Um dia, há de ser passado

… principalmente pelas tenebrosas condições em que todos nós no encontrávamos, quando fomos surpreendidos pela cidade toda se alegrando com a esperança do fim da epidemia.    

Nada, a não ser a intervenção imediata do dedo de Deus; nada, a não ser Seu poder onipotente poderia fazer isso. O contágio ridicularizava todos os remédios, a morte atacava em cada esquina e se continuasse como estava, mais algumas semanas e a peste teria limpado a cidade de tudo e todos que tivessem uma alma.

…    

No exato momento que bem deveríamos dizer “é inútil a ajuda do homem” – digo, neste exato momento, para nossa agradável surpresa, Deus quis que a fúria da peste diminuísse, ainda que por si mesma.

…    

É impossível expressar a mudança da própria fisionomia das pessoas naquela manhã de quinta-feira, quando foi divulgado o registro semanal de óbitos. Podia-se perceber nos semblantes um espanto secreto e um sorriso de satisfação estampados na face de todo mundo. Aqueles que antes não passariam pelo mesmo lado de uma rua onde viesse alguém apertaram as mãos uns dos outros. Nas ruas não muitos largas, as pessoas abriam suas janelas e chamavam de uma casa para outra, perguntando como estavam e se ouviram a boa notícia da diminuição da peste.

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Em meio a sua aflição, justamente quando a cidade de Londres estava em condições verdadeiramente calamitosas, foi do agrado de Deus – através da intervenção imediata de Sua mão – desarmar o inimigo, retirando o veneno de sua ferroada. Foi maravilhoso e até os médicos se surpreenderam.

…    

Isso tampouco aconteceu pela descoberta de um novo medicamento nem por um novo método de cura ou por qualquer experiência em andamento que os médicos e cirurgiões estivessem testando; evidentemente, isso veio da secreta e invisível mão Dele que, primeiro, enviou a doença como um castigo sobre nós. … A doença perdeu seu vigor e consumiu sua malignidade; e deixai que isto venha de onde vier, deixar os filósofos procurarem razões na natureza para explicar o fato, fazendo tudo o que podem para diminuir a dívida que eles têm para com o Criador.

…    

Foi então, como disse antes, que o povo perdeu todos os seus medos muito rapidamente. De fato, não tínhamos mais medo de cruzar com um homem de boné branco na cabeça ou com um pano enrolado no pescoço, ou arrastando uma perda devido às feridas na virilha e tudo que na semana anterior era apavorante no mais alto grau. Agora, porém, as ruas estavam cheias deles e estas pobres criaturas convalescentes, dando-lhes o que lhes é devido, pareciam muito sensibilizadas pela sua inesperada salvação.    

Concluirei, então, o relato desse calamitoso ano com um vulgar, porém sincero verso de minha autoria, que coloquei no fim de minhas anotações cotidiana no mesmo ano em que foram escritas:    

Terrível peste esteve em Londres    

no ano de sessenta e cinco    

cem mil almas levou consigo    

mesmo assim, estou vivo!

(Um diário do ano da peste, Daniel Defoe)

Poesia da casa – Tanta saudade

Um Navio | Aventuras e Devaneios
Lembranças doces que nos perseguem
Ausência de uma paixão que se desvaneceu no tempo
Presença constante da falta que alguém nos faz
Buscar no nada uma razão para a existência
Fazer, da névoa da memória, uma companhia
Olhar para as próprias mãos, agora vazias
Ainda com o perfume do amor compartilhado
De tudo que escorreu por entre nossos dedos
E não conseguimos reter em nossa vida,
Mas não tivemos jeito de tirar do coração.
Relembrar cada momento de doçura e encanto
Ouvir de novo a voz já tão distante
Perder os contornos precisos de um vulto
e ver as cores da própria vida se esmaecendo
Como um barco que, pouco a pouco, se afasta do cais

Um pouco de maturidade

Maturidade é se segurar e não abrir o presente antes da hora.    

Maturidade é se segurar e não chorar quando contrariado.    

Maturidade é se segurar e chegar em casa com o pacote fechado…    

Hoje eu tive a prova que tenho algum grau de maturidade.    

Quando recebi, nos idos de 2013, meu primeiro livro publicado, “Alinhavando letras”, a emoção foi intensa. Senti que vivia um momento único.    

E esse momento único se repetiu… foram dez momentos únicos…    

A ansiedade para ter o livro aberto nas mãos é incontrolável. Infantil mesmo.  Você já vai abrindo o embrulho no caminho, querendo tocar o livro, ver como ficou, a ansiedade é invencível.  

Hoje, entretanto, eu me segurei e dei, a mim mesma, uma prova de maturidade.    

Vim da Editora até minha casa com o pacote de livros ao lado. SEM MEXER!    

Mas quando cheguei em casa, nem pisquei: abri o pacote, peguei um exemplar e senti a emoção intensa de mais um momento único – uma antologia, a oitava da qual participo. E aí esta: com orgulho e muita emoção nosso “Nos dias em que o mundo parou”, coordenado por Silvia Bruno Securato.    

São onze livros.

Onze emoções intensas.

Oito momentos únicos.

E um pouco de maturidade…

Ano triste

Acho que estamos vivendo o ano da tristeza.     

Depois de mais de cinco meses, volto para passar uns dias em São Paulo – não consigo entender as pessoas que dizem detestar esta cidade. Amo São Paulo. Aqui estou, realmente, em casa.     

Uma cidade viva, vibrante, animada – sempre acreditei que dizem que São Paulo não pode parar porque não tem onde estacionar.     

Ou não tinha.      

Com essa peste maldita, a cidade continua vazia.

Quadras e quadras de imóveis comerciais fechados – placas “Vende-se” ou “Aluga-se” para todo lado. Dói pensar que por trás de cada uma dessas placas, existe uma ou mais famílias sem fonte de renda… Isso é horrível, principalmente porque não conseguiram estabelecer uma relação de causa e efeito entre estabelecimentos comerciais (exceto padarias, farmácias, quitandas e supermercados) e o vírus.     

Será que o vírus é assim tão inteligente que distingue um restaurante de uma farmácia, um salão de beleza de um supermercado??? Lojas, lojas e mais lojas fechadas… muito triste…     

Hoje fui ao centro mais central da minha terra, seu coração – imediações da Praça da Sé. Trânsito livre. Como se estivéssemos em pleno janeiro e não em meados de setembro. Sem mãetoristas, quase sem táxis… e foi triste ver isso. Cada táxi a menos corresponde a uma família a mais passando privações.     

Em todos os lugares as pessoas usam máscaras. Além de danosas, ridículas. Querem nos obrigar a nos sentirmos como chineses cretinos que andam de máscaras nas ruas.

Isso é horrível.     

Mais fácil eu morrer de máscara do que de covid, em razão da minha alergia. Nunca tive uma simples gripe. Vírus não têm efeitos em mim. Mas a máscara está acabando comigo.

Feia, grosseira, ridícula, tudo de ruim.

Se fico muito em casa, não é porque “tenho medo” dessa porcaria de covid – já disse um milhão de vezes e repito – de faca, bala, pancada ou vírus, um dia terei de morrer, nem antes nem depois, mas no momento exato em que foi programado para mim – mas porque me sinto muito mal de máscara. Não sou assaltante nem pretendo ser para andar com o rosto escondido…

Há alguns dias, conversava com uma amiga e quando eu falei que queria muito dar um abraço nela, mas, por ela estar grávida, não o faria por precaução, porém queria que ela se sentisse abraçada por mim, ela, com lágrimas nos olhos me respondeu que o que ela mais estava sentindo falta durante todos esses meses, era exatamente de ser abraçada.

Um abraço é tudo de bom, de gostoso, de aconchegante. Muitas vezes, tudo o que precisamos, é apenas de um abraço apertado. Mesmo em profundo silêncio. Mas o aconchego, a acolhida de um abraço. E agora até isso está proibido.

Peste maldita!     

E, ainda por cima, além de encontrarmos tudo vazio, restaurantes e bares fechados, pessoas passando necessidades, já não nos abraçamos, e ainda perdemos todos os sorrisos – ninguém pode nos dar um sorriso por trás desses trapos nojentos…

Quo usque tandem???????

26º domingo da quarentena

E assim chego ao 26º domingo desde que entramos em isolamento social.     

Isolamento já mitigado por medidas que ampliam a possibilidade de vida, mas ainda restringem nossa vida, e, o pior, é que o rescaldo nem começou – quem conseguirá voltar ao chamávamos “vida normal” antes dessa situação que tanta miséria e tristeza nos trouxe?

Para alegria do meu coração, estou de volta a São Paulo, minha terra natal, minha cidade amada. Estava aqui quando decretadas as primeiras medidas restritivas, viajei para outra de minhas casas, no interior, no dia 19/03, onde fiquei todo o tempo da chamada “faixa vermelha”, que lá durou mais de 120 dias. Foi terrível.  

Por ter alma livre, nascida sob o signo da liberdade, é muito difícil, para mim, ficar cumprindo regras estúpidas e que não provaram ser nem eficientes nem necessárias. Até hoje sequer o governo do Estado conseguiu uma linha de ação clara e inteligível para contagem, sem fraudes, do número de doentes do vírus maldito, nem do número de mortos, nem estabelecer um protocolo eficaz de tratamento. A impressão que se tem é a de que, para esse (des)governo, quanto mais confusão, mais notícias histéricas, mais pânico, maior número de infectados e mortos (ainda que não corresponda à verdade), melhor.     

E, desta forma, fiquei restrita a uma casa (graças ao bom Deus, tenho casa onde ficar, e meios de me sustentar mesmo com tudo fechado e tantas empresas falindo e empregos desaparecendo) desde 19 de março. E lá se foram 25 domingos em prisão domiciliar.     

Mas hoje, nesse 26º domingo, estou em São Paulo. Estou viva. Não tive covid. Embora tenha cumprido dois períodos de total isolamento – o primeiro de 14 dias, quando cheguei de São Paulo, onde estivera em locais públicos, inclusive aeroporto – e por conviver com duas pessoas do chamado grupo de risco, fiquei isolada para não acontecer eventual contaminação. E, em final de agosto, por uma dor de garganta, mais doze dias totalmente isolada, porque foi necessário um exame – swab – para ser possível ao médico administrar medicação para a garganta. Nesse período, novo isolamento, sendo que, para a realização do exame foram necessários quatro dias apenas para conseguir agendamento, e, ainda, mais seis ou sete para sair o resultado, que foi negativo para a peste, e a garganta já havia sarado sozinha. De qualquer forma, mais doze dias confinadíssima.     

Continuo usando a focinheira, vulgo máscara. Sei que não adianta para nada, a não ser acalmar a histeria de certas pessoas. Uso para não complicar a situação dos poucos comerciantes que ainda resistem à falência. Esse uso compulsório se assemelha mais a um exercício, um teste de submissão – até onde podem ir para domar a população? o povo vai continuar a suportar a domesticação ou vai se revoltar? – do que uma medida eficiente de proteção a um vírus que nem sabem direito como se transmite. Eu uso o mínimo de tempo possível – com rinite alérgica, se não morrer de covid vou morrer de máscara mesmo, porque para mim é mais grave do que o vírus.

E, quem não quiser se aproximar de mim porque estou sem máscara, que não se aproxime. Será um favor. Mesmo porque, estranhamente, quanto mais esquerdista a pessoa, mais defende a necessidade de isolamento, máscara e outras baboseiras, como se dispusesse de informações privilegiadas e secretas, sobre os terríveis efeitos do vírus e da doença. Só não defende o uso e acesso da população à medicação preventiva, à qual médicos sérios creditam a verdadeira imunização contra o vírus.     

Mas hoje não foi um domingo perdido.     

Foi um dia muito bom. O melhor desde março.     

A última pessoa com quem estive antes do encasulamento foi Myrian. Amiga de décadas. Pessoa que não digo que ocupa um pedaço especial da parte dedicada aos amigos, do meu coração, porque, na verdade, ocupa quase todo o espaço ali existente. É minha amiga, fomos colegas, nos tratamos como se fôssemos irmãs pelo amor e pelos interesses que partilhamos.     

E ela veio almoçar comigo. Tal como no último dia antes de nos recolhermos compulsoriamente em nossas casas. E aqui ficou até o começo do anoitecer.     

Como é bom encontrar a Myrian, conversar com ela, partilhar um domingo com uma pessoa que faz tanto bem à mente e ao coração. Temos mil assuntos – sem cri-cri, sem pandemia, sem hipocondria nem fofoca.       

Tive, hoje, meu refresco nesse ano tão esquisito. Por isso não vou contar esse dia como 26º domingo de confinamento. Mas um dia de liberdade depois de 25 domingos sem alegria.     

Obrigada, Myrian, por sua amizade, seu carinho e sua companhia. Um dia voltaremos à vida.

E os spas e hotéis que se preparem, porque vamos tirar a diferença desse tempo horroroso, continuando nossas viagens.

(Imagem: foto tirada da janela de casa, por volta de 18h15, do vermelho anoitecer neste domingo em São Paulo)