Memórias – 27.02.2020

Há um ano postei essa publicação. Não imaginava que vinte dias depois estaria enfrentando essa situação bizarra, que estaria encerrada em uma casa, separada das pessoas que amo, amordaçada por uma focinheira que chamam máscara, e que viveria, a partir de 18.03 em um pesadelo de arbítrio e cretinice, a que quase todos cederam por medo. Medo do que? de morrer, a única certeza dessa vida. Por medo de morrer as pessoas se enterraram vivas. O medo de morrer é algo tão ridículo, tão sem sentido… todos morreremos. Essa é a verdade. Eu só queria viver.

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                            VIVER

 Tocar as estrelas, desejar a lua, alcançar o céu
 Ter vontade de viver, com alegria e leveza
 Amar, amar, sem medida, sem limites, sem temores
 E se entregar à paixão plenamente para ser feliz
 Sonhar, voar, flutuar, não estar e não precisar ser
 Sem amarras, sem culpas, sem passado, só existindo
 E assim, feliz, seguir em frente, simplesmente viver 

Dia de Poesia – Débora Zanon – Me busque

Me busque…
Me traga de volta…
Venha se preciso de muito longe.
Não telefone.
Não mande mensagens.
Só me resgate
Da prosaica prisão dos dias sem cor.
Dos mares rasos..
Vem ….
Quero me atirar em você .
Em silêncio
Falamos de mais
Precisamos nos calar
Usar a boca para explorar.
As mãos para agarrar.
Os corpos para entrelaçar.
Fica em silêncio
Vem me buscar.

Na estrada

  Não sei se passo eu por essa estrada
 Ou se é essa estrada que por mim passa
 No asfalto – tão cinza e tão feio
 Correm brancos riscos a meu encontro
  
 Nos dois lados troncos fazem cercas
 Cruzam rápidos, levando esticados
 Tantas linhas feitas de arame farpado
 Só para mostrar existir um limite invisível
  
 Poste e torres correm com seus fios
 Levam luz, levam calor, levam progresso
 E ainda levam as boas e as más notícias
  
 Cruzando com esses riscos brancos
 Passo eu por estrada que não tem fim
 Ou é ela, a estrada, que passa por mim? 

Dia de poesia – Rosa Lobato Faria

Psiquiatra Passo Fundo
 Se eu morrer de manhã
 abre a janela devagar
 e olha com rigor o dia que não tenho.
  
 Não me lamentes. Eu não me entristeço:
 ter tido a morte é mais do que mereço 
 se nem conheço a noite de que venho.
  
 Deixa entrar pela casa um pouco de ar
 e um pedaço de céu
 –  o único que sei.
  
 Talvez um pássaro me estenda a asa
 que não sabe voar
 foi sempre a minha lei.
  
 Não busques o meu hálito no espelho.
 Não chames o meu nome que eu não venho
 e do mistério nada te direi.
  
 Diz que não estou se alguém bater à porta.
 Deixa que eu faça o meu papel de morta
 pois não estar é da morte quanto sei. 

Liberdade

Julho é o mês de pipa no céu | Kondzilla.com

Seu tamanho diminui a meus olhos conforme vou soltando a linha. Minha pipa, tão linda, voa longe. Presa a mim por um fio quase invisível, ela dança seu estranho balé, sobe, cai, flutua… e me encanta. Às vezes preciso corrigir seu rumo, ela, rebelde, cabeceia e tenta resistir. Entra em contradança com a rabiola e me faz sorrir.

Ela quer mais. Dou linha. Ela quer mais.

Na verdade, ela quer se soltar e seguir seu destino de liberdade. Não sabe – ingênua que é – o que a espera se for sozinha. Sua essência é ser pipa, estar ligada a mim por um fio e ser controlada para manter seu voo. Não voaria sozinha, apenas seria levada pelo vento e destroçada ao primeiro obstáculo.

Furiosa por não se soltar, ela cabeceia com força, olha-me com raiva. Eu relevo. Mesmo o filho mais rebelde, um dia se acomoda e volta manso ao ninho.

Dou-lhe toda a linha que tiver, toda a linha que ela quiser. Mas mantenho a outra ponta presa em mim. Não a abandonaria a sua própria sorte, para não ver sua ruína. Ela sobe mais um pouco.

Vê as nuvens se juntarem e escurecerem. A brisa, que a beijava e sustentava com carinho,  agora começa a se transformar num vento que a quer levar para longe. Ela teme a chuva, pois não sobreviveria à água.

Olha para mim desesperada, pedindo ajuda. Não vou começar a trazê-la de volta agora.

Ainda há sol, podemos brincar mais um pouco.

Com carinho eu a construí. Com um sonho eu a idealizei. Porque o sonho nos permite fazer tudo o que precisamos para a nossa felicidade. Eu a sonhei, com meu sonho de liberdade, então a fiz. Não a perderei tão fácil.

Puxo um pouco a linha e ela volta a dançar. Olho para ela, lá no alto, e os raios de sol tornam a linha completamente invisível. Parece que nesse momento ela está livre.

Sei de sua invencível vontade de liberdade. Essa liberdade que ela jamais terá.

Lágrimas escapam de meus olhos, ao pensar em meu próprio sonho de liberdade, que jamais realizarei. Com todo cuidado, entre minhas mãos mantenho seguro, junto do meu coração, esse fio que nos liga, e lentamente começo a recolher a linha antes da tempestade que se anuncia.

Na sua volta

 Não me fale de sua tristeza, 
 não descreva suas angústias nem seu cansaço 
 Quando você chegar, olhe nos meus olhos com alegria e
 traga notícias do mundo lá fora, de tudo o que não vi
  
 Quero saber das cores que através da janela 
 o amanhecer projetou na parede do seu quarto 
 E também se seus braços sentiram falta 
 de enlaçar meu corpo e me manter presa no seu
  
 Quero saber do viço das folhas das árvores depois da chuva
 Da algazarra dos pássaros voltando para os ninhos no entardecer
 Quero saber dos tons de ouro e fogo com que o sol 
 tingiu as águas do rio para esperar a noite chegar
  
 Não fale de sua tristeza, de suas angústias nem de seu cansaço 
 Quando você chegar, me abrace em silêncio
 Apenas se deite no meu peito e deixe que meu ventre acolha você 
 Que seja meu corpo o seu repouso e meu amor o seu descanso
(Pintura de Bruno Steinbach. “O Abraço, opus II")