16º domingo de quarentena

Após deixar terra arrasada, esquerda luta por interesses ...

Há exatos 78 dias eu fiz um propósito – ou auto desafio – de postar 100 dias seguidos aqui no blog. Textos de minha autoria, de preferência.

Escrever diariamente não é exatamente fácil. E durante um isolamento compulsório, mais difícil ainda.

A sensação de que, ao mesmo tempo em que nosso mundo está desmoronando, nada acontece de novo, de interessante. Então pergunto: como escrever uma crônica?

São 16 finais de semana dentro desta casa. Oito feriados, alguns prolongados. E eu dentro da mesma casa.

No meu caso específico, 108 dias que aqui cheguei, e daqui não mais saí.

Impossível controlar o desânimo. A falta de motivo para se levantar pela manhã e encarar um dia inútil, exatamente igual aos anteriores.

Se é muito necessário ir a algum lugar, vai-se por pura obrigação, porque não é agradável ver uma cidade triste, como se fosse um fim de festa. Há, no ar, esse jeito desesperançado de fim de festa.

As pessoas de máscaras – o que é ridículo – todas igualadas na tristeza de esconder o rosto.

Eu tive a esperança, no início, que o isolamento duraria uns vinte dias, o que seria suficiente para os hospitais se prepararem se houvesse uma epidemia. Mas as coisas foram se complicando e a doença se tornou política.

Com o Presidente da República afastado, por ordem judicial, de toda e qualquer decisão quanto aos rumos do controle da epidemia, começou intensa farra com dinheiro público. E, 112 dias depois de decretado o isolamento, os hospitais não foram preparados. Não obstante o rio de recursos públicos que correu por entre os Estados.

Querem combater o vírus tão somente com o isolamento social.

Provocando desemprego, pobreza, fome e miséria.

Tirando das pessoas a vontade de viver.

Tudo está tão triste que acredito que vamos ter uma epidemia de depressão neste país.

O pior é que, depois de seis meses, agem como se a doença fosse indecifrável, embora já tenhamos elementos mais do que suficientes para traçarmos o perfil de seu avanço, sua real letalidade, o que pode – e deve – ser feito efetivamente para seu controle, além de matar o povo de solidão, desamor e desolação.

E, o pior, um monte de ignorantes acreditando piamente no “é para seu bem”, quando ninguém faz nada pelo bem do outro, são todos movidos pelo tamanho do bolso.

Amores se perdem, amigos se distanciam, famílias se separam. Isso é para o bem de quem????

Quero minha vida de volta. Quero ter motivos para viver. Quero ter alegria para escrever. A poesia morreu dentro de mim. Meus sentidos estão entorpecidos – a vida se transformou em prolongada agonia. Como se todos estivéssemos esperando a morte.

A devastação toma conta das almas isoladas, das praças hoje vazias, das ruas ermas, dos bares interditados.

Não há mais alegria. Exatamente alegria, o sal da vida. Estão nos tirando o que temos de mais precioso, a base que nos permite enfrentar as situações adversas: estão nos tirando a alegria de viver. E dizem que é para nosso bem.

Uma terra arrasada, um país destroçado restará dessa palhaçada, se é que isso vai acabar um dia.

As liberdades civis estão correndo sério risco de serem anuladas. Mas é para nosso bem.

O que não pode ser proibido, eles dão um jeito de aniquilar: não há mais sorrisos, aqueles sorrisos que víamos nas ruas, por trás dos balcões no comércio. Porque nos obrigam a escondê-lo com a máscara.

O que será o fim disso? Quando será o fim disso?

Não consigo imaginar o que terá de acontecer para que chegue ao fim disso tudo. Sei que nada voltará a ser como era antes de 17 de março. ajuntaremos os cacos de vidas arruinadas e terra arrasada e tentaremos construir um futuro.

Enquanto conseguir resistir, postarei aqui diariamente. Por mim. Por quem quiser ler. Para tentar distrair minha mente. E de quem me honra em vir aqui.

Esse é meu desabafo, nesse 16º domingo de quarentena.

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