.

Amamos nossos filhos e trazemos amiguinhos para que brinquem junto. Colocamos em escola e atividades extracurriculares para que se socializem. Levamos em festas, e os buscamos de madrugada, porque é importante que tenham amigos e convivam com pessoas da mesma idade.

Mas segregamos um animalzinho em nossa casa e o mantemos em cativeiro sem qualquer possibilidade de convivência com seres de sua espécie.

Amamos nossos filhos e os ensinamos a andar. A serem independentes. A pensarem por si. A viverem a própria vida e trilharem o próprio caminho.

E carregamos no colo um animalzinho perfeito, apto a andar sozinho e viver a própria vida.

Ou seja, os humanos são animais egoístas, egocentristas e não se preocupam o mínimo com o bem dos animais que dizem amar e preservar.

Porque amar é respeitar. Dar liberdade. Ajudar a crescer.

Não se divertir às custas de.

Nem descontar as próprias carências em um ser indefeso que não tem sequer como se rebelar.

Certos estavam Ronaldo Golias quando dizia que “a civilização não se comportou bem”, ou o grande Nelson Rodrigues com seu conceito de que “a humanidade não deu certo”…