Velhos carnavais

Mas é carnaval, não me diga mais quem é você
Amanhã tudo volta ao normal
Deixa a festa acabar, deixa o barco correr, deixa o dia raiar
Que hoje eu sou da maneira que você me quer
O que você pedir eu lhe dou
Seja você quem for, seja o que Deus quiser (Chico Buarque)

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Como eram bonitas as músicas que surgiam na época do carnaval, ou relativas ao carnaval, como essa “Noite dos Mascarados” da qual tirei as frases acima…

Não, não é saudosismo besta, coisa de velho, não… é constatação mesmo, pura e simples. Por mais incrível que possa parecer, um dia, há muito tempo, no milênio passado, já gostei de bailes de carnaval.

Os mais velhos realmente sentem saudade dos antigos carnavais, e vocês sabem por que os mais novos não o sentem? porque não conheceram aqueles carnavais…

Não existia o slogan “USE CAMISINHA”. Não era preciso, carnaval não era pornografia explícita nem orgia ou bacanal, ao menos para a esmagadora maioria da sociedade.

Ninguém falava o irritante “BEBA COM MODERAÇÃO”. Cada um bebia o quanto queria e ninguém ficava regulando o copo alheio.

E o que se vê, hoje, é bandalheira, inúmeras gravidezes indesejáveis que se seguem ao carnaval, diversos atendimentos de coma alcóolico ou overdose, não obstante essas besteira desses slogam idiotas.

Havia os bailes – grandes bandas, com muitos metais, som espetacular. Tocavam as marchas-rancho, marchinhas carnavalescas, músicas até mesmo de letras maliciosas, que hoje seriam conversa de crianças de maternal.

E todos dançavam – surpreendentemente vestidos – não era preciso ficar nu por ser carnaval, não era açougue bom onde toda carne fica à mostra. Globelesma? Nem pensar…

Havia o desfile de rua – as escolas de samba, sem tanta ostentação, exibição corporal, nada disso – e era um acessório do carnaval, porque o principal não era ir ver alguém passar – carnaval era feito para todos dançarem – no salão, na quadra, na praça, onde uma banda se dispusesse a tocar o povo dançava.

E aí está a grande diferença: não era aula de aeróbica, onde dois ou três macacos e/ou macacas ficam em um palco fazendo gestos para o povo lá do chão imitar, macaquitos que são.

Nos salões havia concurso de fantasia – luxo e originalidade. Luxo era sempre igual, parecia que só trocavam as cores, não tinha graça, mas originalidade era notável – todos se perguntavam como podia alguém ter tanta imaginação para exibir aqueles trajes, realmente originais. O prêmio nem era lá essas coisa, às vezes apenas o troféu, taça comprada em lojas populares. Mas era tudo muito divertido. Muita serpentina cortando o salão, muito confete fazendo chuvas coloridas (confete… pedacinhos coloridos de saudade… como dizia uma antiga marchinha) e lança-perfume, que era permitido, antes de se viver nesse pesadelo de drogas pesadas acuando a juventude.

E na quarta-feira de cinzas, logo cedo, todos na missa para receber as cinzas… fazia parte do carnaval. Missa, gente, missa para encerrar o carnaval! (não considerávamos que era o início do período da quaresma, mas sim o encerramento do carnaval que se fora).

Inevitável a nostalgia nesta época, em que nada lembra que é carnaval.

Baile no salão? nem pensar – é só briga e violência. E não tem música de carnaval – põem uma bandinha de rock de esquina para tocar axé e funk e pensam que isso é baile de carnaval…

Então constato que o carnaval morreu. E me permito, sem me sentir tão velha, sentir falta de um verdadeiro baile de carnaval, para ir e dançar a noite toda, e, pasmem – QUATRO NOITES SEGUIDAS MAIS UMA NA SEMANA ANTERIOR (que era o chamado Grito de Carnaval), sem presenciar a porcariada que hoje se vê…

Não sei se passei eu ou passou o tempo dos carnavais…

Tudo está tão diferente que é difícil até mesmo chamar de carnaval essa confusão que se vê.

Mas o carnaval existe. E pessoas que adoram esse tempo. Como diz minha irmã, “cada um com seu cada qual”.

Para que não digam que só falo mal dessa baderna, trago aqui um texto do – para mim insuperável – grande Poetinha:

Acabou nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas foi o que restou

Pelas ruas o que se vê
É uma gente que nem se vê
Que nem se sorri
Se beija e se abraça
E sai caminhando
Dançando e cantando cantigas de amor

E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade

A tristeza que a gente tem
Qualquer dia vai se acabar
Todos vão sorrir
Voltou a esperança
É o povo que dança
Contente da vida, feliz a cantar
Porque são tantas coisas azuis
E há tão grandes promessas de luz
Tanto amor para amar de que a gente nem sabe

Quem me dera viver pra ver
E brincar outros carnavais
Com a beleza dos velhos carnavais
Que marchas tão lindas
E o povo cantando seu canto de paz
Seu canto de paz

(Marcha da Quarta-feira de Cinzas) 

 

 

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