de esperança

Esperança – sustento dos sonhos, alimento da alma.

Muitas vezes é o único fio que ainda nos prende à vida.

Feita da mesma matéria da espuma do mar e das nuvens, é o mais tenaz dos sentimentos. Resiste. Sua missão, tão difícil, é assoprar continuamente as brasas da existência que ainda restam sob as cinzas das desilusões.

A cargo da esperança está nossa vontade de viver, de lutar, de seguir adiante. Ou já teríamos desistido de tudo.

Um único ponto de luz no nosso futuro é exatamente uma estrelinha brilhante que a esperança ali colocou. Para nos manter vivos.

E vamos em busca de alcançar essa estrelinha, que se afasta sempre que nos aproximamos. Mas a esperança, atenta, não nos deixa esmorecer.

E continuamos.

Mas, às vezes, a esperança se distrai, e desabamos.

Porque viver só de esperança é desanimador.

E isso faz lembrar uma velha trova “espero… pobre esperança / que já me resta tão pouca; / esperança também cansa / e às vezes amarga a boca”.

Não-viver

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Tempos estranhos. Um eterno “déjà vu”. Tudo se repete na maior monotonia, como se eu fosse ponteiros de um relógio, condenados a rodar eternamente em torno de um mesmo mostrador.

Mas um “déjà vu” negativo. Uma monotonia destruidora de almas.

Não é sobre ficar em casa.

Porque é uma bênção ter uma casa para ficar.

Mas sobre a compulsoriedade. Sobre a proibição. Sobre a limitação de minha liberdade individual, meu direito de sair. De viajar.

Não é sobre isolamento social.

Porque nunca fui muito sociável.

Sempre vivi bastante sozinha.

Mas sobre estar impedida de me reunir com as poucas pessoas cuja companhia me agradam.

Não é sobre portar máscara.

Acho até bonitas as máscaras do carnaval veneziano.

Cheguei a usar máscaras em carnavais.

Mas nos olhos. Não impedindo as pessoas de sorrirem umas para as outras.

Não é sobre a doença que está acontecendo.

Porque todos, mais cedo ou mais tarde, adoecemos e morremos.

Assim é nosso ciclo vital.

Mas sobre já estarmos mortos, enterrados, isolados, violentados em nossas liberdades civis. Estamos morrendo de tanto medo de morrer.

Não é sobre o governador ter ou não competência para editar esses atos.

Até agora isso não foi questionado.

Nem sobre a necessidade de tantas restrições.

Mas da passividade bovina do povo em aceitar tudo isso, permitir esse abuso. E, de joelhos, beijando as mãos e agradecendo aos carrascos, acreditando que isso tudo é “para seu bem”.

Folhas mortas

Les feuilles mortes ne se ramassent pas…

Outono: quando começa e características principais

Essa frase tem uma sonoridade outonal fabulosa – como se fosse um início de depressão, uma nostalgia infinda, um toque sutil de um sofrimento indefinido.

No entanto, nada mais é que uma constatação da natureza, observação de agrônomo: Não se ajuntam as folhas mortas.

E por que?

Porque muitas folhas, quando caem e forram o chão passam a exercer papel importante no enriquecimento do substrato local, por isso devem ser deixadas ali, onde tombam, ainda que os ventos carreguem parte delas. Mas as que ficam, estas não devem ser juntadas. Isso foi tirado de um artigo publicado por Alain Lompech no Le Monde, que dizia: “Les hibiscus mauves perdent déjà leurs feuilles qui s’amoncellent sur la pelouse. La tondeuse les ramassera. Mais celles qui tombent ao pied de cet arbuste resteront là où elles sont. Elles se décomposeront su place et enrichiront la terre en surface. Em attendant, elles sont d’um bien beau jaune. …. Elles protégeront du froid les Begonia evansiana qui poussent ao pied de la glycine. …

É a poesia da natureza por si mesma: as folhas caem porque é outono. Forram o chão cobrindo a terra. Que prazer caminhar sobre folhas mortas, seu som, seu cheiro…

O vento as leva, as ajunta, mas arbustos prendem algumas e as seguram a seus pés. E essas lhe servirão de cobertor, protegerão do frio intenso. E se decomporão no local, enriquecendo a terra que as acolheu.

E assim tudo se renova.

E nós, o que fazemos quando chegamos ao outono de nossa vida? Caímos, porque o inverno da velhice não perdoa os que sobrevivem…

E somos varridos e ajuntados ou servimos de proteção, fonte de calor e nutrientes para aqueles que vêm depois de nós?

A escolha depende de cada um, não quando chega ao outono pessoal, mas na construção de sua vida.

Há pessoas que seguramos conosco, queremos que continuem ali, como guias, fonte de amor, de calor. Outras preferimos que as tempestades varram e ajuntem bem longe de nós.

Temos que tentar ser para os outros – arbustos novos que vêm depois, nosso futuro – as folhas a serem agarradas, valorizadas e não o lixo que é levado pela tempestade da vida.

E temos também que agarrar e segurar junto de nós as folhas das quais dependemos para ter um pouco de calor quando nosso inverno chegar, reconhecer e valorizar essas folhas tombadas de rara beleza em seu amarelo de outono. (14/10/08)

A morada do poeta

Alma ou poeta: O blog
Poeta, onde é sua morada? 
Quero encontrá-lo, ver onde vive, 
do que é feito seu mundo. 
O poeta me recebe, mas não é bem 
uma casa onde ele mora.
Sua morada é no mundo, seu telhado é o céu
De dia ele avista as nuvens, 
à noite dialoga com as estrelas
Também não tem paredes, 
porque o poeta é livre
Seus limites são os limites do Universo
Não precisa portas nem janelas,
não há cercas nem muros
O chão do poeta é o imenso oceano
Pisa nas espumas das ondas, repousa nas marolas
Os vizinhos do poeta são as matas, os rios,
A natureza tranquila e exuberante
Na casa do poeta se ouvem o mar, o vento e o silêncio
Porque o poeta medita, em profunda solidão, 
 vive dentro de si para conseguir ver o mundo
Procurando a morada do poeta, não a vi
Ela não está sobre a terra, não está no horizonte
Descobri então que o poeta, na verdade
Mora nas lágrimas dos que choram de amor
 Dos que sofrem pelas dores dos humanos
De todos que são amados de verdade
A morada do poeta é a alegria das crianças
A saudade dos idosos, a tristeza de tantos irmãos
A morada do poeta são os sonhos da juventude
E as lembranças que se levam pela vida
Encontrei sua morada, enfim, dentro de mim
Porque o poeta mora, desde sempre, em minha alma.