Voltar a que vida?

Maioria das mulheres britânicas não toma banho diariamente

Não se preocupava com a temperatura da água do chuveiro correndo em seu corpo. A melhor hora do dia era essa – a hora do banho.

Desde que suas lágrimas secaram, sentia um prazer mórbido em ver a água correndo por sua pele e imaginar que seu corpo inteiro chorava, que depois que os olhos deixaram de chorar e as lágrimas dos olhos não correram mais pelas faces, essas gotas que a percorriam por inteiro eram o pranto do corpo. Da mente. Da vida. Pelo passado. Pela falta de futuro.       

Também não importava se água quente ou banho longo poderiam fazer mal à pele ou aos cabelos. Há muito evitava se olhar no espelho. E, quando o fazia era rapidamente. Porque não gostava do que via.  

A imagem não correspondia à pessoa. Não era porque aquela imagem não lhe pertencesse. Mas exatamente o contrário: ela que não pertencia àquela imagem. O que o espelho cristalizava e lhe devolvia simplesmente não era ela.       

Sua vida mudou radicalmente há uma década. Não se reconhecia mais. Nem a si, nem ao mundo ao redor de si.       

Era começo de 2020. Um ano depois de terminar a faculdade, conseguira a sonhada bolsa para pós no exterior. O noivo batalhou e conseguiu um estágio junto. Então se casaram, em cerimônia simples, deixando a festa de comemoração para daí dois anos, quando regressariam. Felizes, cheios de ilusão, foram para a Espanha.      

Ocupados em se organizarem com relação à nova casa, nova pátria, não perceberam o que acontecia no mundo. Todos falavam em epidemia, pandemia, mas não entendiam o que seria aquilo.     

Até o marido ser internado às pressas. E morrer em três dias. Desesperada, ela soube que na família várias pessoas também estavam doentes. Não podia voltar. Ninguém podia ir. Despediu-se da vida quando se despediu do marido. Entrou em casa, e ficou em isolamento por meses. A faculdade estava fechada. Não havia curso. Não havia emprego nem dinheiro. O desespero era total.      

Finalmente conseguiu voltar ao Brasil.       

Embora passados apenas alguns meses, voltou para outro mundo. Voltou viúva. E se viu órfã. Um dos irmãos também morrera.      

A família estava destroçada. Todos desempregados. Empresas fechadas.     

Todo seu futuro havia sido enterrado com seus familiares e outras vítimas.     

A peste avançava inclemente, de braços dados com a morte e a miséria.     

Continuou isolada na casa que um dia fora viva e abrigara uma família feliz.     

Um dia, meses depois, avisaram que o risco de contaminação estava controlado, e todos podiam voltar à vida normal.     

Nunca soube se alguém voltou.     

Não havia como nem para onde voltar. Continuou em casa, foi, aos poucos, se afastando de si mesma, e não sabia em que momento perdera sua própria vida. 

Tinha certeza que não estava mais viva. Apenas pairava no silêncio e na tristeza que ficaram depois da peste.

Sonhava acordada em poder fazer o tempo voltar. Aos dias alegres de sua juventude, à despreocupação dos anos de faculdade. Voltar à vida. Celebrar a formatura no exterior e o casamento em uma mesma festa. Nada disso aconteceu. Onde ficou sua vida? Porque o que lhe devolveram depois do isolamento nunca mais foi vida.     

E se perdeu de si. Não se via no espelho – não era aquela mulher esquisita, de olhos fundos e tristes.      Não se encontrava em nenhuma atividade – não havia prazer em nada.     

Nunca mais chorou. Esgotara sua capacidade de chorar.     

Fechou o chuveiro, enrolou-se no roupão, e foi tentar dormir. Quem sabe acordaria em outro mundo…

2 comentários em “Voltar a que vida?

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