A minha noventena

É incrível, quase inacreditável, hoje completo noventa dias de isolamento. Quarentena, ou melhor, noventena.

Até agora me pergunto como isso pode estar acontecendo… seria mesmo necessário toda essa quebradeira? Tanto desemprego, fome, desespero? Os números não confirmam essa necessidade, só demonstram que o pânico e a histeria incentivados pela mídia podre resultou em uma situação insustentável. É a pobreza, a miséria, chegando a galope.

E o povo, ah, pobre povo, ignorante e desinformado, só sabe o que está na folha e no jornal funeral.

Muito triste ver um povo acarneirado por anos de desmandos, conivente com a corrupção, que aplaude os ignaros e endeusa bandidos, sendo capturado para domesticação como se todos fossem porcos selvagens.

E, porcos que são, serão conduzidos para serem enterrados no buraco que ora cavam. E recebendo informações que pessoas foram contaminadas absolutamente isoladas dentro de casa. Onde está a verdade?

Assim, tristemente e sem convicção de que precisamos ficar em casa, enfrento esse 90º dia de isolamento. Sem voar, sem viver…

Distante de amigos, pessoas queridas, amadas, presa numa jaula invisível, sendo impedida de viver. Estou aqui, saudável, respirando, cumprindo todas as obrigações que me são impostas.

Mas viva, ah, isso eu não estou. Não sei viver confinada. Não nasci para ficar presa.

Quando irão devolver minhas asas?

A arte de viver juntos – autor desconhecido


Conta uma lenda dos índios Sioux que, certa vez, Touro Bravo e Nuvem Azul chegaram de mãos dadas à tenda do velho feiticeiro da tribo e pediram:
– Nós nos amamos e vamos nos casar. Mas nos amamos tanto que queremos um conselho que nos garanta ficar sempre juntos, que nos assegure estar um ao lado do outro até a morte. Há algo que possamos fazer?
E o velho emocionado ao vê-los tão jovens tão apaixonados e tão ansiosos por uma palavra, disse-lhes:
– Há o que possa ser feito, ainda que sejam tarefas muito difíceis. Tu, Nuvem Azul, deves escalar o monte ao norte da aldeia apenas com uma rede, caçar o falcão mais vigoroso e trazê-lo aqui, com vida, até o terceiro dia depois da lua cheia. E tu, Touro Bravo, deves escalar a montanha do trono; lá em cima, encontrarás a mais brava de todas as águias. Somente com uma rede deverás apanhá-la, trazendo-a para mim viva!
Os jovens se abraçaram com ternura e logo partiram para cumprir a missão.
No dia estabelecido, na frente da tenda do feiticeiro, os dois esperavam com as aves. O velho tirou-as dos sacos e constatou que eram verdadeiramente formosos exemplares dos animais que ele tinha pedido.
– E agora, o que faremos? – os jovens perguntaram.
– Peguem as aves e amarrem uma à outra pelos pés com essas fitas de couro. Quando estiverem amarradas, soltem-nas para que voem livres.
Eles fizeram o que lhes foi ordenado e soltaram os pássaros.
A águia e o falcão tentaram voar, mas conseguiram apenas saltar pelo terreno. Minutos depois, irritadas pela impossibilidade do vôo, as aves arremessaram-se uma contra a outra, bicando-se até se machucar.
Então, o velho disse:
– Jamais se esqueçam do que estão vendo, esse é o meu conselho. Vocês são como a águia e o falcão. Se viverem amarrados um ao outro, ainda que por amor, não só viverão arrastando-se, como também, cedo ou tarde, começarão a machucar um ao outro. Se quiserem que o amor entre vocês perdure, voem juntos, mas jamais amarrados. Libere a pessoa que você ama para que ela possa voar com as próprias asas. Essa é uma verdade no casamento e também nas relações familiares, de amizade e profissionais.
Moral da história: Respeite o direito das pessoas de voar rumo ao sonho delas. A lição principal é saber que somente livres as pessoas são capazes de amar. É uma questão de escolha.

De cadernos

Sou eternamente apaixonada por cadernos. Desde aquele primeiro caderninho do curso primário, com capa verde e o Hino Nacional, posso vê-lo ainda, de tão nítido em minha memória, e as tantas dezenas, talvez centena, pela vida afora, todos os cursos, conservatório, faculdade, e, mesmo hoje, os cadernos que ainda uso, pois tenho o hábito de escrever a lápis em caderno e depois digitar os textos.

Por isso, há cadernos esparramados em minhas casas, bolsa, carro, porque a inspiração não manda aviso nem marca hora de me visitar…

Essa canção sempre me emocionou. Uma poesia, uma música, um encantamento…

Sou eu que vou seguir você
Do primeiro rabisco até o be-a-bá.
Em todos os desenhos coloridos vou estar:
A casa, a montanha, duas nuvens no céu
E um sol a sorrir no papel.
Sou eu que vou ser seu colega,
Seus problemas ajudar a resolver.
Te acompanhar nas provas bimestrais, você vai ver.
Serei de você confidente fiel,
Se seu pranto molhar meu papel.
Sou eu que vou ser seu amigo,
Vou lhe dar abrigo, se você quiser.
Quando surgirem seus primeiros raios de mulher
A vida se abrirá num feroz carrossel
E você vai rasgar meu papel.
O que está escrito em mim
Comigo ficará guardado, se lhe dá prazer.
A vida segue sempre em frente, o que se há de fazer.
Só peço a você um favor, se puder:
Não me esqueça num canto qualquer.

Vida – com ou sem sentido?

Silhueta Mulher Pôr Do Sol - Foto gratuita no Pixabay

De todas as questões filosóficas já postas, a mais intrigante e menos respondida é aquela que indaga qual o sentido da vida.   

Não pretendo discorrer aqui sobre teses filosóficas, sobre Platão nem Aristóteles. Mas volta e meia me pego meditando sobre isso.   

Qual o sentido da vida? Por e para que vivemos? Entre nascer e morrer, qual nossa missão? Ou nascemos apenas para esperar a morte?    

Tudo que pensamos ter, não nos pertence.    

Nem bens, nem sentimentos, muito menos pessoas.    

Bens – aí compreendidos imóveis, dinheiro, joias, tudo de valor econômico – por mais que acreditemos ser donos, são totalmente passageiros. Hoje os temos, amanhã os perdemos. Tudo o que vem, vai. Nascemos absolutamente sem nada e quando morrermos nada levaremos. E o que em certo momento está em nosso poder, troca de mãos com incrível facilidade.    

Sentimentos, então, são ainda mais voláteis.    

A amizade, o amor, a paixão, a confiança, a lealdade… nada nos pertence. Não os temos nem os podemos dar. Quando muito, prometemos e tentamos cumprir a promessa. Mas não somos proprietários de nenhum desses sentimentos. Como também dos opostos, ódio, nojo, desprezo, indiferença…    

E as pessoas? Ah, as pessoas – tal como nós – são volúveis, muito volúveis. Proferem palavras levianas, por vezes ferinas, e nos deixam tal ou pior do que da forma que nos encontraram: solitários, carentes e sofredores.    

Apenas dispomos de tudo isso – bens, sentimentos e pessoas – durante alguns períodos da vida. Então nada disso – ter, sentir, conviver – integra o sentido de viver.    

É preciso buscar mais fundo, é mais abstrato que tudo isso.    

Quando estamos motivados, por um sentimento de animação, seja por um projeto pessoal, uma atividade nova, uma paixão florescendo, não pensamos muito na vida, porque o importante é o instante presente, desfrutar do prazer momentâneo.    

De vez em quando, entretanto, perdemos o fio desse sentimento, e então nos vemos desmotivados e começamos a meditar sobre o que estamos fazendo na vida, da vida e com a vida. E quase sempre a resposta não nos agrada.    

Talvez porque seja recorrente pensar que o sentido da vida é ser feliz.    

Pronto. Respondida a pergunta. Resolvida a questão. O sentido da vida é apenas ser feliz.

Ficou mais fácil?

Não, complicou.

Porque agora surge a segunda maior questão: O que é ser feliz?

Em que consiste a felicidade?

Há vidas felizes?    

O jardim do vizinho é mais bonito, mais florido, a grama mais verde do que o nosso. Isso visto de longe e do alto de nossa janela. Porque nunca adentramos no jardim do vizinho para verificar se é realmente assim ou apenas aparenta ser assim.

E a felicidade dos outros também é apenas vista de fora. A ninguém é dado penetrar na alma alheia e ver sua cor, quantas cicatrizes ali existem, o quanto ela já sangrou.    

Casais felizes? Ou bons fingidores?    

Vidas felizes? Ou com alguns momentos felizes?    

Não sei. Não posso dizer pelos outros, só tenho como saber de mim.    

Acredito que quem chegou mais perto de definir a felicidade foi o poeta Vicente de Carvalho:  “…    Essa felicidade que supomos,   

 Árvore milagrosa que sonhamos,    

Toda arreada de dourados pomos,    

Existe, sim; mas nós não a alcançamos    

Porque está sempre apenas onde a pomos    

E nunca a pomos onde nós estamos.”    

Atire a primeira flor quem é real, intensa e completamente feliz.    

Conclui-se que ser feliz não é nem pode ser o sentido da vida. Buscar a felicidade plena é o mesmo que procurar o Santo Graal.    

Não, não é ser feliz…    

Voltamos ao começo – qual o sentido da vida?    

E surge nova questão: por que buscar o sentido da vida? E se a vida simplesmente não tiver sentido?    

Talvez a vida não seja para ser esquadrinhada, esmiuçada. Talvez a vida seja apenas para ser vivida, sem pensar muito.    

Para não se chegar à conclusão mais óbvia: a vida é o período entre o nascimento e a morte.

Viver é nascer e esperar morrer.

Nada mais.

Eu deserto, você oásis

❁[Ane of The Wild Hunt]❁ | Fotografie natuur, Landschappen ...

Neste deserto em que sozinha eu caminhava

A areia queimava meus pés cansados

Enquanto o vento cortava minha face

O sol inclemente me causticava pele

Mas eu precisava seguir, sempre adiante

Ainda que a sede me tirasse as forças

E a tristeza dominasse minha alma

Quando acreditei não mais poder prosseguir

eu encontrei você – feito de verde paz

Era água, era sombra, era aconchego

E você me abriu os braços como um oásis

Deixei-me assim acolher, sedenta e carente

Fora longa a caminhada pelas quentes areias

Em você eu fiquei, recostei, descansei

Sua sombra acalmou o calor da minha pele

Sua água matou a sede de tanto tempo

Seu abraço apagou o cansaço do caminho

Ali ficamos, eu deserto abrigada em seu frescor

Você oásis se alimentando de meu deserto

Mas um dia foi preciso partir – é a vida

Eu, nômade, sempre a partir e a buscar

Você oásis, sempre a ficar e a abrigar

Deixei seu aconchego, seu seguro abrigo

E em lágrimas parti em busca de mim

Você, imóvel, chorando a minha partida

Assim nos separamos. Trouxe sua água em mim

Deixei minha areia para sempre em você

Eu não podia ficar e nunca voltaria

Você não podia partir e me disse adeus

Para sempre viveríamos dessa doce lembrança:

Você, o oásis no deserto de minha vida

Eu, deserto e vida em você, oásis

Liberdade para sonhar

Amor e liberdade

Por mais que se prenda um corpo, se alma for livre, nada a prenderá. Há homens livres entre os prisioneiros. E muitos que, mesmo liberados, levaram a prisão dentro de si.

Podem tolher ou mesmo destruir a liberdade de locomoção e de expressão de alguém. Mas não da alma, do pensamento, da emoção e do desejo.

Olhe nos olhos de quem tira sua liberdade. Não precisa dizer nada. Seus olhos dirão: “somos livres e assim continuaremos. Ainda que em uma escura cela solitária”.

A essência do ser humano é a liberdade. E, mesmo assim, muitos dela abrem mão por covardia ou comodidade.

Ser livre é o que se tem de mais precioso.

E quando se tem a liberdade do corpo aliada à liberdade da alma, aí, sim, é possível ser feliz. Ter alma livre. E se tornar livre na vida.

Só quem é livre pode voar. Só a liberdade permite voar mais alto.

Por isso não se devem seguir caminhos trilhados, mas fazer os próprios, para chegar a novos lugares. E não apenas pelos próprios pés.

Porque os olhos sempre podem enxergar além de onde os pés poderiam levar. E a liberdade estava além da distância percorrida.

Mas também não somente pelos olhos. Porque os sonhos vão mais longe do que os olhos podem mostrar.

Liberdade é perseguir o sonho. Sonhar é enxergar além da realidade.

Ser livre é viver o sonho.