Uma simples coisa

L’importance soit dans ton regard, non dans la chose regardée. (André Gide)

Resultado de imagem para uma porta entreaberta

Na alucinante correria de todas as manhãs, não teve tempo para verificar por que se sentia tão estranha.

Levantou-se num salto, trocou-se sem tempo de se olhar no espelho. Arrumou a mesa correndo enquanto pilotava o fogão, preparando a preferência de cada membro da família.

Não que alguém fosse perceber tudo isso, mas, se algo faltasse, seria notado de imediato. Enquanto tudo funcionava como sempre foi e como achavam que sempre deveria ser, ninguém a notava nem a incomodava também.

Realmente só era notada pelo não fazer, pelo mau funcionamento; nunca pelo fazer, pelo proporcionar algo à família. Só se dirigiam a ela para cobrar: – Cadê minha bolsa / meus óculos / minhas chaves? Ou – Você NÃO comprou meus cereais / NÃO lavou meus tênis / NÃO passou minha camisa?

Fora ela própria, há muito coisificada no relacionamento familiar, porém não se importava – doera intenso, mas agora pouco incomodava.

Entretanto, nessa manhã em especial, continuar a se sentir de forma estranha. Era como se ninguém a enxergasse.

Tentou ir até a janela. Não conseguiu sair do lugar. Estava presa ao batente. Duas ou três dobradiças a prendiam.

O Filho tentou passar e se sentiu ameaçado por sua posição; violentamente, empurrou-a com o pé.

– O que foi? – perguntou o Pai.

– Esta droga dessa porta que nem abre nem fecha, fica no meio do meu caminho, até parece minha mãe… – respondeu o Filho.

– Acerte-lhe um bom chute, que ela logo encontra seu lugar – disse o Pai.

Quis chorar, mas não conseguiu, ao descobrir que amanhecera transformada em porta. Portas abrem e fecham; portas não choram…