Brumadinho – 01 ano -homenagem da poetisa Márcia Etelli Coelho

Hoje seria dia de fazer, aqui, uma homenagem a São Paulo. Cidade em que nasci. Minha terra natal. Lugar que amo acima de todos os outros em que já morei ou já estive. Meu velho porto seguro. Onde me sinto em casa.

Mas, recordando que há exato um ano a tragédia do inferno dantesco se abateu sobre Brumadinho-MG, mudei de ideia. E, nesta tarde, li a tocante poesia de minha amiga e poetisa Marcia. Então trago uma homenagem às vítimas e aos sobreviventes do horror que, quase sem acreditar em nossos olhos, vimos ao vivo e em cores. Cena terrível.

Brumadinho, nome que deriva de brumado, vem de bruma – névoa, enevoado. Mas nunca de lama nem de enlameado.

Mais que uma tragédia, um crime. Contra os funcionários da barragem e os moradores. Contra o meio ambiente. Contra o Estado de Minas Gerais e o Brasil. Aviltante. Dispor-se dessa forma de vidas humanas em vista do lucro é abjeto.

 

 

BRUMADINHO

Repouse seu corpo em meus braços e ouça

o rio de lama a correr sem aviso,

rompendo barragens, furor displicente,

abrindo o chão, arrastando abrigos,

rejeitando o futuro, abolindo o presente.

Ouça o rude trincar de mil casas,

ceifando as sementes de todo jardim.

Ouça o choro dos anjos sem asas

que nem perceberam que ali era o fim.

Ouça os últimos suspiros de vida,

tão dentro da terra, tão longe dos seus.

Ouça os gritos soltos de quem alucina.

Sequer houve tempo de orar pro seu Deus.

Ouça o lamento do céu que previa

a dor de quem perde e não encontra mais.

Ouça a tristeza das almas perdidas,

voando e deixando seus sonhos pra trás.

(Márcia Etelli Coelho)