Poesia da casa – A morte da Poeta

Que cessem agora todos os sons
E que se calem todas as vozes
Abaixem a cabeça em respeito
Um minuto, uma hora, um dia
Do mais completo silêncio
Pela morte de uma Poeta

A Poesia morreu com ela.

Esta noite não haverá lua no céu
Como também não haverá estrelas
A maré hoje não cantará para
Nos embalar, a sua canção de ninar
E as ondas permanecerão imóveis
Pela morte de uma Poeta

A Poesia morreu com ela.

As flores da noite não se abrirão em perfumes
Nem as flores da manhã explodirão em cores
Não se ouvirá um único trinar de pássaros
Porque não haverá cantoria ao alvorecer
Apenas a ausência dos cantos será ouvida
Pela morte de uma Poeta

A Poesia morreu com ela

Hoje os casais não se amarão, desgostosos
Porque a doçura não se fará presente nos lares
E os sinos dobrarão entristecidos, nos campanários
Sem a alegria dos badalos tão festivos
Sem a algazarra das crianças brincando nas praças
Pela morte de uma Poeta

A poesia morreu com ela

Nunca mais se ouvirão versos de amor
Nunca mais os cantos apaixonados
As odes e sonetos de entrega e magia
Nem uma simples trova em uma esquina qualquer
Nem uma rima em uma canção do trovador
Pela morte de uma Poeta

A poesia morreu com ela

Nem um soluço ou pranto será ouvido 
As lágrimas não escorrerão pelas faces
Os corações baterão em profundo silêncio
E, ao verem passar o esquife com seu corpo
Todos dobrarão os joelhos sobre a terra
Pela morte de uma Poeta

A poesia morreu com ela...

Paz (Memória – um ano)

Voo cego – solidão não é liberdade

Abismos esperam o passo em falso

Precipícios da alma, escuridão no dia claro

As flores se despetalaram ao vento

A vida se desfez em um breve instante

O que era já não está mais

O que existia não mais acontece

Tudo é nuvem que se desfaz e desaparece

Não é mais preciso remar – viver à deriva

Que a vida não vale a pena ser vivida

Rochedos esperam depois da curva

Fechando de vez o caminho incerto

Já não há para onde ir

A noite cai em uma vida inútil

E então, finalmente, sem sofrimento,

Sem lágrimas, sem dores – em paz,

Alma e corpo irão descansar –

Flutuar na eternidade

(Imagem: banco de imagens Google)

Da série “Foi poeta, sonhou e amou na vida” – 06 – Hilda Hilst

Hilda Hilst nasceu em 21 de abril de 1930, em Jaú, no estado de São Paulo. Sua mãe — Bedecilda Vaz Cardoso — era portuguesa, e seu pai — Apolônio de Almeida Prado Hilst — era produtor de café e escritor.

Em 1952, formou-se em direito, mas exerceu a profissão apenas por um ano e decidiu se dedicar exclusivamente à literatura. Mais tarde, casou-se como o escultor Dante Casarini, e foram morar na Casa do Sol, lugar que se tornou um ponto de encontro de artistas.

A escritora, que faleceu em 04 de fevereiro de 2004, em Campinas, teve uma vida dedicada, principalmente, à poesia, mas, também, escreveu narrativas e peças de teatro. Suas obras são caracterizadas pelo monólogo interior, erotismo e questionamentos existenciais.

A escritora começou a estudar, em regime de internato, no colégio de freiras Santa Marcelina, na cidade de São Paulo, em 1937. Ao sair do internato, em 1944, passou a morar na casa da senhora Ana Ivanovna, ainda em São Paulo. No ano seguinte, iniciou seus estudos no Instituto Presbiteriano Mackenzie.

Ingressou na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco em 1948. No ano seguinte, conheceu a escritora e amiga Lygia Fagundes Telles. Em 1950, publicou seu primeiro livro de poesia: Presságio.

De 1953 a 1954, trabalhou em um escritório de advocacia, mas percebeu que não tinha talento para o direito e que devia se dedicar exclusivamente à literatura. Assim, depois de fazer uma viagem ao Chile e Argentina, voltou a morar com a mãe. Contudo, em 1957, decidiu morar em Paris durante seis meses, e, em 1960, esteve em Nova Iorque.

Hilda Hilst é considerada uma autora pertencente à terceira geração modernista (ou pós-modernismo). Por isso, suas obras apresentam características como:

Fluxo de consciência
Questões existenciais
Caráter intimista
Fragmentação

No entanto, as obras da autora possuem algumas peculiaridades:

Ironia
Erotismo
Hermetismo
Linguagem obscena
Foco no universo feminino
Narrativa não linear
Mistura de gêneros literários
Uso de palavras de diversos idiomas

(Fonte: Literatura – Escritores brasileiros)

Tateio

Tateio. A fronte. O braço. O ombro.
O fundo sortilégio da omoplata.
Matéria-menina a tua fronte e eu
Madurez, ausência nos teus claros
Guardados.
Ai, ai de mim. Enquanto caminhas
Em lúcida altivez, eu já sou o passado.
Esta fronte que é minha, prodigiosa
De núpcias e caminho
É tão diversa da tua fronte descuidada.
Tateio. E a um só tempo vivo
E vou morrendo. Entre terra e água
Meu existir anfíbio. Passeia
Sobre mim, amor, e colhe o que me resta:
Noturno girassol. Rama secreta.


Do amor contente e muito descontente

Tudo é triste. Triste como nós
Vivos ausentes, a cada dia esperando
O imutável presente.
Tudo é triste. Triste como eu
Antiga de carícias
De olhos e lamentos
Lenta no andar, lenta
Irmã
De algum canto de ave
De silêncio na nave, irmã.
Vamos partir, amor.
Subir e descer rios
Caminhar nos caminhos
Beijar
Amar como feras
Rir quando vier a tarde.
E no cansaço
Deitaremos imensos
Na planície vazia de memórias.


XXXIII (de Cantares de perda e predileção)

Se te pronuncio
Retorno um Paraíso
Onde a luz se faz dor
E gelo a claridade.
Se te pronuncio
É esplendor a treva
E as sombras ao redor
São turquesas e sóis
Depois de um mar de perdas.

Vigio
Esta sonoridade dos avessos.
Que se desfaça o fascínio do poema
Que eu seja Esquecimento
E emudeça.



Partida sem despedida

Hesitante, sem muita certeza do que fazia, buscou a velha mala no fundo do armário do quarto de despejo.

Abriu-a, passou uma rápida vistoria  –  estava em bom estado e limpa.

Adiou mais um pouco a decisão.

Mas não tinha volta. Teria de partir.

Abriu armários e gavetas.

Se não sabia nem para onde estava indo, como poderia saber o que levar?

Olhou as roupas, tão conhecidas, tão usadas.

Mas para aqui.

Não para sabe-se lá onde.

Era impossível continuar nesse lugar onde não vivia. Apenas sobrevivia e se arrastava, assim como os intermináveis dias que se sucediam há mais de um ano. Uma vida sem nenhuma vida.

O mais difícil era tomar a decisão de partir.

Essa já conseguira tomar. Ia partir.

Iria embora, para sempre. Para perto, para longe, não importava. A necessidade era ir.

Pensou mais um pouco, tentando duvidar se tomara a decisão mais acertada.

A cabeça se recusava a dar meia volta – decidira que era de partir e partiria.

Fechou a velha mala.

Vazia.

Se não tinha para onde ir, para que a mala?

Pegou a bolsa com documentos e dinheiro. Era tudo o que precisava. Nada mais. Nem malas nem bagagens. Só as lembranças e a solidão.

Saiu sem nem mesmo se dar o trabalho de trancar a porta.

E partiu.

(Imagem: banco de imagens Google)

Poesia da casa – Vem aqui me falar de amor

Venha aqui me falar de amor
Sente-se a meu lado e me abrace
Fale de amor, fale de ternura
Conte os sonhos que um dia você teve
E também os sonhos que você ainda sonha
Mostre seu lado frágil olhando em meus olhos
Deixe-me conhecer seus medos e angústias
Não se guarde nem disfarce suas fraquezas
Quero ver o menino que vive em você
Venha aqui me falar de amor
Conte de todas as viagens que você fez
E também daquelas que ainda vai fazer
Descreva as cores de todos os mares que você já viu
E se eram quentes as águas em você entrou
Me fale dos templos de tantos deuses
Dos palácios de tantos reis
Das cabanas dos miseráveis, dos bancos das praças
E me conte de tantas árvores 
Que deram sombra para você dormir
De tantas fontes cujas águas frescas você bebeu
As estradas, ruas, caminhos e atalhos por onde seguiu
Fale até mesmo do amor que encontrou nas mulheres
As mulheres que o amaram e acolheram na caminhada
Venha, venha falar de amor para mim
E depois eu vou falar de amor para você
Também vou contar de meus sonhos 
De meu desejo de realizar viagens, de conhecer lugares
Ver outros mares, beber de outras fontes 
Dos dias e das horas em que fiquei esperando sua volta
Das tantas vezes em que chorei tão sentida de sua falta
E mais o amei quanto mais o esperei
Venha, venha se sentar aqui e me falar de amor
E fale de amor, fale de amar, fale de muito querer
E olhe no fundo dos meus olhos e veja
Todo o amor que sinto por você
Então me ame. E não precisa falar mais nada

(Imagem: banco de imagens Google)