Carnaval, de novo

Sou – assumidamente – um bicho do mato. Embora seja essencialmente urbana e não seja tímida, não tenha dificuldade para falar em público, já estive em palcos por inúmeras vezes. Sem nenhum problema.

Talvez eu seja um bicho do mato de outra espécie, então. Pode ser.

Acho que me tornei assim por tédio. Os seres humanos, na sua grande maioria, me irritam. Não despertam minha atenção. Em geral têm uma conversa idiota e fútil. Não interpretam silêncios. Têm necessidade de movimento e barulho.

Eu sou mais contemplativa – detesto bagunça, movimento e qualquer barulho. Troco tudo por ouvir uma música – MÚSICA – e não funk, axé e outros ruídos populares, em um local de penumbra. Ou ler um bom livro – LIVRO – nem auto ajuda nem autor da moda.

Aquelas horríveis festinhas de confraternização de fim de ano me apavoram. O clima de Natal e Réveillon me deixam transtornada. Gosto de ficar sozinha nessas datas, sem ter de fingir uma alegria que não existe.

E, pior que tudo, é enfrentar carnaval. Pelos cabelos da Rapunzel!!!! Que coisa mais idiota que é esse tal de carnaval.

Um terço da população gasta o que não tem nem para pôr comida em casa, para “aproveitar” o carnaval. Desde comprar ingressos – CARÍSSIMOS – para ir ver um bando de gente se sacudindo na rua, tudo se repetindo infinitamente, ano após ano, com uma insuportável música de fundo – aqueles horrorosos sambas-enredos – tornando tudo uma massa amorfa e desinteressante.

Outros gastam para estarem nesse meio da rua e se sacudir, procurando seu momento de glória. Exibem-se em brilhos falsos, plumas e paetês, quando se sentem reis, rainhas e nobres. Depois voltam, como trapos usados, para suas tristes enxergas, onde passarão as outras 364 noites do ano lutando para sobreviver.

Outro terço da população se divide em enfrentar infindáveis filas – para descer a serra rumo a alguma praia, para abastecer o carro, para usar o banheiro público, para comprar alimentos – e acha que vale a pena “viajar no carnaval” e naqueles que viajam para aproveitar o carnaval, em lugares onde multidões se acotovelam nas ruas, suando, fedendo, se ralando e se roçando, fazendo de conta que a maior alegria da vida é pular na rua, em ridículos movimentos, até a exaustão física.

E sobra o último terço da população – que se divide entre aqueles que ignoram o carnaval, tocam sua vida normalmente, e, por ser feriado, aproveitam para ficar em casa, ler, descansar, convivendo com a família e, finalmente, o último grupo é dos espertos – aqueles que lucram – e muito – com a insanidade geral chamada carnaval – hospedagem, abadás, trajes, bebidas, drogas ilícitas etc.

Resumindo – eu detesto carnaval. E tudo que a ele se relaciona – músicas, multidões, alegria fingida, bebedeiras, brigas, assédios. Por isso fico longe. O mais que posso e consigo. Minha vida de bicho do mato é mais rica e divertida do que de pessoas que necessitam estar no meio de bandos para se sentirem vivas.

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