Poesia para o sábado de chuva – Duas Almas

Sábado, carnaval, MUITA chuva e visitas… para não falhar no propósito de postar 100 dias seguidos, mas, também, sem tempo para escrever, preencho o post com uma de minhas poesias favoritas: Duas Almas… que me encanta desde sempre…

Duas Almas

(Alceu Wamozy)

 

Ó tu que vens de longe, ó tu, que vens cansada,

Entra, e, sob esse teto encontrarás carinho:

Eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho,

Vives sozinha sempre, e nunca foste amada…

 

A neve anda a branquear, lividamente, a estrada

E a minha alcova tem a tepidez de um ninho,

Entra, ao menos até que as curvas do caminho

Se banhem no esplendor nascente da alvorada.

 

E amanhã, quando a luz do sol dourar, radiosa,

Essa estrada sem fim, deserta, imensa e nua,

Podes partir de novo, ó nômade formosa!

 

Já não serei tão só, nem irás tão sozinha.

Há de ficar comigo uma saudade tua…

Hás de levar contigo uma saudade minha…  

Casais

Ama-me quando eu menos merecer, pois é quando eu mais preciso …

 

A interdependência entre as pessoas torna a convivência insuportável. 

Por razões que datam das origens dos animais, os homens têm necessidade de viver em grupo e, dentro deste, de ter uma companhia exclusiva – o que não ocorre no mundo animal irracional com raríssimas exceções. 

Além de formar um casal que se pretende indissolúvel o humano exige fidelidade (que não cumpre), talvez por receio de sustentar filhos alheios… 

Pensante, o homem desenvolveu rituais para o acasalamento e inventou sentimentos. 

Assim surgiram a atração, a paixão, e depois o amor e a amizade para manter a união ao longo dos anos. 

Por isso o antigo flerte (acho que nem existe mais), o namoro (que não existe mais), o noivado (que não existe mais) e o casamento (que ainda existe mas invertido, com direito a test drive para ver se é aquele parceiro mesmo que se quer adquirir para o resto da vida, que vai durar somente algum tempo…). 

De qualquer forma, toda a modernidade não conseguiu extinguir a atração nem a paixão. 

Da atração vem a paixão, desde que o outro não seja doce de leite (tipo que no começo é sensacional, mas depois da terceira colherada ninguém aguenta mais). 

Se os dois têm uma boa cabeça e melhores intenções, daí surge uma convivência harmoniosa, que acabará em casamento. Acabará mesmo, literalmente, na maioria das vezes. 

Porque o egoísmo do ser humano impede a manutenção de uma relação harmônica e leve. 

Sem se saber de onde vêm, começam a surgir cobranças, exigências, palavras ásperas. 

Cada um projeta no outro seus fracassos, suas expectativas frustradas, põe sobre os ombros do parceiro o peso da própria incompetência e nada consegue perdoar, tudo é motivo de briga. 

Um olha para o outro e já não enxerga mais o objeto da atração inicial, foi-se a paixão e o amor não chegou a ser construído. E é o fim. 

Perdido o respeito, nada há a salvar, impossível continuar juntos. 

Antigamente as mulheres – sempre coitadas – não podiam simplesmente ir embora. 

Sem opção de controlar o número de filhos, sem emprego, sem ganho e sem renda, como fariam para deixar o marido e tentar a vida sozinhas, cheias de filhos?

 

Isso foi a mudança mais radical na estrutura familiar: a possibilidade de limitar o número de filhos, a condição de ter um emprego sério e ganhos suficientes para se sustentar e à família e, finalmente, o fim do preconceito contra a mulher separada do marido. 

Mas aí fica a pergunta: a família começou tão sonhada para acabar assim, como um papel pisado? 

Será que não é possível, na grande maioria dos casos, tentar continuar, não de forma bélica, mas buscar cada um dentro de si aquele namorado/a apaixonado/a, reacender a velha chama da atração, sentir que vale a pena ficar juntos, ainda que pisando em algumas pedras? 

Porque sozinho ninguém vai ficar mesmo, e a segunda, a terceira e outras relações subsequentes fatalmente sofrerão o mesmo desgaste… 

No fundo, o que falta mesmo é amor. Alicerçado na paixão e no companheirismo, no prazer de estar junto.

 E o que sobra é egoísmo.

 

Poesia da casa – Momento

Pousou na mansidão que envolve o amanhecer

Sem tristeza nem alegria, no silêncio simples da manhã

Trouxe em si o doce perfume que evoca lembranças

E mostrou que para tudo há um novo recomeço

O amor, vestido de paixão, bateu à porta

E em ondas desordenadas passou a ocupar o espaço

Como um vento confundiu todas as coisas e

Numa lufada espantou tudo o que era triste, tudo

O que não era mais, tudo o que deixara de ser

Como se fosse uma estrela, ou um satélite

Seguia, encantada a teu redor: esperava, adivinhava até,

A tua chegada – planeta maior, com vida própria, em

Constante movimento, arrastando tudo pelo caminho.

Sabendo ser passageiro, não me preocupei em te prender

Apenas dei o espaço necessário para um descanso

No aconchego gostoso de um encontro quase impossível

Quando então a natureza amiga se aquietou e permitiu

A imobilidade do momento eterno que se fez

Entre teu chegar e teu partir

O que temos para hoje

Aceita as surpresas que transformam teu planos, derrubam teus sonhos, dão rumo totalmente diverso ao teu dia e, quem sabe, à tua vida. Não há acaso. Dá liberdade ao Pai, para que Ele mesmo conduza a trama dos teus dias. (Dom Helder Câmara)

 

 

Hoje estou preguiçosa. Sem ideia para escrever. Sem vontade de escrever.

Estou com as asas cortadas e sem voar não consigo pensar nem criar.

Sou essencialmente livre. Não há a menor possibilidade de algo ou alguém me limitar e pretender que eu permaneça viva.

Mas a vida, às vezes se encarrega de nos pregar peças que não têm a menor graça. E assim me vi cativa, há mais de sessenta dias, por problemas de saúde na família. Sem sair de casa. Sem seguir minha louca rotina de administradora do caos, que é exatamente não ter rotina, não morar em nenhum lugar e ficar em todos. Viajar de um lado para outro. Morar em várias casas ao mesmo tempo.

Mas agora, tanto tempo na mesma casa, dormindo na mesma cama, vendo a mesma paisagem, meus olhos estão se nublando. Minha alma está se obscurecendo.

Preciso sair. Bater asas. Encontrar novamente comigo. Porque aqui estou mais sozinha do que quando viajo sozinha.

Estou mais sem norte do que quando vou de um lado a outro sem rumo nem pressa. A rosa dos ventos da minha vida está se desbotando, quase desaparecendo.

Que tudo volte ao normal enquanto estou conseguindo preservar minha sanidade mental…

O som do silêncio

Le silence est l’élément dans lequel se forment les grandes choses.

(Maurice Maeterlink)

 

 

O silêncio aqui no escritório é quase absoluto. Se não estou digitando só ouço o tiquetaquear do relógio da estante.

Gosto dessa ausência de sons, gosto de ouvir meus pensamentos quando converso comigo mesma. Não sei se estou ficando velha, mas a cada dia estou mais seletiva nas conversas, nas palavras, nos sons.

Tem sido muito difícil suportar festas, sempre com música estridente e alta demais. Já não se conversa com amigos nos jantares e festas. Fica todo mundo com cara de paisagem aguentando um barulho insuportável de um som ruim mil vezes ampliado em potentes caixas. Que não agrada ninguém.

Há algum tempo, tentando fazer compras em uma loja da Arezzo e quase não conseguia ficar lá dentro de tão ruim a música dita “ambiente”. E a explicação da gerente local é que se trata da rádio Arezzo, igual em todas as lojas. Mudei de marca…

E não entendo as pessoas que necessitam de barulho para viver, pessoas que mantém a televisão ligada – em alto som, para não se sentirem sozinhas…

Abrem mão de dois bens que são duas verdadeiras preciosidades para mim: o silêncio e a solidão.

O silêncio que faz aflorar o pensamento límpido, clareia as ideias, nos põe em contato direto com nosso ser interior de maneira calma e frutífera.

E minha grande amiga e companheira, a solidão, que permite que tudo isso aconteça…

Outros tempos

Houve um tempo em que as pessoas cultivavam valores diferenciados. E o dinheiro não era o mais importante.

Sempre tudo teve preço, mas alguns sentimentos tinham valor.

Era assim com a morte. Você perdia alguém muito amado, você se recolhia no luto e todos respeitavam sua dor.

Hoje você perde alguém e corre para a internet gritar aos quatro ventos que quer justiça e indenização.

Quando um filho morria, a mãe quase morria junto de tanto sofrimento. Hoje ela contrata um advogado e pede uma indenização, vendendo a vida do filho que se foi.

Era assim também com o crime.

A vítima de um crime era respeitada, resguardada e mimada pelos mais próximos. Hoje ela é explorada pelos meios de comunicação e exposta até o último grau que beira mesmo a indignidade.

E o criminoso era execrado publicamente. Se fosse preso, a família até se mudava de cidade, de tanta vergonha de ter um bandido.

Hoje, a mãe põe a cara na televisão em cadeia nacional e fica berrando que o filho é vítima da polícia.

Houve um tempo, até mesmo, em que a polícia era bem vista, os policiais eram respeitados.

Hoje qualquer bandidinho chega na audiência de custódia, ataca moralmente os policiais que o prenderam, ofende o promotor de justiça e xinga o juiz de direito. E as autoridades ainda pedem desculpas ao delinquente por ter sido preso.

Houve um tempo em que não pagar as contas era motivo de desonra. Hoje o calote é oficialmente institucionalizado. E é proibido cobrar o devedor.

Houve um tempo, e não faz muito tempo, que vergonha era algo pessoal. Hoje é pública e todos se orgulham de passá-la.

Que tempo é este?