A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –
Eu não sei, não sei dizer Mas de repente essa alegria em mim Alegria de viver Que alegria de viver E de ver tanta luz, tanto azul! Quem jamais poderia supor Que de um mundo que era tão triste e sem cor Brotaria essa flor inocente Chegaria esse amor de repente E o que era somente um vazio sem fim Se encheria de cores assim
Coração, põe-te a cantar Canta o poema da primavera em flor É o amor, o amor chegou Chegou enfim
A harpa e seu lamento retido em nervos de metal dourado,tão suave instrumento ressonante ou delgado,buscam, ó solidão, teu reino gélido. (Garcia Lorca)
Como definir a solidão, se não é igual para todos? É tão relativo o seu conceito…
Para os poetas é inspiração, para os amantes – se juntos é o ideal, se separados é desespero, para crianças é medo, para tantos adultos é tranqüilidade ou angústia…
A cada fase da vida a solidão se transforma, adota outros significados.
Um bebê deixado sozinho fatalmente morrerá. A cada vez que não visualiza o rosto da mãe o bebê chora porque não tem noção de tempo nem distância e encara a solidão momentânea como total e definitivo abandono.
Nos primeiros anos da vida a solidão se transforma em medo – medo do escuro, medo do desconhecido, medo da noite…
Conforme se cresce,aprende-se a dominar os medos – especialmente os medos abstratos – para mostrar maturidade. Ninguém é ridicularizado se mostra medo de uma serpente, mas se disser que tem medo da noite ou do escuro, vira motivo de infinitas gozações…
E na idade adulta esses medos têm que ser controlados. Aí a grande arte de viver.
O medo da própria vida geralmente se transmuda em timidez. Cada medo vai encontrando uma forma de se encaixar na realidade. E saber lidar com essa gama de emoções se torna essencial para a convivência.
E o medo da solidão – algo abstrato e indefinido – mais cedo ou mais tarde aparece para todos. Vencê-lo é o desafio. Ou conviver com ele e fazer da solidão uma aliada da jornada terrena.
Quem é mais solitário, o filho que fecha a porta do quarto e ali permanece horas ou dias inteiros ou a mãe, que não tem essa escolha e continua nas lides domésticas, fazendo o trabalho invisível, que é feito exatamente para ser desfeito em seguida?
O defunto que é enterrado sozinho em sua caixa de madeira enfeitada ou a viúva, que terá que continuar viva, caminhando sozinha na vida depois de tantos anos de companheirismo?
A irmã que chora ao se despedir da irmã que vai embora para sempre do país ou essa que vai enfrentar o desconhecido em outras terras?
Todos são igualmente solitários.
E a pior de todas as solidões, sem dúvida, é a solidão cotidiana, dentro do grupo em que se convive.
Solidão em família, solidão entre amigos, solidão no ambiente de trabalho.
Todos passam, em algum momento da vida, por solidão. Doída, aguda, insuportável, porém inevitável.
E surpreendentemente, muitos conseguem lidar de forma extraordinária com a solidão, fazendo dela uma grande aliada, a melhor companheira.
E são felizes sozinhos, a companhia de outro ser humano, eventual, passageira, chega até a incomodar, porque se sentem melhor sozinhos…
Se a solidão é opção, poderá, até mesmo, ser transformada em felicidade.
E equilibrar tudo isso é a maneira de se viver em paz: não se desesperar com tempos de solidão e dar valor às pessoas com as quais se convive – momentânea ou permanentemente.
Eu te amo. Mesmo negando. Mesmo deixando você ir. Mesmo não te pedindo para ficar. Mesmo estando longe, eu te amo. E amo mesmo. (Caio Fernando Abreu)
Leio essa frase do Caio Abreu e penso sobre ela. O que é o amor. O que é a paixão.
O recorrente tema da paixão. Porque esse “eu te amo” da frase acima é a expressão da paixão sem limites. É ser loucamente apaixonado por alguém a ponto de deixar de se amar.
Não se amar nem se valorizar. Amar mesmo sendo abandonado. Trocado. Traído. E continuar apaixonado.
Ver o outro ir embora sem ter chances de segurá-lo. E continuar amando.
Ficar longe, completamente separados, mas ainda amando.
Isso não é amor. Isso é obsessão.
Porque amor é troca. Eu amo você e você me ama. Assim é amar.
Não dá para amar pelos dois, não existe amor unilateral.
Porque se for unilateral é loucura, não amor.
Mas é esse desvario do amor não correspondido que desperta o mundo. Ou não teríamos poesias nem romances de amor.
Se o amor for calmo, correspondido, metrificado, quem vai querer saber os detalhes?
Para despertar a curiosidade, vender livros e filmes, a paixão tem de ser devastadora. Muito pranto, muito desespero. Alguém se arrastando até perder a dignidade. Alguém matar ou se matar. Escândalo, sangue, gritos… aí a atenção de todos se manifesta.
Mas se eu amar quietinha, deixar ir, chorar sozinha, que graça tem?
Todos querem fatos picantes e detalhes sórdidos, na história alheia.
No entanto, sonham com esse amor quadradinho, morninho, certinho para si.
Somente na canção de Gil existe o despendimento de “o seu amor, ame-o e deixe-o livre para amar…” Aqui, na fria realidade, é ame-o, agarre-o e destrua sua liberdade; ou quebre suas pernas para que não se afaste, arranque suas asas para que não voe… o sentimento de posse sobre o ser amado é intenso e asqueroso.
Não aceitar ver o outro partir não é amor. É doença.
Matar o parceiro que quis se afastar não é amor. É doença.
Tentar se matar porque o outro achou que era hora de terminar não é amor. É doença.
Amor não mata. Não destrói. Não prende.
O amor simplesmente ama. É altruísta. É bondoso. Acrescenta. Faz crescer e desabrochar.
Dizem (já havia cronistas sociais aqui em 1822), que Dom Pedro I subia vagarosamente a serra no lombo da mula, quando, ao chegar à colina do Ipiranga, nas margens do citado regato, já no planalto, entrando na cidade de São Paulo, recebeu uma carta de José Bonifácio, o patriarca da Independência.
A carta avisava que o o velho Rei d. João VI, que voltara para Portugal, exigia a presença do filho – o Príncipe d. Pedro, no além-mar e, ainda que fora determinada a prisão dele, José Bonifácio, e, portanto, diante de tais fatos, era chegada a hora de o Príncipe tomar uma atitude firme a respeito desses fatos.
Sacando da espada, D. Pedro teria lançado seu brado heróico e retumbante, cantado na primeira estrofe do Hino Nacional: “Independência ou Morte!”
Pensando a respeito, suspeito que não tenha sido esse o grito. Mesmo porque, ainda que existissem fofoqueiros e colunistas sociais já naquela época, não existiam gravadores nem filmadoras, então cada um colocou na boca do príncipe valente e decidido o grito que quis. Aliás, a mula usada para subir a serra de Santos a São Paulo virou um fogoso cavalo no quadro de Pedro Américo que imortalizou o momento histórico. Portanto, se transformaram a mula em cavalo, pode ter sido diferente o que, de fato, ocorreu lá na beira d’água, onde pararam por conta do piriri do príncipe que comeu alguma coisa estragada na sua estadia em Santos (vem de longe esse problema…)
Talvez a carta fosse de seu primo, que avisava da morte de um amigo comum, a quem crescera um enorme calombo na cabeça. Assustado com a notícia, d. Pedro ficou desesperado, e quando lhe perguntaram do que se tratava, gritou: “Excrescência ao Norte!”…
Ou a carta era de seu alfaiate. Contando que o ajudante, por pura incompetência, estragara o fraque que o príncipe encomendara e usaria logo mais à noite, na ópera. Nervoso, o grito, na verdade foi: “Incompetência é Forte!”.
Também pode ter sido a carta de seu procurador, avisando que o principal credor do príncipe, na época bastante endividado, sustentando várias mulheres e muitos filhos, havia morrido. E que ele, procurador, conseguira de um magistrado a declaração de que os títulos usados para as cobranças eram inconsistentes. Portanto, o príncipe nada devia a ninguém. Feliz, saltitando por ter conseguido se safar das dívidas, o príncipe gritou: “Inconsistência ou Sorte?”
Mas, – e esta dizem as más línguas da época – a carta era de uma amante do príncipe, afirmando que foram contar a seu marido que mantinha um romance secreto com o príncipe, o que poderia ser constatado todas as vezes em que, durante as viagens do marido, a mula do príncipe, guardada por quarenta pajens, passava dias e noites a fio pastando no jardim do casal. Ela jurara ao marido que eram fofocas dos vizinhos invejosos porque o príncipe muito honrava a casa com suas visitas, sempre a procura do marido para trocar umas ideias, ainda que nunca o encontrasse. Vendo que o povo falava demais, o príncipe se irritou com o fato e gritou: “Maledicência é esporte!”
Para outras más-línguas a carta era de outra amante do príncipe, que estava preocupada com a ameaça da cozinheira, que falou que não mais obedeceria as ordens da madame, e que faria o que quisesse na casa e ninguém mandaria mais nela senão iria contar para a princesa, futura imperatriz, o que acontecia naquele endereço. Era preciso cortar essa escrava da criadagem da casa, pois o escândalo seria terrível e ela não sabia como obrigar a cozinheira a obedecer. Então, danado de raiva, o príncipe gritou: “Obediência ou corte!”
Há ainda uma outra versão, que a carta era do chefe de polícia, afirmando que havia muitos malfeitores pelo reino, que um grupo começava a se organizar para protestar contra o reino e contra o príncipe, e que os parlamentares da época pretendiam proibir todos os súditos de portarem armas, para evitar um ataque aos nobres. Mas o chefe de polícia temia que, sem armas, todos se tornassem presas fáceis dos assaltantes e saqueadores, que a violência iria se espalhar de uma forma nunca vista, e o povo morreria nas ruas nas mãos de bandoleiros, que o príncipe não podia concordar com o desarmamento dos súditos. Então, preocupado com esse estado das coisas, de que já ouvira comentários no Rio de Janeiro, d. Pedro gritou: “Violência ou porte!”
O Cronista da época, compadre de José Bonifácio, imortalizou a frase “Independência ou Morte”, não porque tenha sido esta a que foi gritada, mas sim porque se o compadre se tornasse o Patriarca da Independência quem sabe sobraria também para ele – o cronista – um lugarzinho na História do país…