Autor: Maria Alice Ferreira da Rosa
Dia de poesia – Anjo Travesso – Pedaços de mim

Sem que percebesse, o teu olhar
Me tocou profundamente…
Senti-me levitar
Enquanto invadias a minha mente…
Não sei se fiquei serena ou inquieta.
Sei apenas, que me senti invadida,
E de uma maneira discreta
Me senti ser despida.
Com o corpo coberto,
Mas a alma a nu…
Sem saber ao certo
Quem eras tu!
Porém afirmo, com toda a convicção,
Que nossas almas, se reconheceram
Naquele breve instante…
Senti parar meu coração…
Palavras em silêncio se leram,
No brilho de um olhar fulminante!
Afastei meu olhar, timidamente,
Pelas imagens que poderias ler,
Amor de alma a gente sente…
Sem nunca o conseguir descrever.
Um sorriso delicado se desenhou,
Ao perceber que foi reconhecida
A alma que tanto amou
Em mais do que uma vida!
Toque singelo e singular,
Fez meu corpo estremecer
Sabendo que já foste meu lar…
E que eu já fui tua mulher…
Penetrante olhar me despia,
Pois há muito me conhecia!
Quando não souber o que fazer
Quando não souber o que fazer…
Quando não souber o que fazer, apenas respire e agradeça.
Confie, não ceda ao medo ao medo.
Há sempre outra maneira de ver o que está acontecendo com você.
Não ceda ao medo, ao pânico. Não lhe dê poder. Fique quieto… Solta… Deixe ir…
Qual seria a pior coisa que pode acontecer com você?
O medo é a coisa que mais mata no mundo.
Apenas respire… devagar e profundamente… vá para dentro… ao silêncio… à paz…
Pare de lutar, aceite o que quer que esteja acontecendo com você… mas não resista…
Apenas foque na sua respiração… abandone toda a intenção de querer ter razão… mergulhe na sua paz, na sua calma…
A única coisa que machuca são os pensamentos.
Se pararmos por um instante de pensar em algo.
Já não nos afeta.
Nós lutamos contra as coisas, os conflitos e tudo o que fazemos é engordá-los.
Nossa mente não resolve eles… e pouco a pouco nos sentimos consumidos.
Mude… entregue-o ao universo e desentenda-se…
Entregue-se à verdade, que é…
Reconheça que você não sabe, portanto…
Nada você vai conseguir.
Há em você uma verdade que é e transcende tudo e só te diz… Confie em mim.
Você não precisa confiar em você, nem saber como, quando, onde… Apenas confie.
É tudo.
Há sempre uma saída.
Tudo passa.
- DESCONHEÇO A AUTORIA
Voem juntos, mas nunca amarrados!

Uma velha lenda conta sobre os índios Sioux, que certa vez vieram visitar o velho feiticeiro da tribo, um jovem casal apaixonado capaz de tudo por seu amor.
Toro Bravo, o guerreiro mais valente e honrado, e Nuvem Alta, filha do chefe e a mais bela da tribo.
Ambos de mãos dadas, eles se apresentaram ao velho e começaram a falar.
– Nós nos amamos – disse Toro Bravo.
– Estamos nos casando! Nuvem alta complementou..
– Mas estamos com medo.
Queremos um feitiço, um talismã. Algo! que nos garante que estaremos juntos por toda a vida.
– Por favor – repetiram os dois – podemos fazer alguma coisa?
O velho olhou para eles tão apaixonados, mas ao mesmo tempo tão desesperados.
Ele demorou a responder.
– Tem alguma coisa …- mas não sei … é uma tarefa muito difícil.
– Não importa! – falaram os dois – Faremos o que for preciso, acrescentou Toro Bravo.
E vocês vão! disse o bruxo.
…Nuvem Alta!, você vê a montanha ao norte de nossa aldeia? Você terá que escalá-lo sozinha e sem outras armas além de uma rede e suas mãos, você terá que caçar o falcão mais belo e vigoroso da montanha.
Se você pegá-lo, deve trazê-lo vivo no terceiro dia após a lua cheia.
Você entendeu?
Nuvem Alta assentiu silenciosamente.
– E você, Touro Valente – continuou o bruxo,você deve escalar a Montanha do Trovão; Quando chegar ao topo, você encontrará a mais valente de todas as águias, apenas com suas mãos e uma rede, você deve pegá-la sem ferimentos e trazê-la diante de mim, viva, no mesmo dia em que Nuvem Alta chegará …
Saiam agora!
Os jovens se entreolharam nervosos, mas certos de que o conseguiriam. E eles correram para cumprir sua missão, cada um por sua conta. Ela ao norte, ele ao sul.
No terceiro dia, em frente à tenda da bruxa, os dois jovens feridos e machucados aguardavam com as redes contendo seus respectivos pássaros.
Tire-os com cuidado – disse o Velho.
Eles eram realmente lindos, sem dúvida os melhores de sua linhagem.
“Eles voaram alto?”, perguntou o bruxo.
– Sim definitivamente. Como você pediu … disse Toro Bravo
– E agora? – Vamos matá-los e beber a honra de seu sangue? …
– Nããão! disse o velho.
– Vamos cozinhá-los e comer o valor de sua carne? Alta Nuvem assim propôs?
– Nao! – Claro que não.
– Vocês farão o que eu disser: Pegue os pássaros e amarre-os pelas patas com estas tiras de couro, depois de amarrá-los, solte-os e deixe-os voar livremente.
Quando a Águia e o Falcão tentaram voar por conta própria, eles só conseguiram rolar no chão.
Incapazes de voar, os pássaros começaram a bicar uns aos outros até se machucarem.
– Nunca se esqueçam do que vocês viram!
Eu não vou lhes dar nenhum feitiço!
Vocês são como uma águia e um falcão:
Se se amarrarem, mesmo que o façam por amor, não só viverão engatinhando, mas também, mais cedo ou mais tarde, começarão a se machucar.
Se você quer que o amor entre vocês dure …
VOEM JUNTOS, MAS NUNCA AMARRADOS!
Lembre-se: o amor não reivindica posses, mas dá liberdade. Nunca acima de você, nunca abaixo de você, sempre…. a teu lado.
(Imagem: banco de imagens Google)
Dia de poesia – Fernando Pessoa – Na véspera de nada (Memória)

Na véspera de nada Ninguém me visitou. Olhei atento a estrada Durante todo o dia Mas ninguém vinha ou via, Ninguém aqui chegou. Mas talvez não chegar Queira dizer que há Outra estrada que achar, Certa estrada que está, Como quando da festa Se esquece quem lá está.
(Imagem: Ilustração de Ilustr. S. Hee – Correia do Sul, 1963)
Da série “Foi poeta, sonhou e amou na vida” – 09 – Thiago de Mello
Sirva o meu amor de voo.
Sirva a tua vida inteira
de azul.
Eu sirvo de pássaro.
(Terceto de amor)

Amadeu Thiago de Mello nasceu em Barreirinha, no Amazonas, em 1926. Ingressou na faculdade de medicina, mas abandonou o curso na metade, ingressando na diplomacia na década de 1950. Foi adido cultural na Bolívia e no Chile, mas teve sua carreira interrompida pelo golpe de 1964. Durante a ditadura (1964-1985) foi preso e depois exilou-se no Chile, onde encontrou Pablo Neruda, um amigo e colaborador.
No exílio, também morou na Argentina, Portugal, França e Alemanha. Com o fim do regime militar, voltou à sua cidade natal e depois mudou-se para Manaus, onde viveu até sua morte.

Seu poema mais conhecido é Os Estatutos do Homem, onde o poeta chama a atenção do leitor para os valores simples da natureza humana. A preservação da Amazônia era tema presente em sua obra. A sua poesia escrita foi Poesia Comprometida com a Minha e a Tua Vida que rendeu-lhe, em 1975, ainda durante o regime militar, um prêmio concedido pela Associação Paulista de Críticos de Arte e tornou-o conhecido internacionalmente como um intelectual engajado na luta pelos Direitos Humanos.
Em homenagem aos seus 80 anos, completados em 2006, foi lançado pela Karmim o CD comemorativo A Criação do Mundo, contendo poemas que o autor produziu nos últimos 56 anos, declamados por ele próprio e musicados por seu irmão mais novo, Gaudêncio. Suas obras foram traduzidas para mais de trinta idiomas. (Fonte: Wikipédia)

A aprendizagem amarga
Chega um dia em que o dia se termina
antes que a noite caia inteiramente.
Chega um dia em que a mão, já no caminho,
de repente se esquece do seu gesto.
Chega um dia em que a lenha já não chega
para acender o fogo da lareira.
Chega um dia em que o amor, que era infinito,
de repente se acaba, de repente.
Força é saber amar, perto e distante,
como o encanto de rosa livre na haste,
para que o amor ferido não se acabe
na eternidade amarga de um instante.
Confidência a Manuel na manhã de seu dia
Hoje, meu filho, eu queria
fazer um poema que fosse
límpido e bom companheiro.
Queria fazer um poema
que fosse como um perdão,
que fosse como uma espada,
uma palma e uma esperança.
Um poema que te seguisse
como o pássaro ao veleiro,
e como o servo a seu amo.
Que te valesse na mágoa
docemente, como o amigo
que diz ao outro uma frase
bem simples, cujo sentido
nem importa: pois importa
é que as palavras depressa
se arrumem todas em ponte,
dando caminho à ternura
e à confiança.
Amigo desses,
que um dia bem te valesse,
assim o poema eu faria
se soubesse. Mas não sei.
De lembrança, pois, te deixo
em vez de poema sonhado
– uma quase confidência.
Um dia, no teu bornal
de viagem, hás de encontrar
coisas que nele arrumei
à maneiro de farnel.
Hás de encontrar tão-somente
uns brinquedos, umas nuvens
e umas palavras. No entanto
o mundo eu só não te dei
porque descobri que o mundo
com todas as suas torres
e todas as glórias
– o mundo cabe, meu filho,
o mundo cabe inteirinho
na palma da tua mão.