Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já…
Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida…
Saudade é sentir que existe o que não existe mais…
Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam…
Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.
E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.
O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.
Mês: setembro 2020
Ventos do pensamento
A tragédia da velhice não está em se ser velho, mas sim em se ter sido jovem.
(Oscar Wilde)
A tela continua branca, depois de uns dez minutos que aqui estou. Se escrevesse à moda antiga diria que a folha continua branca. Os pensamentos voam, não necessariamente junto com o tempo.
Porque o tempo voa de forma ordenada, com a lógica cronológica.. Os pensamentos, pelo contrario, voam desordenadamente, vão, voltam, somem, outros surgem, como papéis soltos em uma ventania.
É exatamente isso: uma ventania.
Acho que mais que uma ventania minha mente enfrenta um tornado, um furacão.
E assim fica difícil agarrar um único pensamento, laçá-lo como se fosse um cavalo selvagem, domá-lo para finalmente o expor.
Nenhuma ideia passa perto o suficiente para ser então apreendida.
São sensações dos novos tempos, da vida moderna.
Recebemos simultaneamente milhares de informações, não temos tempo hábil para processá-las. Nossa memória superficial não recebe a faxina necessária para separar o que não precisa ser guardado e se livrar disso e enviar para a memória profunda tudo o que precisa ser arquivado.
Usamos melhor nosso computador do que nosso cérebro, ignorando que o computador é burro, sem nosso cérebro ele nada vale.
Enquanto estou aqui escrevendo minha mente vagueia por preocupações, serviços por fazer, tarefas não cumpridas, montando mirabolantes agendas inexequíveis, indagando se acharam o avião que sumiu no mar, se vai fazer frio no final de semana, preciso ir ao supermercado, quero acabar um colete de tricô para usar ainda neste inverno…
Para viver de acordo com este tempo tão curto levantamos cada dia mais cedo, vamos dormir mais tarde, e nem por isso o tempo rende mais.
E nesse roldão envelhecemos sem perceber. Por vezes um acontecimento extra nos tira dessa confusão e nos damos conta de quanto tempo passou desde a última vez que saímos para dançar; visitamos uma querida prima idosa; fomos caminhar lentamente sábado à tarde à beira-mar tomando um sorvete de casquinha, ou simplesmente saímos para dirigir pelo puro prazer de dirigir, ou de moto só para pilotar, indo a lugares próximos, pitorescos, para encontrar um grupo de amigos também em passeio sem nenhum propósito que não seja passear, numa demonstração explícita e assumida de deixar o tempo passar. São singelos prazeres que já não nos permitimos, porque não podemos perder tempo.
O tempo não nos pertence, não está em nossa posse, por isso não podemos perdê-lo.
O tempo pertence ao tempo, e não passa, apenas gira. Nós é que passamos.
E com toda nossa pressa, com toda nossa eficiência, passaremos, e o tempo, brincalhão e gozador, continuará girando indefinidamente em redor dos homens que tentam inutilmente segurá-lo.
Momentos
Toda manhã na África uma gazela acorda. Ela sabe que terá que correr mais que o leão ou será alcançada e devorada por ele.
Todo amanhecer, na África, um leão acorda. Ele sabe que terá que ser mais rápido do que a gazela para alcançá-la ou morrerá de fome.
Não importa se se é leão ou gazela. Quando o sol nascer, é melhor começar a correr.

Há certos momentos na vida que recomendam o mais completo recolhimento: de alma, de palavra, de imagem…
Momentos em que devemos meditar, calar e ficar reclusos em casa, sem nos expormos em nenhum sentido.
São momentos em que sentimos todas as portas fechadas, todas as pessoas hostis, todas as conjunturas dos astros contra nós.
Esses momentos são inevitáveis, passamos por eles incontáveis vezes na caminhada por esta vida. Seja quando o amor acaba, o casamento desaba, o emprego desaparece, a promoção vai para o colega, a amizade se desvanece no ar.
Pensamos morrer, temos certeza que desta vez não sobreviveremos. Porém, do fundo do ser, de algum lugar invisível e intocável, surge a força, e enxergamos a corda que nos tirará do poço, e ao olharmos para cima, há a luz.
A divina luz da esperança, pequena, do tamanho da boca do poço enquanto estamos no fundo, mas que crescerá à medida que conseguirmos subir para sair de lá. De algum modo conseguiremos forças e sairemos. Sairemos pelo nosso próprio esforço, porque não existe nenhuma mola no fundo do poço que nos jogará para cima. Mas também o fundo do poço não é túmulo e não teremos de ficar lá por toda a eternidade se não quisermos.
E, de repente, já aqui fora, estamos fortes, lutando de novo, caindo, levantando, e isso é que, na verdade, é viver.
Voltar a que vida?

Não se preocupava com a temperatura da água do chuveiro correndo em seu corpo. A melhor hora do dia era essa – a hora do banho.
Desde que suas lágrimas secaram, sentia um prazer mórbido em ver a água correndo por sua pele e imaginar que seu corpo inteiro chorava, que depois que os olhos deixaram de chorar e as lágrimas dos olhos não correram mais pelas faces, essas gotas que a percorriam por inteiro eram o pranto do corpo. Da mente. Da vida. Pelo passado. Pela falta de futuro.
Também não importava se água quente ou banho longo poderiam fazer mal à pele ou aos cabelos. Há muito evitava se olhar no espelho. E, quando o fazia era rapidamente. Porque não gostava do que via.
A imagem não correspondia à pessoa. Não era porque aquela imagem não lhe pertencesse. Mas exatamente o contrário: ela que não pertencia àquela imagem. O que o espelho cristalizava e lhe devolvia simplesmente não era ela.
Sua vida mudou radicalmente há uma década. Não se reconhecia mais. Nem a si, nem ao mundo ao redor de si.
Era começo de 2020. Um ano depois de terminar a faculdade, conseguira a sonhada bolsa para pós no exterior. O noivo batalhou e conseguiu um estágio junto. Então se casaram, em cerimônia simples, deixando a festa de comemoração para daí dois anos, quando regressariam. Felizes, cheios de ilusão, foram para a Espanha.
Ocupados em se organizarem com relação à nova casa, nova pátria, não perceberam o que acontecia no mundo. Todos falavam em epidemia, pandemia, mas não entendiam o que seria aquilo.
Até o marido ser internado às pressas. E morrer em três dias. Desesperada, ela soube que na família várias pessoas também estavam doentes. Não podia voltar. Ninguém podia ir. Despediu-se da vida quando se despediu do marido. Entrou em casa, e ficou em isolamento por meses. A faculdade estava fechada. Não havia curso. Não havia emprego nem dinheiro. O desespero era total.
Finalmente conseguiu voltar ao Brasil.
Embora passados apenas alguns meses, voltou para outro mundo. Voltou viúva. E se viu órfã. Um dos irmãos também morrera.
A família estava destroçada. Todos desempregados. Empresas fechadas.
Todo seu futuro havia sido enterrado com seus familiares e outras vítimas.
A peste avançava inclemente, de braços dados com a morte e a miséria.
Continuou isolada na casa que um dia fora viva e abrigara uma família feliz.
Um dia, meses depois, avisaram que o risco de contaminação estava controlado, e todos podiam voltar à vida normal.
Nunca soube se alguém voltou.
Não havia como nem para onde voltar. Continuou em casa, foi, aos poucos, se afastando de si mesma, e não sabia em que momento perdera sua própria vida.
Tinha certeza que não estava mais viva. Apenas pairava no silêncio e na tristeza que ficaram depois da peste.
Sonhava acordada em poder fazer o tempo voltar. Aos dias alegres de sua juventude, à despreocupação dos anos de faculdade. Voltar à vida. Celebrar a formatura no exterior e o casamento em uma mesma festa. Nada disso aconteceu. Onde ficou sua vida? Porque o que lhe devolveram depois do isolamento nunca mais foi vida.
E se perdeu de si. Não se via no espelho – não era aquela mulher esquisita, de olhos fundos e tristes. Não se encontrava em nenhuma atividade – não havia prazer em nada.
Nunca mais chorou. Esgotara sua capacidade de chorar.
Fechou o chuveiro, enrolou-se no roupão, e foi tentar dormir. Quem sabe acordaria em outro mundo…
Templo sagrado
Quando chegar e quiser entrar
Nesse templo que é tão sagrado,
Primeiro acalme seus pensamentos,
Controle sua respiração,
Vista a alma de muita paz e
Pense que pisará neste solo
Onde poucos já pisaram.
Tire os calçados e a vaidade,
Entre sozinho, em paz total.
Não olhe as paredes ao redor
Nem pergunte quem lá já esteve,
Apenas entre. Como em prece
Saudando quem hoje ali habita
Sinta-se acolhido no amor;
Respire ali toda a ternura,
Toda essa profunda emoção.
Deixe todo o peso de fora,
Amargura e insatisfação.
Entre com olhos de amante,
Coração leve, passos calmos.
Não se apresse nem o afobe:
Ele tem seu próprio ritmo.
Pode chorar toda sua dor
Porque nunca mais ela doerá.
Solte-se, relaxe as defesas.
Ali você estará seguro
Como em nenhum outro lugar,
E ouvirá em benção: “bem-vindo”.
Entre, se aconchegue e fique aqui
Você estará neste templo sagrado
Dentro do peito onde é tão amado
Aqui é o meu coração:
A sua nova morada.
Poesia cantada – Cordas de espinho
Geada vestiu de noiva
Os galhos da pitangueira
Ainda caso com Rosa
Caso ela queira, ou não queira
Pra domar o meu destino
Comprei um buçal de prata
Nenhum pesar me derruba
Qualquer paixão me arrebata
Acordoei minha viola
Com seis cordas de espinho
Meu canto tem cor de sangue
Teu beijo, gosto de vinho
Fui aprender minha milonga
Na água clara da fonte
O canto do quero-quero
Mais que um aviso, é uma ponte
Acordoei minha viola
Com seis cordas de espinho
Meu canto tem cor de sangue
Teu beijo, gosto de vinho
Fui aprender minha milonga
Na água clara da fonte
O canto do quero-quero
Mais que um aviso, é uma ponte
O canto do quero-quero
Mais que um aviso, é uma ponte
O canto do quero-quero
Mais que um aviso, é uma ponte
(Luiz De Martino Coronel / Marco Aurélio Vasconcellos)