A caixinha de música

 

Abaixou-se, pegou a delicada caixinha no chão. Quando se levantou, lágrimas corriam de seus olhos. “Por que você fez isso?” perguntou. A caixinha entortara, a cabeça e um braço da bailarina quebraram e estavam no chão. Recolhidos com cuidado, foram carinhosamente guardados no interior de veludo vermelho.

Havia uma grande dor em seus olhos, uma tristeza que mostrava intensa mágoa.

Ele pegou a caixinha de suas mãos, saiu do quarto e fechou a porta.

Ela voltou a se deitar. E chorou. Chorou sozinha, chorou abafado, até as lágrimas secarem e adormecer ainda soluçando. Ela estava dormindo, por que ele viera na madrugada perturbar seu sono e quebrar sua caixinha de música?

Lembrou-se, então, de quando a teve nas mãos pela primeira vez, há pouco mais de dois anos atrás. Algo que sempre desejara, sempre esperara, enfim, estava ali, a seu alcance.

Quantas noites, já no escuro, dava corda e ficava ouvindo a suave melodia até adormecer. Quantas noites não conseguira mais dormir sem ouvir a musiquinha, como se a caixinha tivesse se tornado um vício? Era seu calmante, seu sonífero, seu ansiolítico mais eficazes…

Aquela caixinha embalara seu sono e amparara seus sonhos todas as noites. Agora ele a quebrara. Sem nenhum motivo. Era um egoísta, não se importava com ela.

Dias depois, encontrou a caixinha sobre a cama. Ele a refizera. Tirou os riscos do verniz externo. Remontara com perfeição a bailarina. Não podia negar o quanto ele era habilidoso quando queria ser.

Sentindo um sopro quente de alegria no coração, deitou-se e deu corda. A música não tocou. A bailarina não dançou. A pancada danificara irremediavelmente o mecanismo.

Ainda que à primeira vista a caixinha estivesse perfeita por fora, seu coração fora para sempre danificado por aquela atitude estúpida, nunca mais seria a mesma, e ela sabia que noites insones a fariam ter saudade dessa caixinha. Mesmo que ele trouxesse outra para substituí-la, não seria igual, porque os sonhos que sonhara com aquela música nunca mais viriam.

Lágrimas lhe vieram aos olhos, porque, uma vez trincada, essa emoção não voltaria mais, mostrando que a saudade já chegara…

Texto atribuído a Mario Quintana

“… Um dia descobrimos que beijar uma pessoa para esquecer outra, é bobagem.
Você não só não esquece a outra pessoa como pensa muito mais nela…

Um dia nós percebemos que as mulheres têm instinto “caçador” e fazem qualquer homem sofrer …

Um dia descobrimos que se apaixonar é inevitável…

Um dia percebemos que as melhores provas de amor são as mais simples…

Um dia percebemos que o comum não nos atrai…

Um dia saberemos que ser classificado como “bonzinho” não é bom…

Um dia perceberemos que a pessoa que nunca te liga é a que mais pensa em você…

Um dia saberemos a importância da frase: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas…” Um dia percebemos que somos muito importante para alguém, mas não damos valor a isso…

Um dia percebemos como aquele amigo faz falta, mas ai já é tarde demais…

Enfim…

Um dia descobrimos que apesar de viver quase um século, esse tempo todo não é suficiente para realizarmos todos os nossos sonhos, para beijarmos todas as bocas que nos atraem, para dizer o que tem de ser dito…

O jeito é: ou nos conformamos com a falta de algumas coisas na nossa vida ou lutamos para realizar todas as nossas loucuras…

Quem não compreende um olhar tampouco compreenderá uma longa explicação.

Cada um que passa em nossa vida passa só, pois cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra. Cada um que passa em nossa vida passa sozinho, mas não vai só. Leva um pouco de nós, deixa um pouco de si. Há os que levaram muito, mas não há os que não deixaram nada. Esta é a maior responsabilidade de nossa vida e a prova de que duas almas não se encontram por acaso.

Com o tempo, você vai percebendo que para ser feliz com uma outra pessoa, você precisa, em primeiro lugar, não precisar dela.

Percebe também que aquela pessoa que você ama (ou acha que ama) e que não quer nada com você, definitivamente, não é o homem ou a mulher da sua vida.

Você aprende a gostar de você, a cuidar de você e, principalmente, a gostar de quem também gosta de você.

O segredo é não correr atrás das borboletas. É cuidar do jardim para que elas venham até você.”

A fita

“Menina bonita com laço de fita / o que você faz pra ser tão bonita

Menina bonita, se você quiser / quando crescer será minha mulher…”

Quando ele começava com essa brincadeira ela se encolhia, se pudesse daria um jeito de sumir no ar, como uma bolha de sabão estourada.

Era um primo bem mais velho de seu pai, eles eram muito amigos, motivo pelo qual era muito querido da casa e sempre vinha almoçar aos domingos e jantar alguns dias da semana.

Ela era criança, obediente, tinha de estar à mesa e aguentar o versinho que a envergonhava. Depois os irmãos ficavam fazendo brincadeiras com isso até ela chorar. A mãe ralhava, mas ria, porque não havia maldade nem no velho primo nem nos irmãos.

Em certa época pediu à mãe que nunca mais colocasse laços de fitas em seus vestidos nem em seus cabelos. Passou a odiar quando se via com alguma fita prendendo seus longos cabelos escuros.

O tempo passou. Ela cresceu. E ficou uma bonita moça. Mas se sentia incomodada quando alguém dizia que era bonita. Dentro de sua cabeça ressoava aquela voz com a estrofe, embora o velho primo já tivesse morrido há muitos anos.

Muito tempo se passou. Ela já não era mais menina nem moça. Quando se olhava no espelho via a decadência física, mas tinha de se conformar.

Às vezes, quando queria se sentir um pouco bonita outra vez, prendia os ralos cabelos com um vistoso laço de fita…

Um barco à deriva

Como seguir o vento, se as adriças já não içam as velas?

A calmaria impede navegar, não há mais movimento

O leme, inútil agora, tenta indicar a direção a seguir

Mas o velho barco não consegue seguir adiante

Está à deriva, tristonho, já não se arrisca nas ondas

Nem luta com o mar quando há tormentas e ventos

Pássaros ligeiros do alto espreitam a imobilidade

Tal como nuvens brancas, esparramadas pelo céu azul

E o mar, todo o mar, rodeando e embalando

O casco que balança ao sabor das marolas

Não é possível seguir, mas não é possível ficar

Por que parou, barco ligeiro e habilidoso?

Perdeu a vontade de navegar, a necessidade de chegar,

Ou já não há porto a sua espera? pergunto ao barco.

Comparo agora esse velho barco a meu coração

Que se recolhe num ponto qualquer, perdido sem

Ter razão para seguir, já não luta nem se arrisca

Que também perdeu seu porto onde ancorar

Porque as adriças do abandono travaram o sentimento

Resta, então, a velha âncora da paixão que já não há,

Mortas as velas do encanto que impulsionam e lhe dão sentido.

Minha praia

Olha que coisa mais linda / Mais cheia de graça / É ela, menina / Que vem e que passa / Num doce balanço / A caminho do mar

Moça do corpo dourado / Do sol de Ipanema / O seu balançado é mais que um poema É a coisa mais linda que eu já vi passar.                                                                (Garota de Ipanema – música de  Antônio Carlos Jobim e letra de Vinicius de Moraes, 1962)

 

 

Quantas garotas na praia. Quantos rapazes na praia. Todos passam a caminho do mar, sorridentes e animados.

A praia exerce tal atração na esmagadora maioria das pessoas que é preciso explicar esse encantamento. Pronunciar a palavra “férias” e já vem a imagem da praia. Ver uma imagem de praia e já se associa a férias.

Estão intimamente ligadas. Pelo menos em terras tropicais como esse país com vasta imensidão de seu território reservado para o litoral. Belíssimo, de norte a sul. A costa brasileira é privilegiada. Mares calmos, mares de grandes ondas, mares quentes, mares frios, mares cinzas, mares azuis e os lindos “verdes mares bravios” (“de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba; Verdes mares, que brilhais como líquida esmeralda aos raios do sol nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros; Serenai, verdes mares, e alisai docemente a vaga impetuosa, para que o barco aventureiro manso resvale à flor das águas.” Iracema, José de Alencar). Mas sempre o mar. Nosso mar. Nossas praias.

A praia é o espaço mais democrático e igualitário que existe. Simplesmente não existe exclusão em território de areia e mar.

Todos juntos, barracas quase iguais, maiôs, pés descalços, não importa se rico ou pobre, se feio ou bonito, se gordo ou magro, se novo ou velho. Há espaço, sol e diversão para todos.

Praia boa tem sol, vento, areia voando, água subindo (“onda, onda, olha a onda”, como dizia a música dos anos 90… olha a onda, e os doces da Roberta sendo levados pelo mar… muita risada pela imprevidência com relação à subida da maré…)

Praia boa tem criança brincando, tem criança perdida, tem gente passeando, tem gente andando, tem gente caminhando e tem gente correndo.

Praia boa tem salva-vidas apitando…

Praia boa tem água de coco e cerveja tri-gelada…

Praia boa, mas boa mesmo, é a que me espera a partir do fim de semana. Lá vou eu!

Dia de Poesia – Pedro Homem de Mello – Cisne

 

 

Amei-te? Sim. Doidamente!
Amei-te com esse amor
Que traz vida e foi doente…

À beira de ti, as horas
Não eram horas: paravam.
E, longe de ti, o tempo
Era tempo, infelizmente…

Ai! esse amor que traz vida,
Cor, saúde… e foi doente!

Porém, voltavas e, então,
Os cardos davam camélias,
Os alecrins, açucenas,
As aves, brancos lilases,
E as ruas, todas morenas,
Eram tapetes de flores
Onde havia musgo, apenas…

E, enquanto subia a Lua,
Nas asas do vento brando,
O meu sangue ia passando
Da minha mão para a tua!

Por que te amei?
– Ninguém sabe
A causa daquele amor
Que traz vida e foi doente.

Talvez viesse da terra,
Quando a terra lembra a carne.
Talvez viesse da carne
Quando a carne lembra a alma!
Talvez viesse da noite
Quando a noite lembra o dia.

– Talvez viesse de mim.
E da minha poesia…