A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –
Bebe comigo um trago quente
Maduro, frutado
De um corpo deitado
Sedento de loucura
Sente...
As notas apimentadas
E o odor almíscarado
Que o compõem
Bebe comigo, em mim...
Degusta cada gole
Desta casta delicada
Numa prova singular
Ah...meu poeta
Sacia em meu corpo tua sede
De prazer e inspiração
E eu, deleitada
Entre homem e palavra
Me deixo seduzir
Entre carícias e letras
Numa entrega rival
E despida
Me rendo a votos suados
Sussurrados em desejo
Declamados pelo chão
Nenhum gosto.
Nenhuma sensação.
Apenas a percepção do gelado.
Gole após gole
Nada despertava.
Decidiu parar.
Longamente, no último gole
Engoliu cada bocado
Buscando um passado
E, no final,
Sentiu então o gosto
Do passado distante
De um fim de gole
Na boca ausente
Que já não está
Não queria chorar.
Mas soluçou.
E sentiu as faces molhadas.
O que ali escorria
Não eram gotas.
Não eram lágrimas.
Eram apenas pontos líquidos.
A inútil tentativa de colocar
Um único ponto final.
Entre tantos que corriam em seu rosto...
A noite estava muito linda para se ficar em um quarto. Pegou seu cavalete, uma tela, suas tintas e pincéis e saiu.
Encantou-se com as cores que o entardecer trouxera e mais ainda com as estrelas que brilhavam sobre Arles.
Em uma calçada, montou a tela no cavalete, tomou emprestada uma cadeira da mesinha de um café ainda aberto, e começou a pintar.
Pintou as casas com as cores que a luz da rua projetava sobre as fachadas.
Pintou as janelas contra-iluminadas por lâmpadas artificiais.
As pedras das ruas em seus diferentes tons.
E então, olhou para cima, e pintou o céu, as estrelas e a noite.
Não usou tinta preta, porque não via a noite negra.
Pintou os azuis que o anoitecer deixara no céu.
Pintou as estrelas que piscavam louca e alegremente em todo o firmamento.
E nunca mais pensou em pintar uma noite com tinta preta, porque entendeu o que enxergava, e que, na verdade, o azul permanecia no céu depois do anoitecer. Bastava ter a memória do dia e os olhos de artista.
(Imagem: Terrasse du café sur la Place du Fórum à Arles, le soir – pintura de Vincent van Gogh, 1888, banco de imagens Google)
A meus caros leitores e seguidores: vou iniciar nesta data uma nova coluna neste blog: “Foi Poeta, sonhou e amou na vida”. Onde será publicada uma breve biografia de poetas brasileiros e estrangeiros, e ainda um poema de sua autoria. Para maior divulgação da vida e da obra dos poetas. Cultura nunca é demais…
Começarei com o autor da citação que nomeia a coluna, “o poeta da dúvida”, o brasileiro
Álvares Azevedo
(Foto de Mônica Yamagawa)
(Texto de Dilva Frazão, Biblioteconomista e professora)
Biografia
Álvares de Azevedo (1831-1852) foi um poeta, escritor e contista, da Segunda Geração Romântica brasileira. Suas poesias retratam o seu mundo interior. É conhecido como “o poeta da dúvida”.
Faz parte dos poetas que deixaram em segundo plano, os temas nacionalistas e indianistas, usados na Primeira Geração Romântica, e mergulha fundo em seu mundo interior. É Patrono da cadeira n.º 2, da Academia Brasileira de Letras.
Infância e Juventude
Manuel Antônio Álvares de Azevedo nasceu em São Paulo no dia 12 de setembro de 1831. Era filho do Doutor Inácio Manuel Alvares de Azevedo e Dona Luísa Azevedo. Aos dois anos de idade, junto com sua família, muda-se para o Rio de Janeiro.
Em 1836 morre seu irmão mais novo, fato que o deixou bastante abalado. Foi aluno brilhante, estudou no colégio do professor Stoll, onde era constantemente elogiado. Em 1845 ingressou no Colégio Pedro II.
Em 1848, Álvares de Azevedo voltou para São Paulo e iniciou o curso de Direito na Faculdade do Largo de São Francisco, onde passou a conviver com vários escritores românticos.
Nessa época fundou a revista da Sociedade Ensaio Filosófico Paulistano, traduziu a obra Parisina, de Byron e o quinto ato de Otelo, de Shakespeare, entre outros trabalhos.
Álvares de Azevedo vivia em meio aos livros da faculdade e se dedicava a escrever suas poesias. Toda sua obra poética foi escrita durante os quatro anos que cursou a faculdade. O sentimento de solidão e tristeza, refletidos em seus poemas, era de fato a saudade da família, que ficara no Rio de Janeiro.
Morte
Em 1852, Álvares de Azevedo adoece e abandona a faculdade, um ano antes de completar o curso de Direito. Vitimado por uma tuberculose e sofrendo com um tumor, Álvares de Azevedo é operado, mas não resiste.
Álvares de Azevedo faleceu no dia 25 de abril de 1852, com apenas 20 anos de idade.
Lembranças de morrer
Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro,
- Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;
Como o desterro de minh’alma errante,
Onde fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade - é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.
Só levo uma saudade - é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas.
De ti, ó minha mãe, pobre coitada,
Que por minha tristeza te definhas!
Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei. que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!
Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta deste flores.
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.
Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo.
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!
Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Foi poeta - sonhou - e amou na vida.