Vídeo – Menina dos olhos tristes – José Afonso

Em razão da tensão política internacional, lembrei-me dessa triste canção, então inovo aqui postando um vídeo. No final, depoimento da mãe de “um soldadinho”. Abaixo, a letra da canção:

Menina dos olhos tristes
O que tanto a faz chorar
O soldadinho não volta
Do outro lado do mar

Vamos senhor pensativo
Olhe o cachimbo a apagar
O soldadinho não volta
Do outro lado do mar

Senhora de olhos cansados
Porque a fatiga o tear
O soldadinho não volta
Do outro lado do mar

Anda bem triste um amigo
Uma carta o fez chorar
O soldadinho não volta
Do outro lado do mar

A lua que é viajante
É que nos pode informar
O soldadinho já volta
Do outro lado do mar

O soldadinho já volta
Está quase mesmo a chegar
Vem numa caixa de pinho
Desta vez o soldadinho
Nunca mais se faz ao mar

 

Decisão

A esposa perguntou se ele queria conversar. Ele disse que não. Estava muito calado, sem apetite. Ela o conhecia o suficiente para saber que ele estava prestes a tomar alguma decisão muito importante e por isso estava tenso e angustiado. Afastou-se e o deixou imerso em seus pensamentos.

Sentia-se muito só. O Poder isola as pessoas. E agora precisava tomar uma decisão terrível, era a hora mais solitária de sua existência.

Abriu a pasta que estava sobre a mesa e leu, pela milésima vez, uma carta que quase já sabia de cor, recebida há algumas semanas, enviada por um militar reformado que fora seu superior. Foi direto ao trecho que havia destacado: “Não falo como soldado. Nem como seu antigo superior. Fomos amigos, servimos juntos, estivemos lado a lado em uma guerra onde lutamos pelo nosso país e nosso povo antes mesmo de lutar por nossa própria vida. Nem como um pai dilacerado pela perda de um filho. Meu filho era soldado, morreu pela Pátria, o que honra sua morte, e alguém já disse que quem morre servindo à Pátria não morre, mas a ela se funde, não me lembro quem, está difícil organizar os pensamentos nesse momento de luto, vendo a dor de minha esposa e meus outros filhos. Mas falo como cidadão, como patriota: O que mais precisa acontecer para você entender onde estão nossos inimigos? Que a hesitação no Poder pode custar muito mais vidas inocentes do que a decisão rápida e adequada?…”

Sentiu uma dor profunda, pensou em sua própria esposa e nos filhos. Nunca fora de hesitar nem tivera medo de tomar decisões e arcar com as consequências.

Leu alguns relatórios. Pensou durante algum tempo. Voltou ao trecho da carta e finalmente decidiu. Pegou o telefone e apertou o número da linha direta. Ao ser atendido, disse simplesmente “Ordem concedida. Podem atacar!”…