Inferno

Lasciate ogni speranza voi ch’entrate

Diz o grande poeta Dante Aligheri que esta frase está na entrada do inferno – “Abandone toda a esperança vós que entrais aqui”. Não sei se o inferno tem entrada, muito menos se na entrada tem placa. Nem pretendo conferir.

Mas não nego que essa frase é instigante.

Sou movida a esperança. Esperança + perseverança = minha caraterística mais forte.

Poucas vezes desisti de algo. E não é bem desistir. Sou enxadrista. Às vezes chegamos em um ponto que a única saída é deitar o rei. Mas antes todas as tentativas foram feitas, todas as estratégias aplicadas.

Aí diz o Poeta: abandonai toda a esperança… Por que? Talvez porque ele pense que o inferno só tem a porta de entrada. Talvez porque ele vivia em algum inferno e não via saída.

O inferno não é no subsolo da vida nem da morte. O inferno é aqui.

Há pessoas que se especializam em tornar a vida dos outros um inferno particular. E há pessoas que permitem que outras tornem sua vida um inferno.

Aí tem mesmo de abandonar toda esperança se não tiver coragem para romper esse círculo vicioso de dominação.

Mas quem não desiste sabe que até no inferno há de ter uma porta de saída. Uma forma de se livrar das correntes que o prendem lá.

Esse inferno, que acontece nesta vida, e acredito ser o pior de todos, tem sim, uma porta de saída.

E uma palavra mágica que abre essa porta: “BASTA”. É só dizê-la.

E não desistir antes e perder a esperança.

(Imagem do banco de imagens Google)

Dia de poesia – Cecília Meireles – Canção Excêntrica

Calidoscópio #7 | jornadas2015ebpsp

Ando à procura de espaço

para o desenho da vida.

Em números me embaraço

e perco sempre a medida.

Se penso encontrar saída,

em vez de abrir um compasso,

Protejo-me num abraço

e gero uma despedida.

Se volto sobre o meu passo,

é já distância perdida.

Meu coração, coisa de aço,

começa a achar um cansaço

esta procura de espaço

para o desenho da vida.

Já por exausta e descrida

não me animo a um breve traço:

– a saudosa do que não faço,

– do que faço, arrependida

(Imagem: banco de imagens Google)

Diálogo

Qué es… y qué tan poderoso es el amor…? – SALUD primero … y amor

Quem é você?

Eu sou a Paixão.

Onde você mora?

Na alma dos homens.

Com quem você vive?

Hoje eu vivo sozinha, mas antes eu vivia com o Amor. Um dia ele se foi, quando me viu com o Ciúmes. Conheci então a Tristeza, que era mãe da Saudade. Esta me deixou a filha Lembrança, filha também do Encanto.

Quem são seus amigos?

Só tenho uma amiga – a Esperança, inimiga do Orgulho, que vive com a Angústia.

(Imagem – banco de imagens Google)

Dia de poesia – Sophia de Mello Breyner – Para atravessar contigo o deserto do mundo

Erosão eólica – Wikipédia, a enciclopédia livre

Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

(Imagem de banco de imagens google)

Amor e liberdade

Eu não sei amar sem liberdade (Vinicius de Moraes)

MANDINGAS DE AMOR – 89FM PODCASTS

E quem sabe? Quem consegue amar sem liberdade? Como amar sem ser livre? Cassar a liberdade do outro em nome do amor é fácil, como se fosse possível alguém se adonar do outro. Mas ninguém aceita abrir mão da própria liberdade.

Não se abre mão da liberdade. Nem da vida. Nem do ar. Nem da alegria. Nem de nada em nome do amor. Dominar não é amar.

Convencionamos eternizar o amor. Vitaliciar a paixão recíproca. Se o amor empalidece, se a paixão esfria, ficam as cadeias sociais que obrigam à permanência encarcerada. E, assim,  sufocar qualquer tendência à liberdade.

Convencionamos condenar a liberdade, como se fosse um mal.

Liberdade é a essência do ser humano. Liberdade é o termômetro do amor.

Se amamos, assim o fazemos por sermos livres para amar.

Não amamos compulsoriamente. Não sabemos amar por obrigação. Sequer amamos quem queremos. Um dia, simplesmente, descobrimos o amor brotado em nossa alma. E amamos. Sem medidas, sem limites.

Mas isso não pode ser o fim de nossa liberdade. Porque o amor não sobreviveria ao cativeiro.

Só ama quem é livre para amar.

E, o mais lindo do amor, é exatamente que, dentre todas as pessoas do mundo, amamos especialmente aquela determinada pessoa.

Amar não é perder as asas nem renunciar aos sonhos. Mesmo amando continuamos alados, e, se não voamos só, é porque queremos ficar. Não queremos partir em voo solo, preferimos compartilhar o ninho, os sonhos, os voos.

E, se temos a sorte de sermos correspondidos, com toda a liberdade de ir embora, ficamos.

Ficamos porque temos a liberdade de ir embora. Mas, se amamos, a liberdade nos permite permanecer.

É, portanto, necessário ser livre para poder amar.