Nada

Nuvens sem fim, escuridão

O céu desaparece e o nada é imensidão

Luz sem vida de estrelas mortas

No âmago da inconstância

Indefinidas formas se encontram

A vida, finita por natureza

Não pode conter infinitos

Amores também nascem para morrer

Tudo o que floresce, fenece

Das correntes nos libertamos

Para nos atirarmos dos rochedos

E morrer no mar

Nada permanece, nada é eterno

Cada minuto diminui sessenta segundos de vida

Só insensatos não entendem essa realidade

A sede de viver é proporcional à consciência da morte

Certeza absoluta nesse oceano de incertezas

Quando chega um momento certo

Verdes e azuis se tornam marrons e cinzas

E até a natureza parece soçobrar

De tudo aquilo que fomos, vimos e amamos

Então nada restará

 

 

Les flammes à Notre-Dame de Paris

Hoje não dá para escrever.

O coração chora e alma soluça ao verem o grande incêndio destruindo Notre-Dame de Paris.

Quantas missas, quantos passeios.

E quantas lutas ela assistiu…

Quantos seres ela abrigou com seus segredos…

Paris perde hoje seu mais importante símbolo, o monumento histórico mais visitado do mundo.

Diz Actualités, de l’Agence France-Presse:

Le feu, dont la gravité restait encore à déterminer, a pris dans les combles de la cathédrale, monument historique le plus visité d’Europe, ont indiqué les pompiers. Selon le porte-parole de Notre-Dame, l’incendie se serait déclaré aux alentours de 18H50.

Cet incendie intervient au premier jour des célébrations de la Semaine sainte qui mène à Pâques, principale fête chrétienne.

Environ 13 millions de touristes visitent le bâtiment chaque année.

Triste dia, que jamais será esquecido. Como não chorar ao ver a agulha caindo no meio das chamas, tombando a Catedral de dor, sobre si mesma????

Triste, muito triste. Tragédia na História da humanidade. Ela nos acolhia desde o ano de 1.200… 

 

 

Lições do mar

Uma vez – era 1º de janeiro de 1986 – eu resolvi nadar da praia até a escuna,  nas imediações de uma ilha, dispensando o barquinho de transporte. Fui. Sozinha. Os grupos de nado já tinha ido mais cedo.

A certa altura minha cervical travou – imediatamente o braço esquerdo “morreu”. Eu tenho uma lesão que paralisa o lado esquerdo, desde que meu pescoço ficou embaixo de um caminhão, aos 18 anos.

Eu tentei mais duas ou três braçadas. Só o direito respondia.

Eu sabia que se forçasse muito, a perna esquerda também paralisaria. Já era acostumada com o problema.

Respirei fundo para clarear as ideias e dominar o pânico – se você apavorar e engolir água, vai ficar ali para sempre.

Virei de costas e comecei a boiar. Bem solta, leve, achando bom.

Era céu e mar. E eu.

Fui rodando com a marola, para me localizar.

A praia estava muito longe. Não daria para voltar.

O barco estava muito longe. Não daria para alcançar.

Então eu fui me posicionando numa linha reta e o local onde uma família – mãe e duas crianças pequenas, que não podiam voltar nadando – esperava na praia pelo barquinho de resgate.

E ali fiquei. Uns vinte minutos até meu pessoal, que já estava no barco, notar que eu não estava mais nadando e precisava de socorro.

Só uns vinte minutos.

Mas, sozinha, deitada sobre o mar e coberta pelo céu, eu era o nada, o nada-do-mais-profundo-nada no meio de duas imensidões – o mar e o céu, quando então o tempo toma outra dimensão.

Vinte minutos são a eternidade.

Sobrevivi.

Estou aqui.

Outra pessoa, não mais a que entrou no mar e ficou vinte minutos aguardando um escaler para resgate.

Conclusão:

Aprendi, em vinte minutos, que não se luta com a vida. Mas, pela vida, ainda que permanecer imóvel e calma seja a única chance possível de vitória.

Sou a única responsável pela minha vida e pela minha sobrevivência. Ninguém pode lutar por mim.

O que vida me manda, aceito com alegria.

Se for amargo, bebo de uma vez e esqueço.

Se for doce, saboreio em pequenos goles, para durar mais.

A vida é o que é. Reina absoluta até que a morte nos resgate.

Dia de Poesia, Porque hoje é sábado

O dia da criação 

II

Neste momento há um casamento 
Porque hoje é sábado. 
Há um divórcio e um violamento 
Porque hoje é sábado. 
Há um homem rico que se mata 
Porque hoje é sábado. 
Há um incesto e uma regata 
Porque hoje é sábado. 
Há um espetáculo de gala 
Porque hoje é sábado. 
Há uma mulher que apanha e cala 
Porque hoje é sábado. 
Há um renovar-se de esperanças 
Porque hoje é sábado. 
Há uma profunda discordância 
Porque hoje é sábado. 
Há um sedutor que tomba morto 
Porque hoje é sábado. 
Há um grande espírito de porco 
Porque hoje é sábado. 
Há uma mulher que vira homem 
Porque hoje é sábado. 
Há criancinhas que não comem 
Porque hoje é sábado. 
Há um piquenique de políticos 
Porque hoje é sábado. 
Há um grande acréscimo de sífilis 
Porque hoje é sábado. 
Há um ariano e uma mulata 
Porque hoje é sábado. 
Há uma tensão inusitada 
Porque hoje é sábado. 
Há adolescências seminuas 
Porque hoje é sábado. 
Há um vampiro pelas ruas 
Porque hoje é sábado. 
Há um grande aumento no consumo 
Porque hoje é sábado. 
Há um noivo louco de ciúmes 
Porque hoje é sábado. 
Há um garden-party na cadeia 
Porque hoje é sábado. 
Há uma impassível lua cheia 
Porque hoje é sábado. 
Há damas de todas as classes 
Porque hoje é sábado. 
Umas difíceis, outras fáceis 
Porque hoje é sábado. 
Há um beber e um dar sem conta 
Porque hoje é sábado.
 
Há uma infeliz que vai de tonta 
Porque hoje é sábado. 
Há um padre passeando à paisana 
Porque hoje é sábado. 
Há um frenesi de dar banana 
Porque hoje é sábado. 
Há a sensação angustiante 
Porque hoje é sábado. 
De uma mulher dentro de um homem 
Porque hoje é sábado. 
Há a comemoração fantástica 
Porque hoje é sábado. 
Da primeira cirurgia plástica 
Porque hoje é sábado. 
E dando os trâmites por findos 
Porque hoje é sábado. 
Há a perspectiva do domingo 
Porque hoje é sábado. 

(Vinicius de Moraes)

Além da realidade

Gosto muito de cinema. Houve períodos em minha vida (antes dos domésticos videocassetes) que ia ao cinema três ou quatro vezes por semana. Resultado: assisti muito filme ruim, mas também vi filmes inesquecíveis. 

Nessa época sonhava em ter uma casa com uma sala de cinema só minha, para assistir meus filmes sem os inconvenientes de plateias por vezes sem muita educação. 

Mas o progresso chegou e nem precisei tanto: basta um aparelho de televisão, o dvd e uma “filmoteca” (hoje dvdteca) particular e pronto. 

Infelizmente falta tempo, já não vejo mais três ou quatro filmes por semana. 

Sondo todos os sites de venda de dvds, escarafuncho com afinco, e vou conseguindo alguns filmes de mais de 40 anos, e é um prazer vê-los e/ou revê-los. 

E participar do filme, sair da realidade, assim como em A Rosa Púrpura do Cairo. 

E confundir realidade e ficção, como em A Mulher do Tenente Francês. 

Se quer retesar a alma como uma corda de violino, que tal Kolya, Uma Lição de Amor? ou Música do Coração? 

Precisa rir? Um Convidado Bem Trapalhão, ou Parente é serpente… 

Poesia e beleza? As Pontes de Madison; Lendas da Paixão… 

Antigos interessantes, como No Caminho dos Elefantes. 

E ainda ficção científica, como Westworld, Onde Ninguém Tem Alma. 

 Aventuras, épicos, faroestes, históricos, documentários… é um rico mundo paralelo. 

E pergunto: para que analistas, psicólogos e similares? Nenhum mal da alma há que um bom filme não cure.

Ler

Por que ler?

Faço essa pergunta sempre a mim mesma. E são tantas as respostas, que aparentemente é uma pergunta sem resposta.

Não “aprendi” a ler no sentido técnico, ou melhor, ninguém me ensinou a ler. Simplesmente, eu sempre li.

Talvez já o soubesse ao nascer. Quando as pessoas perceberam, por volta de 4 a 5 anos, eu sabia ler. Simplesmente, eu lia.

Nunca fora à escola. Nunca me haviam ensinado alfabeto. Não sei como se alfabetiza uma criança. Apenas sabia ler. Mas não sabia escrever.

E lia.

Lia tudo. Lia muito.

Entrei na escola direto no primeiro ano primário, com sete anos completos. E dona Olga me ensinou a escrever. E eu tive o primeiro contato com uma biblioteca. A escola dividia biblioteca infantil de biblioteca juvenil. Eu podia frequentar, desde o primeiro ano, a biblioteca infantil.

Com nove anos já lera todos os livros dessa biblioteca. Consegui ser autorizada a frequentar (e, por consequência, ter acesso à retirada de livros) a biblioteca juvenil.

Até os treze anos já lera tudo dessa que me interessava, e, a partir dos onze anos, foi inaugurada uma biblioteca pública municipal na cidade onde morava, e lá passou a ser minha segunda casa.

Como eu amava aquele ambiente! Eram cartões e mais cartões (tínhamos uns cartõezinhos onde eram anotados a data da retirada e o código do livro e depois a data da devolução). Nessa época meu ideal era ser bibliotecária…

E continuo lendo. Vivendo em meio a muitos livros. Juntando meus livros existentes nas minhas várias casas, tenho, atualmente, mais de quatro mil exemplares.

Então respondo:

Leio, porque preciso ler. Leio porque ler me leva para outros mundos, para outras vidas, e faz esta mais suportável.

Leio, porque alguém se dedicou a escrever esperando exatamente que outro alguém lesse e visse o mundo pelos olhos do autor.

Leio porque minha alma precisa respirar para viver, e isso só acontece quando a leitura me leva para outra dimensão.

Leio porque quero saber. Quero saber o que o autor pensou, o que o personagem pensou. Porque o autor cria o personagem, mas este tem vida própria. Domina seu criador e impõe sua existência, numa simbiose surreal quase inexplicável.

Leio porque minha mente precisa viajar para onde nunca fui nem irei, a não ser através da leitura, da experiência de quem foi e viveu.

Leio, simplesmente, porque gosto. Porque é bom. É prazeroso.

Livros fazem companhia, trazem paz, desafiam o pensamento…

E, por fim, leio porque existem livros…