Mês: agosto 2020
Espera-me. Até quando, não sei.
Tédio

Sinto tédio.
É tanto, tanto tédio, que se transforma em náusea.
Tenha náusea da vida.
Tenho náusea dos pensamentos alheios, das vozes que se dirigem a mim. Não me interessam os assuntos, não me interessam as conversas…
De repente a vida se tornou um grande pote de doce de leite.
E já cheguei na terceira colherada. Daqui para frente é extremamente enjoativo. Não dá para engolir. Não dá para cuspir, não dá para prosseguir.
Não dá para parar, nem para voltar atrás…
As redes sociais, cheias de pessoas vencedoras e felizes só humilham quem é – ou se sente – diferente.
Quero ter o direito de ser infeliz, de não ouvir conselhos nem palpites, de viver do jeito louco que acho que é o certo, de dar vazão à minha maluquice, de não andar com a boiada, de ver o mundo com meus próprios olhos, e que os incomodados que se mudem.
Quero poder não acreditar em verdades e seguir as mentiras agradáveis. Quero poder fazer tudo errado, quero voar sozinha, quero encontrar o meu mundo.
Já nem sei mesmo se estamos vivos, ou somos mortos que não entenderam que tudo se desfez no tempo e no escuro.
Nosso mundo acabou e ninguém notou.
Somos todos zumbis servindo ao consumismo e à classe dos morto-vivos da política nojenta e rasteira, não há vida nem inteligência, só movimento.
De repente, quero gritar, mas minha voz já se calou…
Quarentena de 150 dias
Como no avesso de uma disputa, chegamos hoje ao 150º dia de isolamento. Cinco meses sem viver.
Já não estamos tão isolados. Ninguém mais aguenta a palhaçada eternizada.
Eu me alforriei. Se ainda porto máscara em alguns lugares é simplesmente para evitar multa e aborrecimento.
Porque, cinco meses depois, todos confinados e mascarados, e a peste continua atingindo a população na mesma proporção, fica claro como a luz do sol que isolamento e máscara não adiantam nada.
Os criadores dessa situação já se deram conta do ridículo a que se expuseram, mas não sabem como dar um fim à quarentena, sem piorar mais sua situação política.
Então ficam mudando as cidades de faixas, como crianças brincando com seus primeiros lápis de cor.
Hoje essa é faixa vermelha, essas duas, faixa laranja, aquelas outras, faixa amarela…
Amanhã trocam tudo.
Uma amarela volta a ser vermelha, outra passa direto para o verde… e os imaturos administradores brincam com a realidade da população.
Agora, quando as eleições municipais se aproximam, tentam reverter o estrago, correm atrás do prejuízo político, mas, uma coisa é certa: ao que tudo indica, no Estado de São Paulo, psdb NUNCA MAIS!
São cinco meses de falências. Desemprego. Miséria e desespero.
O povo jamais esquecerá. E muita, muita mentira.
Talvez menos de ¼ das mortes ocorridas possa realmente ser atribuída ao vírus.
Mas os bonecos de vitrine estavam adorando a luz dos holofotes. Não sabiam que vitrine atrai pedrada. Não acreditavam que seriam desmascarados (trocadilho infame para quem está obrigado e obrigando ao uso de horrendas máscaras, tão desnecessárias quanto o isolamento).
De repente, vão declarar tudo por terminado. Afirmar que o vírus veio para ficar e teremos de conviver. Como tantos outros que existem. Que a economia precisa ser retomada, que o estado e direito e a democracia devem ser preservados e toda essa baboseira que já ninguém mais suporta.
Um dia, talvez, um estudo sério traga uma luz e uma vacina para minimizar a disseminação desse vírus da peste. Mas, enquanto isso, conviveremos.
E que esses soi-disant administradores, atuais governadores e prefeitos, se envergonhem da palhaçada e encerrem de vez a quarentena.
Vejo que essa situação é um tanto burlesca.
Lembra o discurso de velhos políticos inábeis, loucos pelos microfones, que quando conseguiam a palavra, falavam sem rumo, sem nexo e sem fim, uma verborragia interminável, simplesmente porque não sabiam como acabar sua fala…
Poesia da casa – Ausência
Sentir nas mãos o perfume de outras mãos Manter na pele o toque de outra pele Trazer no corpo o relevo de outro corpo Ouvir com a mente a voz que já se calou Se a vida não conseguiu unir O que a distância pôde separar O vazio se tornou a companhia De quem não pensou viver sozinho Andar de mãos dadas com mãos ausentes Dormir nos braços que já se foram Ter vivos os carinhos encerrados Esse é o retrato da saudade A saudade que restou de uma ausência Que já impede de contar estrelas Apagou dos olhos o brilho do olhar E tirou da alma a vontade de viver Ausência – a falta absoluta De quem não poderia ter partido Quem se foi, mas deixou na outra alma Toda a ternura que havia em tanto sonho
Dia de Poesia – Pablo Neruda – Tenho fome da tua boca
Tenho fome da tua boca, da tua voz, do teu cabelo,
e ando pelas ruas sem comer, calado,
não me sustenta o pão, a aurora me desconcerta,
busco no dia o som líquido dos teus pés.
Estou faminto do teu riso saltitante,
das tuas mãos cor de furioso celeiro,
tenho fome da pálida pedra das tuas unhas,
quero comer a tua pele como uma intacta amêndoa.
Quero comer o raio queimado na tua formosura,
o nariz soberano do rosto altivo,
quero comer a sombra fugaz das tuas pestanas
e faminto venho e vou farejando o crepúsculo
à tua procura, procurando o teu coração ardente
como um puma na solidão de Quitratue.
O passado e uma foto

Fotos. Que antes eram fotografias. E, antes ainda, retratos.
Em músicas, filmes, romances, sempre há o recurso da foto para voltar ao passado. Seja de forma figurada ou literal dentro da ficção. E, na vida real, fotos são lembranças vivas, fazem o passado sempre presente.
Conseguimos nos desfazer de muitas coisas ao longo da vida, mas não temos coragem de rasgar fotos e jogar no lixo. A não ser algumas, que foram rasgadas com raiva e molhadas de lágrimas.
Assim, vamos acumulando fotos e mais fotos. Álbuns e mais álbuns. E, nos dias de hoje, com a facilidade da foto digital, as temos aos milhares.
Vejo antigas fotos (não as chamo velhas – ou seria eu também velha por as possuir…).
Elas me trazem de volta meus vinte anos. No milênio passado. Não poderei nunca mais ter vinte anos, mas me posso ver nessa idade. E outras pessoas com quem convivi naquela época.
Fico a lembrar de tantos acontecimentos, tanta leveza, uma vida livre e despreocupada.
Meus pais ainda jovens, fortes, nossa casa tão cheia de amigos, nossa vida tão cheia de festas e encontros.
Tudo se perdeu. Tudo ficou nessa caminhada árdua que a vida se tornou de repente.
A memória é algo fabuloso. Deus a deu aos homens para tornar mais leve a realidade. Basta fecharmos os olhos e relembrarmos o que já foi, deixar fluir o pensamento. Reviver os melhores momentos. E, para isso, as fotos são magníficas. Porque não mostram nossa decadência física. Elas nos guardam naquele momento, em que a juventude brilhava em nossos olhos e tonificava nosso corpo.
E Deus foi tão bom com os homens, que, para aqueles que a memória machuca no final da vida, ela se perde na bruma da velhice.
Olho para mim mesma em uma antiga foto. E confiro no espelho com a imagem que me tornei.
E entendo, sim, o que pensava Wilde com seu Dorian Gray…
