Dia de poesia – Mia Couto – Diz meu nome

Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci

Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos

No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome

(imagem: banco de imagens Google)

Poesia casa – Casas tristes

Aquelas  casas  tristes da periferia, paredes rachadas,
Tintas descascadas, abrem suas  portas ao amanhecer
E despejam no mundo, infelizes, seus moradores, filhos da miséria
Que não têm vida, só trabalho,  e apenas sobrevivem
 
E dali saem a cada manhã, teimando em tentar viver
Meninos arredios, moças sonhadoras, mulheres sem sonhos
E homens de mãos e almas calejadas da dura lida
Cada um leva consigo uma história de desencanto

E por mais um dia lutam, batalham e esperam
Que o amanhã lhes traga finalmente a boa nova
Sem se dar conta que esse dia na verdade, não é mais um
É, na verdade, menos um que descontam no viver

E quando a noite enfim apaga o sol e  fecha o dia, 
todos ali retornam, rostos  tristes, corpos  tão cansados
buscando um abrigo, um repouso, seu descanso 
E então dormem seus sonos sem sonhos, só pesadelos.

Nessa hora as casas os recebem, na volta de mais um dia  
 Sem alarde as casas então abertas para abrigá-los, em silêncio
Docemente como grandes mães protetoras
Fecham suas portas, esperando novo amanhecer
(Sta. Gertrudes, 18.09.15)

	

Dia de poesia – Olavo Bilac – Os rios

Magoados, ao crepúsculo dormente,
Ora em rebojos galopantes, ora
Em desmaios de pena e de demora,
Rios, chorais amarguradamente,

Desejais regressar...Mas, leito em fora,
Correis... E misturais pela corrente
Um desejo e uma angústia, entre a nascente
De onde vindes, e a foz que vos devora.

Sofreis da pressa, e, a um tempo, da lembrança...
Pois no vosso clamor, que a sombra invade,
No vosso pranto, que no mar se lança,

Rios tristes! agita-se a ansiedade
De todos os que vivem de esperança,
De todos os que morrem de saudade...

(Imagem: foto de Carlos Eduardo Ferreira)

Texto de Alexandro Gruber – Quem ama também desiste

Quem ama também desiste!!!

Desiste quando percebe que não se pode amar por dois…

Desiste quando entende que onde não há reciprocidade, não vale a pena ficar…

Desiste quando compreende que só o amor não é suficiente…

É preciso comprometimento e vontade de fazer dar certo…

Quem ama também desiste!!!

Desiste depois de tanto insistir e machucar o próprio coração…

Desiste depois de cansar de lutar por alguém que não faz por merecer tanto afeto…

Desiste depois que aprende que se pra amar alguém a gente tem que se amar menos, não é amor de verdade…

Quem ama também desiste!!!

Desiste do outro, mas jamais de si…

Desiste da esperança de que algo mude, porque entende que só vivemos com a realidade e não com a ilusão de como as coisas poderiam ser…

Acredite, quem ama também desiste…

Porque chega um momento que é preferível partir, mesmo existindo amor, do que permanecer buscando sentimentos, onde só se encontram espinhos para o coração…

Quem ama sabe desistir do que dói…

Porque é válido desistir de quem machuca…

A gente só não pode desistir da gente!

(Imagem: banco de imagens Google)

Texto de Angela Caboz (Confissões de uma miúda gira) – Lembra-te de mim

Lembra-te de mim
Quando os teus braços pedirem um abraço
Quando os teus pés não derem um passo
Quando da tua boca não sair uma palavra
Quando o coração deixar de bater no compasso
Quando quiseres respirar e não tiveres espaço
Saberás então, por quem o teu corpo implora

Lembra-te de mim
Quando em ti não sobrar uma gota de saudade
Quando o sofrimento em ti se instalar
Quando começares a andar mais devagar
Quando já não te lembrares da tua idade
Quando o teu corpo sentir frio
E já não tiver ninguém para o aquecer
Saberás então, porque não corre água neste rio

Lembra-te de mim
Quando me vias sofrer lentamente
Quando não te sabia esquecer
Quando me prometias amar eternamente
Mesmo sabendo que isso não ia acontecer

Então, lembra-te de mim
Agora que vês o círculo do tempo a fechar
Agora que a glória já te abandonou
Agora que sabes com um vencedor vai acabar
Depois de ter tido tudo,
menos quem te amou

Lembra-te de mim
Como sendo aquela que enlouqueceu por amor
Mas a quem tu não soubeste amar
Lembra-te de que quem me matou não foi a dor
Mas sim, o amor que não me soube curar

Lembra-te mim
Porque te espero na última esquina da vida
Para te mostrar
que de ti, ainda não estou esquecida

Agora que o teu final está a chegar
E encontras todas as portas fechadas
Tentas falar,
mas quem é que te vai escutar?
Somente eu e o meu amor
Tudo o resto,
são agora apenas águas passadas
De quem te amou, apenas por favor…