Tudo é nada

Era a lama da barranca que nunca se secava ao sol

Era o barro da beira do rio que nunca voltava à água

Era o mato verde que sempre se renovava na chuva

Era a mata intensa que distribuía verde para todos ao redor

Como a pétala de luz que se soltou de um olhar apaixonado

E qual uma estrela cintilou no ar até explodir em nova chama

Era a luz do sol trazendo calor para os corações frios

Era a luz da lua refletindo a tristeza do sol na noite quieta

A vida vive entre ondas, oscilando como oscilam as marés

E a calma que se enxerga pode esconder fortes correntes

A natureza guarda em si uma paz intensa e calada

Mas que pode se modificar a qualquer momento, sem aviso

Descem as águas com fortes estrondos em gritos de rios

E ressoam no infinito os trovões anunciando novas chuvas

E a cada novo dia nada mais é como sempre foi antes do hoje

Porque os olhos veem novas luzes, nada se repete, tudo se cria

E o vento, tão quieto, quase sempre invisível

Em seu momento chega e refaz tudo o que um dia existiu

Não há definitivo nem concreto nem acabado em uma vida

Porque até a própria vida não é definitiva, e se acaba

E tudo, na verdade, foi feito da lama da barranca

Que a água desfaz e se mistura na correnteza do rio

E chega ao mar sem memória do que um dia quis ser

Poesia da casa – Se acaso pretende voltar

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Não tranque as portas. Não levante muros.

Não destrua as pontes. Não apague caminhos.

Deixe seus sinais nos lugares por onde passar

Deixe sempre suas lembranças nas pessoas

Conserve suas trilhas abertas e os atalhos limpos

Porque um dia você foi. Fechou a porta e partiu.

Atravessou tantas pontes, cruzou algumas fronteiras

Passou por tantos lugares impensados

Encontrou muitas pessoas desconhecidas

Seguiu por trilhas surpreendentes, atalhos perigosos Mas você foi. Deixou tudo para um dia ir.

Nada o atraiu. Nada o chamou. Nada o prendeu.

E poderá, por isso, um dia querer voltar.

E, num ímpeto, em sentido contrário caminhará

Buscando o inverso das trilhas, a bifurcação dos atalhos

Revendo aquelas mesma pessoas pelas quais passou

E passará as mesmas fronteiras, terá as mesmas pontes

Voltando pelo mesmo exato caminho da ida

Até encontrar aquela mesma porta por onde já saiu.

Nem precisa bater, se você não a trancou quando se foi

Bastará empurrá-la, e entrar, quando voltar.

Dia de Poesia – Pablo Neruda – Parto

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Já não se encantarão os meus olhos nos teus olhos,
já não se adoçará junto a ti a minha dor.

Mas para onde vá levarei o teu olhar
e para onde caminhes levarás a minha dor.

Fui teu, foste minha. O que mais? Juntos fizemos
uma curva na rota por onde o amor passou.

Fui teu, foste minha. Tu serás daquele que te ame,
daquele que corte na tua chácara o que semeei eu.

Vou-me embora. Estou triste: mas sempre estou triste. Venho dos teus braços. Não sei para onde vou.

…Do teu coração me diz adeus uma criança. E eu lhe digo adeus.

Texto de Antonio Maria – Café com leite

É preciso amar, sabe? Ter-se uma mulher a quem se chegue, como o barco fatigado à sua enseada de retorno. O corpo lasso e confortável, de noite, pede um cais. A mulher a quem se chega, exausto e, com a força do cansaço, dá-se o espiritualíssimo amor do corpo.

Como deve ser triste a vida dos homens que têm mulheres de tarde, em apartamentos de chaves emprestadas, nos lençóis dos outros!  Como é possível deixar que a pele da amada toque os lençóis dos outros! Quem assim procede (o tom é bíblico e verdadeiro) divide a mulher com quem empresta as chaves.

Para os chamados “grandes homens”, a mulher é sempre uma aventura. De tarde, sempre. Aquela mulher, que chega se desculpando; e se despe, desculpando-se; e se crispa, ao ser tocada, e cerra os olhos, com toda força, com todo desgosto, enquanto dura o compromisso. É melhor ser-se um “pequeno homem”.

Amor não tem nada a ver com essas coisas. Amor não é de tarde, a não ser em alguns dias santos. Só é legítimo quando, depois, se pega no sono. E há um complemento venturoso, do qual alguns se descuidam. O café com leite, de manhã. O lento café com leite dos amantes, com a satisfação do dever cumprido.

No mais, tudo é menor. O socialismo, a astrofísica, a especulação imobiliária, a ioga, todo ascetismo da ioga… tudo é menor. O homem só tem duas missões importantes: amar e escrever à máquina. Escrever com dois dedos e amar com a vida inteira.

Dia de poesia – Willian B. Yeats – Quando fores velha

Whistler - retrato da mãe do pintor

Quando já fores velha, grisalha, e com sono,
Pega este livro: junto ao fogo, a cabecear,
Lê com calma; e com os olhos de profundas sombras
Sonha, sonha com o teu antigo e suave olhar.

Muitos amaram-te horas de alegria e graça,
com amor sincero ou falso, amaram-te a beleza;
Só um, amando-te a alma peregrina em ti,
De teu rosto a mudar amou cada tristeza.

E curvando-te junto à grade incandescente,
Murmura com amargura como o amor fugiu
E caminhou montanha acima, a subir sempre
E o rosto em multidão de estrelas encobriu.

(tradução de Péricles E. da Silva Ramos)

Melhorou em que?????

Esse assunto do covid se assemelha ao ralinho do fundo de todas as pias: a água rola, rola, mas é lá que ela sai. Pode até tentar evitar. Porém, não tem outro caminho.     

Você tenta ignorar esse vírus, esquecer a peste, mas eles perseguem, atropelam, barram o caminho, e no final se está falando de covid.     

Aguentei quase oito meses os bobotéricos afirmando que a humanidade vai sair melhor, que os homens vão se apurar e tantas outras bobeiras, que nem respondo. É melhor ouvir e deixar o assunto morrer, parar por aí.     

Não vi nada melhor, agora que a terrível epidemia perde sua força, não matou tantos quantos prometeu, não fez nem aconteceu nem a metade do que tanto propagaram os arautos do apocalipse.      

Aliás, o prefeito de São Paulo nem usou todos os caixões que adquiriu com dinheiro público – em lugar de aplicar o dinheiro para atender aos que estavam vivos e doentes, resolveu comprar milhares de caixões para eventuais futuros prováveis defuntos da peste.     

Quem era ruim está tão ruim quanto era antes da doença – ou um pouco pior. Quem era bom, aproveitou para exercer sua vocação de bondade e solidariedade quando tantos dela precisaram. E ponto.     

O todo piorou bem – antes víamos sorrisos. Agora vemos focinheiras. Nenhum sorriso. E, talvez porque tenhamos somente os olhos das pessoas como ponto de referência, estamos descobrindo olhares frios, indiferentes, de raiva, de ódio, de inveja, de pura maldade.     

E onde ficou o ser humano bondoso e solidário, que – de acordo com o discurso dos polainas-esotéricos – deveria surgir ao final da epidemia?     

Ontem, sexta-feira, caminhando à beira-mar, percebi um casal em sérias dificuldades.     

O mar estava estranho, virado, de repente ondas intensas faziam a altura da maré subir repentinamente.     

Num desses de repente, um senhor caiu e não conseguiu se levantar. Antes da onda, o mar não chegava ao meio das canelas dele e da esposa – ambos idosos, cerca de dez a doze anos mais velhos do que eu.     

Enquanto eu me aproximava, dezenas de pessoas passaram pelo senhor caído e pela esposa desesperada tentando impedir que se afogasse – a água lhe chegava quase à cintura e ela não possuía força para levantar o marido.     

E as pessoas passaram – homens fortes, jovens exibindo os músculos de academia, mulheres bem mais novas e bem mais fortes.     

Mas um casal de idosos em dificuldades era invisível para tanto egoísmo e falta de compromisso com o próximo.     

Aproximei-me o mais rapidamente que consegui. Pedi a ela que se acalmasse, dizendo que tudo ficaria bem, e vi que o senhor, ainda que já sem forças, e engolindo água, estava consciente. Não havia sinal de guarda-vidas na praia, embora fosse dia de sol.     

Pedi a Deus que me desse força e cuidasse da minha coluna (esta semana estive travada por conta de uma lesão antiga), porque eu não iria deixar um homem morrer, fazendo de conta que não vira o que acontecia só para não doer minhas costas.      Cheguei, acalmei a esposa, constatei que o homem estava consciente (ela disse que ele sofreu um AVC e quis, depois de tanto tempo, ir até o mar, onde a onda traiçoeira o derrubou).      Com cuidado e quase nenhuma dificuldade, colocamos o senhor de pé. Esperei que se acalmasse. Ajudei-o a se voltar para a praia, enquanto o mar abaixava bem e ele conseguiu caminhar.     

Ela chorava e não sabia como me agradecer. Ele queria agradecer. Eu disse a eles – “agora está tudo bem, fiquem com Deus e tenham cuidado quando estiverem no mar”. Ele pegou na minha mão, olhou para mim (só então eu vi seu rosto) e disse “obrigado, filha”.

Foi um choque.     

Ele não tinha idade para ser meu pai e me chamou de filha.

E eu vi em seus olhos o olhar lindo do meu pai – seus olhos eram de um raro tom de verde, como rara era a cor dos olhos do meu pai – um misto de mar com garapa.      Eu senti que meu pai olhou para mim naquele momento.     

Prossegui, chorando de emoção e de saudade do meu pai, a minha caminhada diária.     

E me perguntei: onde estão as pessoas que a peste chinesa melhorou, se ninguém se importou com um senhor que se afogava e com a esposa desesperada porque não conseguia levantá-lo sozinha, em sua fragilidade de idosa?     

Vamos, sim, sair da pandemia.

Com a mesma porcaria de humanidade que entramos.