Dia de poesia – Nilton Lobo – Um beijo cheio de desejo

Young cute couple hugging and kissing in a car Stock Photo - Alamy
Desde o primeiro instante,
Olhei em teus olhos,
Senti minha alma vibrante,
E desejei aquele beijo,
Que tem sabor de amante...
O beijo cheio de ternura,
De volúpia e loucura,
Em um abraço regado a percorrer as mãos no corpo,
Apertando firme, escorregando
De dedos ávidos e soltos...
O beijo que chegava até a alma,
E se misturava no universo,
Como as poesias de um poema,
Entrelaçadas em cada verso...
Um beijo demorado, devasso...
De línguas digladiando,
Um beijo bem molhado,
Que faça suar a pele,
Molhar entre as pernas...
Fluir intenso calor na derme,
De paixões vivas e eternas...
Quando a olhei senti que meus sentidos,
Já não faziam sentido algum,
Parecia uma fantasia erótica,
Regada a um copo de rum...
Havia ao largo a retórica,
Não me faz mal nenhum...
Mas desejei imensamente o beijo,
Dava uns lampejos no corpo,
Perdia o controle de minhas vontades,
Um mar de vaga, revolto...
A fome insaciável, borbulhando felicidades...
E me perdi no tempo,
Naquele momento,
No meu febril desejo,
De te possuir de corpo e alma,
Devorando a tua calma,
Naquele doce beijo...

(Imagem: banco de imagens Google)

Texto de Caio Fernando Abreu – Trechos de “Carta para além do muro”

Olha, eu estou te escrevendo só pra dizer que se você tivesse telefonado hoje eu ia dizer tanta, mas tanta coisa. Talvez mesmo conseguisse dizer tudo aquilo que escondo desde o começo, um pouco por timidez, por vergonha, por falta de oportunidade, mas principalmente porque todos me dizem que sou demais precipitado, que coloco em palavras todo o meu processo mental (processo mental: é exatamente assim que eles dizem, e eu acho engraçado) e que isso assusta as pessoas, e que é preciso disfarçar, jogar, esconder, mentir. Eu não achei que ia conseguir dizer, quero dizer, dizer tudo aquilo que escondo desde a primeira vez que vi você, não me lembro quando, não me lembro onde. Hoje havia calma, entende? Eu acho que as coisas que ficam fora da gente, essas coisas como o tempo e o lugar, essas coisas influem muito no que a gente vai dizer, entende? Pois por fora, hoje, havia chuva e um pouco de frio: essa chuva e esse frio parecem que empurram a gente mais pra dentro da gente mesmo, então as pessoas ficam mais lentas, mais verdadeiras, mais bonitas. Hoje eu estava assim: mais lento, mais verdadeiro, mais bonito até. Hoje eu diria qualquer coisa se você telefonasse. Por dentro também eu estava preparado para dizer, um pouco porque eu não agüento mais ficar esperando toda hora você telefonar ou aparecer, e quando você telefona ou aparece com aquelas maçãs eu preciso me cuidar para não assustar você e quando você me pergunta como estou, mordo devagar uma das maçãs que você me traz e cuido meus olhos para não me traírem e não te assustarem e não ficarem querendo entrar demais dentro dos teus olhos, então eu cuido devagar tudo o que digo e todo movimento, porque eu quero que você venha outras vezes.
(…)
A cada dia viver me esmaga com mais força.

(Imagem: banco de imagens Google)

Poesia da casa – Não me queira amar

Não me queira amar se não domina a arte
Não sou brinquedo para ser jogada ao léu
Nem minha vida é bar que se entra e sai
Quando se bem quer sem compromisso

Não me queira amar se não conhece o céu
Se não sabe a dor da perda nem o êxtase da paixão
Amar é para quem sabe e consegue se doar
E quando diz que fica, é porque, de verdade, ficará

Não me queira amar se não pode ser fiel
Se não consegue me conquistar todos os dias
Se apenas repete fórmulas já tão usadas
Repetidas para tantos outros ouvidos

Não me queira amar se não se amar muito
Porque amor e insegurança não combinam
Quem não é completo nunca poderá amar
Porque amar não é completar – é transbordar

Não me queira amar se não entender a liberdade
Se não souber voar longe, apenas por amor
Se tiver amarras, âncoras e outras misérias
E não puder ser, por inteiro, companheiro.

(Imagem: banco de imagens Google)