Vida vazia

Lentamente foi juntando seus pertences – tão pouca coisa – e colocando tudo na sacola puída.

Esta estatueta, por exemplo. Quantas recordações… A voz da mãe:

– “cuidado, não jogue bola na sala, vai quebrar minha estatueta…”

A pequena estátua – a única riqueza, o único enfeite da pobre sala…

E a bola passava rente, até que era raivosamente atirada por um adulto através da janela do quintal. E o jeito era ir para o quintal. O quintal…

Dois pés de laranja, dois canteiros de temperos, alface e cenoura, um grande abacateiro. Ao fundo, o pequeno pé de caju que nunca deu nada. Só companhia.

Em sua infância tão solitária nunca lhe faltara a companhia e o carinho do pé de caju – acolhedor, jeitoso, bom de subir e de sumir entre seus galhos.

De lá fitava o futuro que um dia viria… Seria grande, com poder e muito dinheiro. Quebraria com a bola quantos vidros, vidraças e estatuetas quisesse. Talvez até uns vasos de cristal, quem sabe…

Nos olhos de todos haveria respeito, admiração e, principalmente, temor. Queria impor ao mundo o medo que sentia de viver, de existir. O medo das terríveis surras de relho, que tanto machucavam sua carne tenra.

Medo do terrível escuro do quarto frio, das noites imensas com seus barulhos horríveis.

Também o medo da fome, que ia e vinha ciclicamente como ondas do mar, na alternância entre o emprego e o desemprego dos adultos.

Esse dia chegaria, ah, se chegaria… Podia imaginar cada dia de seu futuro, cada situação como se visse as figuras em um livro – como aqueles da sacristia da igreja, enormes e pesados.

Começou então a viver esperando esse dia chegar.

E seu futuro foi chegando de mansinho – chegou o dia de descer do cajueiro e nunca mais subir – era um pouco grande para a árvore de pequeno porte.

Assim chegou o dia de não ir mais ao quintal, de não levar mais surras, de não jogar mais bola.

E não teve mais quintal, não houve mais surras e nem jogo de bola.

Finalmente era adulto. 

Só não superou o medo do escuro do quarto e dos barulhos noturnos.

Esperava o dia, o grande dia em que amanheceria grande, com poder e riqueza. E o futuro chegou, e o futuro passou…

E continuou no passado, sem viver o presente, esperando o futuro, carregando consigo a  pequena estátua envolta em dois lenços de algodão, um pouco de roupa, umas imagens de santos, uns papéis amarelecidos, tudo cabendo na velha sacola, que carregava de asilo em asilo (até na prisão a levara).

Agora, era hora de sair dali também. Fechou a sacola e foi para um banco da praça, onde ficou, no presente sem emoções, sonhando com o passado que se fora morno, enquanto continuava a esperar o glorioso futuro.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s