Na cozinha

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Hoje resolvi inovar. Trouxe o computador para o térreo e estou escrevendo na mesa da cozinha.

Nunca, antes, escrevi na cozinha.        

Gosto de ficar aqui. Quando estou sozinha, tudo silencioso, esse ambiente desperta minhas lembranças.       

Tantas cozinhas, das minhas casas, das casas de meus pais, das minhas irmãs, minha avó Alice, minhas tias – inesquecível cozinha da casa da tia Nina, em Morro Agudo, onde aprendi algumas artes, com ela e com a bisavó italiana Victoria.   

Sei que há pessoas – muitas mulheres nesse rol – que não gostam de cozinhar. E outras que ostensivamente odeiam essa tarefa.      

Eu amo cozinhar.      

Quando entro na cozinha e começo a preparar alguma coisa, sinto-me como se fosse outra pessoa – sem stress, sem pressa, concentrada, apaixonada pelo que estou fazendo. Tenho hábito de “estudar” culinária – ler receitas, desvendar segredos, entender temperos.      

Lembro-me do filme Tempero da Vida. O avô – tão querido – ensinando ao pequeno neto os segredos das ervas e da conquista.     

Testo receitas. Invento pratos. Altero o modo de fazer de outros. Minha comida é prática e simples. Mas extremamente saborosa. Prefiro trabalhar com o que se colhe e não com o que se mata. E não sou muito de fazer doces.    

Mas trabalho carnes também. E, dentre essas, gosto de preparar peixes e frutos do mar. Do bacalhau ao vôngole. Alguns eu nunca fiz, por falta de oportunidade de tê-los frescos aqui no Sudeste. Como, por exemplo, o sururu.       

Nada mais saboroso que um caldinho de sururu, à beira-mar na Ponta Verde, em Maceió.     

Outros sabores também se aperfeiçoam em seus locais de origem. 

Uma sopa de cebola só é magnífica em Paris. Em qualquer outro lugar é, no máximo, boa ou muito boa.    

O goulash em Budapeste.    

O salmão em Puerto Varas… e tantos outros que despertam lembranças de viagens e incríveis experiências gustativas.     

Esses pratos nem tento igualar. Porque só nessas cidades eles são tão maravilhosos.     

Mas vou seguindo minha intuição e tentando aperfeiçoar a arte de amar através da culinária. Porque se não houver amor, nenhum prato será saboroso. Cozinhar é se doar nos sabores, no prazer de causar nos outros o prazer do paladar.      

O ato de cozinhar nada mais é do que uma refinada e moderna alquimia – a incrível transformação da matéria através do fogo, do frio, do ácido. Mantimentos secos, inodoros, duros como cascalho se tornam cremosamente úmidos, cheirosos e macios através da nossa arte.      

Os temperos são um capítulo à parte. A grande arte, o grande segredo, está nas mãos e na intuição de quem os mistura.     

Tantas guerras, tantas lutas no passado pelas especiarias, e hoje as pessoas compram cubinhos fedorentos de temperos químicos, que nem imaginam o que contêm, quando é tão simples manter ervas frescas em jardineiras e ervas secas em potes, mais algumas pimentas – curtidas e/ou secas, e está ali toda a matéria prima necessária para saborosíssimos pratos.      

Olho em volta e penso que todas as cozinhas são iguais – pia, fogão, balcões, fornos… como é agradável ter uma cozinha. Como é bom saber usar essa cozinha. No decorrer da vida perdemos audição, visão, afetos, mas o paladar, ah, esse o conservamos até morrer.     

Mesmo agora, aqui, sozinha nessa mesa, sinto a acolhida da casa de meu pai, quando estávamos todos ao redor de sua mesa – ele e minha mãe sempre fizeram questão dessa convivência à mesa, com troca de notícias, de experiências, de lembranças, de brincadeiras, quando formávamos as memórias que traríamos para sempre em nossa vida, com destaque para os cheiros de temperos e sabores das refeições que minha mãe nos preparava. E o amor que senti em casa de outras pessoas, quando era acolhida à mesa, para desfrutar com outra família uma refeição.     

E tudo isso começa entre a pia e o fogão, no preparo das refeições. Não tenho dúvidas quanto ao acerto de Brillat-Savarin, que, em pleno séc. XVIII já afirmava que a descoberta de um novo prato era mais para a humanidade do que a descoberta de uma nova estrela.

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