Mês: julho 2022
Memória – No azul do céu – (07.03.2019)
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol, / Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz / E corre um silêncio pela erva fora. (Fernando Pessoa)

Céu muito azul, fim de outono, anúncios de inverno.
Folhas ainda verdes, chuvas temporãs ajudando a natureza.
Nada muda para a humana percepção. Em um de repente sei que o céu se cobrirá de cinza, sei que ventos violentos surgirão não se sabe de onde vindos, as folhas não estarão mais nas árvores, mas cobrirão o chão.
Mas não poderei ver os detalhes dessas mudanças, a cada segundo se preparando para nos surpreender.
Vemos o antes e o depois. Não temos capacidade para escrutinar momento a momento o que se passa em torno de nós.
Um dia, sem que nos déssemos conta, ficamos adultos, responsáveis por nós mesmos, nossa felicidade, nosso bem-estar e nosso sustento. E, ainda mais de repente, nos tornamos responsáveis por tudo de nossos filhos, tão pequenos, tão dependentes.
E quando olhamos novamente, eles já se tornaram adultos, tomaram as rédeas da própria vida e se foram.
E nos tornamos responsáveis então pelos nossos pais, que eram tão fortes, tão determinados, tão independentes. Apenas a nossos olhos.
E os ventos se vão, a chuva cessa e novas folhas nascerão quando vier a primavera.
Quem sabe se ainda estará aqui para ver as flores que virão? E quem conosco ainda estará nessa nova estação?
Mas tenho uma certeza nessa vida: a de que o céu será – quase sempre – lindamente azul.
(Imagem: foto de Maria Alice)
Re-ouvindo…
Bastaria voltar

Sabe, queria tanto que você voltasse, que vivêssemos de novo nosso mundo de encanto e paixão…
Se você voltar, amor, prometo que as estrelas explodirão em um show de luzes que o mundo todo se alumbrará.
Prometo, amor, que a Terra tremerá de emoção ao abrigar tanta alegria.
Provocaremos, com nossa paixão, terremotos e tsunamis, milhares de estrelas cadentes surgirão, a lua e o sol permanecerão para sempre juntos no céu.
Sabe, com sua volta o inverno será curto e agradável e logo a primavera desabrochará em milhares de cores e flores para encantar nossas vidas.
Quando você voltar, amor, o mar se acalmará e será manso como um balanço de criança a nos embalar sem nenhum perigo.
Na sua volta começaremos uma nova vida, novas aventuras, viagens, e o companheirismo será ainda mais intenso.
Bastaria você voltar e reconquistaremos aquela paz que só tivemos quando estávamos juntos, dividindo a vida, os sonhos, os planos, as risadas e as lágrimas.
Lembra-se, amor, daquele sítio que sempre parávamos na frente e íamos andar entre as hortênsias e as buganvílias floridas e sonhávamos comprá-lo um dia e morar lá? Então, eu tenho ido lá, deixo a moto no mesmo lugar de sempre e vou andar e chorar entre as flores, ao lembrar tanto de você. Dez meses de lágrimas.
Depois que você voltar faremos juntos aquela viagem de moto até o Alasca, e, quem sabe, atravessaremos o estreito de Bering e chegaremos na Rússia…
Iremos até Roma, desceremos a Puglia e Campania, depois poderemos ir até o Algarve, em Portugal… já imaginou que aventura?
Poderemos fazer de novo a vida valer a pena. Mas somente se formos dois. Voarmos juntos. Sonharmos juntos…
Meu amor, tivemos tão pouco tempo para realizarmos nossos planos, vivermos nossos sonhos, e agora minha vida também está sendo levada rapidamente pelo tempo…
Volta, amor, e prometo que não me importarei se você ainda quiser fazer aquela tatuagem. E ainda prometo que eu também farei uma tatuagem.
E nós dois seríamos, para sempre, apenas um.
Eu sonho, amor, sonho dia e noite com sua impossível volta.
Mas você não vai voltar, meu amor. Eu bem o sei. Aquele passeio tão banal, o bate-e-volta para um café da manhã, sem retorno… ela esperava por você na descida depois da curva, naquela poça de óleo… ela levou você para sempre…
(Imagem: banco de imagens Google)
9 de Julho – Memória (09.07.2019)
Hoje é nove de julho – data que tem dois significados para mim. Um cívico, de muito de orgulho. E outro de encantamento e paixão eternas
9 de Julho. Alguns conhecem essa data pelas ruas e avenidas assim nomeadas em diversas cidades do Estado de São Paulo.

Mas a razão nem todos conhecem. Em 1932 o povo paulista se levantou contra o desmando e a ditadura, exigindo que fosse promulgada uma Constituição para o país. O símbolo dessa revolução armada – M.M.D.C. inicial dos nomes dos mártires do Movimento Constitucionalista de 1932 – refere-se aos quatro primeiro mortos por tropas ligadas ao governo federal, na cidade de São Paulo: Martin, Miragaia, Dráusio e Camargo, cujos corpos repousam no Mausoléu dos Heróis de 32, localizado no Obelisco do Ibirapuera.
O Mausoléu:

O Obelisco:

A simples leitura de uma frase em homenagem aos mortos, inscrita em uma das faces do Obelisco, causa profunda emoção:
“Viveram pouco para morrer bem
morreram jovens para viver sempre.”
Conheci alguns combatentes, com eles convivendo algum tempo. Nossos verdadeiros Heróis!
Quanto à Bandeira que simboliza São Paulo e tanto orgulho nos causa:
De acordo com sites oficiais: A bandeira do estado de São Paulo, juntamente com o brasão e o Hino, constituem os símbolos oficiais do Estado de São Paulo, no Brasil.[nota 1]
Idealizada pelo filólogo e escritor Júlio Ribeiro, em 1888, tinha como objetivo servir de bandeira ao regime republicano, que fora, efetivamente proclamado em 15 de novembro do ano seguinte. Para materializar graficamente sua ideia, Júlio Ribeiro convidou seu cunhado Amador Amaral, gráfico e artista plástico que desenvolveu o layout da bandeira paulista.
A bandeira possui treze listras variando entre branco e preto que representam os dias e as noites em que os bandeirantes exploraram o interior do país. O pavilhão possui um retângulo vermelho na horizontal , que representa o sangue derramado pelos bandeirantes, alinhado no topo à esquerda, tendo dentro um círculo de fundo branco e o mapa do Brasil em azul, sendo o azul a cor da pujança. Há também quatro estrelas amarelas na parte interna dos quatro cantos do retângulo.
O pavilhão tornou-se de fato símbolo paulista a partir da Revolução Constitucionalista de 1932, mas que só foi oficializada em 27 de novembro de 1946, sob o Decreto-Lei estadual nº16.349, com base no parágrafo único do Art.195 da Constituição Federal de 1946, que devolveu aos estados e municípios o direito de cultivar símbolos próprios.
- (Derly Halfeld. Bandeiras: nacional, históricas e estaduais. Brasília. Edições do Senado Federal, 2011, ISBN 978-85-7018-358-3).
A Revolução Constitucionalista, data máxima dos Paulistas, engrandeceu nossa Bandeira, deu-lhe a dimensão do orgulho de um povo.

E o grande poeta paulista – ele, também, um combatente, que entrou para a História como “o poeta da Revolução”, cujos restos mortais estão no Mausoléu do Ibirapuera junto de outros heróis – Guilherme de Almeida, dedicou-lhe o mais belos poema que poderia ser escrito para um símbolo:
NOSSA BANDEIRA Bandeira da minha terra, Bandeira das treze listas: São treze lanças de guerra Cercando o chão dos paulistas! Prece alternada, responso Entre a cor branca e a cor preta: Velas de Martim Afonso, Sotaina do Padre Anchieta! Bandeira de Bandeirantes, Branca e rôta de tal sorte, Que entre os rasgões tremulantes, Mostrou as sombras da morte. Riscos negros sobre a prata: São como o rastro sombrio, Que na água deixara a chata Das Monções subido o rio. Página branca-pautada Por Deus numa hora suprema, Para que, um dia, uma espada Sobre ela escrevesse um poema: Poema do nosso orgulho (Eu vibro quando me lembro) Que vai de nove de julho A vinte e oito de setembro! Mapa da pátria guerreira Traçado pela vitória: Cada lista é uma trincheira; Cada trincheira é uma glória! Tiras retas, firmes: quando O inimigo surge à frente, São barras de aço guardando Nossa terra e nossa gente. São os dois rápidos brilhos Do trem de ferro que passa: Faixa negra dos seus trilhos Faixa branca da fumaça. Fuligem das oficinas; Cal que a cidades empoa; Fumo negro das usinas Estirado na garoa! Linhas que avançam; há nelas, Correndo num mesmo fito, O impulso das paralelas Que procuram o infinito. Desfile de operários; É o cafezal alinhado; São filas de voluntários; São sulcos do nosso arado! Bandeira que é o nosso espelho! Bandeira que é a nossa pista! Que traz, no topo vermelho, O Coração do Paulista!
São Paulo é minha Pátria, não apenas o Estado onde nasci.

Por outro lado, também é a data de morte do poeta Vinicius de Moraes. Escritor, poeta, cronista, compositor, dramaturgo, diplomata, ele era tudo e mais um pouco! Hoje são 39 anos de sua morte. (texto escrito em 2019, portanto hoje, 09 de julho de 2022, são 42 (quarenta e dois) anos da morte do Poeta.
São dele os sonetos mais românticos do século XX escrito em língua portuguesa.
Poemas, canções, Vinicius marcou minha geração, com encontros com universitários, com ideias cativantes, com seu jeito carismático de ser e de viver.
Sou profunda e eternamente apaixonada por sua obra. Leio, releio e volto a ler. Porque Vinicius, chamado Poetinha, foi e sempre será o nosso Grande e Maior Poetinha.
Uma pequena amostra:
Soneto de separação
De repente do riso fez-se o pranto Silencioso e branco como a bruma E das bocas unidas fez-se a espuma E das mãos espalmadas fez-se o espanto. De repente da calma fez-se o vento Que dos olhos desfez a última chama E da paixão fez-se o pressentimento E do momento imóvel fez-se o drama. De repente, não mais que de repente Fez-se de triste o que se fez amante E de sozinho o que se fez contente. Fez-se do amigo próximo o distante Fez-se da vida uma aventura errante De repente, não mais que de repente.
Poesia da casa – Noite

Ouço na noite A voz da noite Vejo na noite Sombras da noite Noite Veio na noite O homem da noite Quis-me na noite Desejos da noite Noite Partiu ainda noite Fiquei só na noite Sem sonho na noite Há pesadelo da noite Noite Só existe noite Dentro da noite Fantasmas da noite Que vivem na noite Noite Vidas na noite Escuro da noite Gritos na noite Morte na noite Noite...
(Imagem: foto de Nelson O’Reilly Filho)