Sentimentos

Todo o nosso saber começa nos sentimentos. (Leonardo da Vinci)

Numa bela tarde, os sentimentos passeavam pelo parque da casa da Imaginação, em uma comemoração em homenagem à Beleza, esperando começar a festa.

À beira do lago, numa sombra, a Esperança conversava com a Satisfação, a Lucidez e a Culpa, debatendo as razões dos males dos seres humanos.

O Desejo vagueava por todos os cantos, porque ainda não encontrara a homenageada e queria abraçá-la, antes que a Tristeza chegasse e estragasse a festa, como sempre fazia, sentindo-se muito solitário sem a companhia do Egoísmo, que não viera.

A Indecisão, a Vergonha e a Timidez preferiram ficar em um canto sombrio, afastadas, de onde podiam ver tudo que acontecia na festa, mas ninguém as via e, assim, sentiam-se melhor. A Melancolia passeava, suspirando e gemendo pelas sombras das árvores, bem longe da festiva comemoração.

Na varanda, despreocupadamente, a Felicidade, a Amizade, o Prazer e a Ambição jogavam cartas, em grande algazarra, pois eram muito amigos e unidos; sempre que se encontravam faziam uma festa quase particular.

Eram inevitáveis algumas discussões, como acontece quando muitos se reúnem. O Ódio e a Alegria discutiam acirradamente, cada um tentando vencer os argumentos do outro sobre a razão da homenagem à Beleza. O Ódio não concordava com a Imaginação festejar a existência da Beleza e não o fazer pela Maldade, sua melhor amiga e que nunca recebia homenagens.

Em um canto, discretamente, a Fé conversava com o Desespero, dando-lhe alento para enfrentar seus problemas e seguir a vida de forma mais leve.

A Imaginação andava entre as alamedas floridas, entre o Medo e a Loucura, seus companheiros de vida, e, aflita, via o tempo passar; ainda faltavam convidados que deveriam chegar antes da Beleza e de seu namorado, conforme combinaram.

Aos poucos, foram chegando os últimos convidados: o Orgulho, sempre arrogante, olhava todos de cima para baixo, como sempre acompanhado de seus amigos, Desprezo e Inveja.

Discreta, sem alarde, quase sem ser vista, chegou a Solidão; ficou num canto, aguardando o amigo Amor, que ainda não viera. Parecia ainda mais solitária sem ele.

De repente, em grande estilo e com muito barulho, veio a Ira, que gosta de aparecer. Chegava sempre mais tarde para que todos notassem sua entrada, bem espalhafatosa e nem sempre condizente com o local.

Súbito, o Amor, muito machucado, quase morto, apareceu na festa; o Desvelo e a Razão correram a seu encontro para tentar ajudar em alguma coisa. Nem notaram o constrangimento da Paixão ao vê-lo tão abatido por sua causa e, antes que alguém pudesse se dar conta do que acontecia, pois esperavam que ele viesse junto com a homenageada, sua eleita, sem nada entender, assistiram quando finalmente chegou a Beleza, de braços dados com o Ciúme.

Mais tarde, bem mais tarde, quando a festa já se acabava, e o Amor chorava suas mágoas no ombro da Angústia, finalmente apareceu a última convidada, para lhes fazer companhia. Aquela que sempre vinha depois: a Saudade.

(10.03.2009)