Quando a noite enfim lhe cansa, você vem feito criança Pra chorar o meu perdão, qual o quê Diz pra eu não ficar sentida, diz que vai mudar de vida Pra agradar meu coração E ao lhe ver assim cansado, maltrapilho e maltratado Como vou me aborrecer, qual o quê Logo vou esquentar seu prato, dou um beijo em seu retrato E abro meus braços pra você
Mês: novembro 2022
Dia de poesia – Florbela Espanca – O maior bem

Este querer-te bem sem me quereres Este sofrer por ti constantemente, Andar atrás de ti sem tu me veres Faria piedade a toda a gente. Mesmo a beijar-me, a tua boca mente... Quantos sangrentos beijos de mulheres Pousa na minha a tua boca ardente, E quanto engano nos seus vãos dizeres!... Nas que me importa a mim que me não queiras, Se esta pena, esta dor, estas canseiras, Este mísero pungir, árduo e profundo, Do teu frio desamor, dos teus desdéns, É, na vida, o mais alto dos meus bens? É tudo quanto eu tenho neste mundo?
(Imagem: banco de imagens Google)
do Portal COMPORTE-SE – Psicologia & AC
Meu terapeuta chorou, e agora?
Por Raul Vaz ManzioneTer, 04/02/2020, Às 08h21 PM4.1kViews 1Comment

Gosto de pensar que estar na posição de terapeuta é estar em uma posição de privilégio, mas um privilégio gostoso, recompensador. Pessoas me procuram em busca de ajuda, um tipo de ajuda que envolve duas pessoas em uma sala fechada e com a proposta de colocar seu coração à mesa para fazer mudanças significativas em suas vidas – e isso tende a ser mais desafiador do que com as palavras que descrevo aqui. O cliente traz seus tecidos – aqueles que a vida o presenteou e saiu juntando – e eu compartilho com ele de uma agulha e um fio onde, a partir daí, nós delineamos o que o cliente quer criar com essa costura e seguimos nesse processo colaborativo. Podemos, eventualmente, acabarmos por nos ferir em tal empreitada – ao mesmo tempo em que não há trabalho de costura sem a disposição de ocasionalmente acabar por levar uma pontada. O trabalho final é personalizado, individual, e muito belo.
Muitas vezes, eu me emociono. Certa vez eu acompanhei uma pessoa em terapia que seu maior medo era falar de amor. Foi um longo processo, tendo a acompanhado por quase 3 anos. Um dia ela me trouxe a surpresa de que pôde assumir o risco de dizer para seu cônjuge que o amava. Me faltam palavras para descrever aqui o que senti de ouvir tal relato, mas lembro que instantaneamente me eliciaram respondentes intensos e quando eu vi, eu estava chorando.
De tempos em tempos, algum cliente irá tocar em um assunto de um trauma profundo, ou então irá contar sobre uma mudança muito impactante que fez como fruto da terapia. E minha visão vai se embaçar. Nem sempre as lagrimas caem, mas em alguns momentos é bom ter uma caixinha de Softy’s a disposição. Alguns profissionais, porém, resistem à expressão emocional porque acreditamos que nossos clientes não gostariam que seu terapeuta chorasse.
Não existe uma técnica ou livro que aborde o “chorar terapêutico”, nem é algo que possa ser forçado. Irá acontecer.
Aproximadamente 72% dos psicoterapeutas admite ter chorado em alguma sessão (Blume-Marcovici, Stolberg, & Khademi, 2013). É perfeitamente normal e mais comum do que imaginamos.
Durante a graduação nunca me foi ensinado sobre minhas próprias lágrimas. Alguns professores nos encorajavam a resistir a qualquer traço de emoção. Outros nos encorajavam a sermos empáticos. Lembro da primeira vez que abri para uma supervisora sobre meu choro me sentindo como se fosse confessar um pecado. Devemos ser neutros e desapegados ou seriam nossas lágrimas benéficas e capazes de ser um modelo de flexibilidade? Estaríamos mostrando fraqueza? Serão nossas habilidades e inteligência respeitadas se mostrarmos nosso “lado emocional”? Imagine-se, leitor ou leitora, nos sapatos de um terapeuta que vê pessoas sofrendo, pessoas que se perderam e ficaram presas sob a própria pele, na própria vida. Diante dessas pessoas, preciso de uma visão de mundo com implicações de ação. Preciso de uma orientação teórica que me diga como entender o que estou observando diretamente, o que fazer ou dizer a seguir e como saber que o que faço ou digo está realmente funcionando para treinar novos comportamentos. Quando estou de frente com alguém que confiou em mim o sofrimento deles, tudo o que tenho é meu próprio comportamento. Acima de tudo, eu preciso de uma análise que me inclua nela.
Sempre devemos recorrer à função: chorar reforça ou pune a resposta de meu/minha cliente baseado nos objetivos terapêuticos estabelecidos? Quero que a pessoa se exponha novamente, focando no controle consequente da minha ação, ou ao me atentar mais a variáveis antecedentes aversivas estou me esquivando do assunto? Por ser parte das variáveis independentes que influenciam o responder de meus clientes, eu tenho de analisar meu próprio comportamento na interação. Eu acredito em revelações que partem do coração, mas também acredito que uma boa terapia é feita com boa ciência – supondo que o choro de um terapeuta diante de um comportamento corajoso de seu cliente faz com que tal repertório generalize, então pode ser interessante constar na conceituação de caso que gestos empáticos, naturais, podem ser úteis para o progresso terapêutico do cliente.
Tais questionamentos, inclusive, parecem contraditórios com a proposta que trouxe. Não estou dizendo que ao se trabalhar com ACT você deve chorar. Talvez minha ponderação seja a de que podemos quebrar algumas “regras” terapêuticas com as quais nos fusionamos: experimente, e veja o que acontece.
Se você for cliente e seu ou sua terapeuta chorar em algum momento da terapia – tudo bem se você se surpreender com o movimento, e tudo bem caso isso aconteça – afinal não há nada de fora do comum em uma ação humana como esta. Pois há momentos nessa profissão que são intensos e sensíveis. Nesses momentos, ciência e profissionalismo são coadjuvantes e é nossa experiência total como ser humano que é a protagonista na sala de terapia.
Referências
Blume-Marcovici, A., Stolberg, R., & Khademi, M. (2013). Do therapists cry in therapy? The role of experience and other factors in therapists’ tears. Psychotherapy, 50(2), 224-234. doi: 10.1037/a0031384
Da série “Foi poeta, sonhou e amou na vida – 04 – Florbela Espanca

Filha de Antónia da Conceição Lobo e do republicano João Maria Espanca (1866-1954), nasceu no dia 8 de dezembro de 1894 em Vila Viçosa, no Alentejo.
Entre 1899 e 1908, Florbela Espanca frequentou a escola primária, em Vila Viçosa. Foi naquele tempo que passou a assinar os seus textos Flor d’Alma da Conceição. As suas primeiras composições poéticas datam dos anos 1903-0904: o poema “A Vida e a Morte”, o soneto em redondilha maior em homenagem ao irmão Apeles e um poema escrito por ocasião do aniversário do pai “No dia d’anos”, com a seguinte dedicatória: «Ofereço estes versos ao meu querido papá da minha alma». Em 1907, Espanca escreveu o seu primeiro conto: “Mamã!”, sendo que no sua mãe, Antonia, faleceu no ano seguinte.

Em 1913, casou-se em Évora com Alberto de Jesus Silva Moutinho, seu colega da escola. O casal morou primeiro em Redondo. Em 1915, instalou-se na casa dos Espanca em Évora, por causa das dificuldades financeiras.
Em 1916, de volta a Redondo, a poetisa reuniu uma seleção da sua produção poética desde 1915, inaugurando assim o projeto Trocando Olhares. A coletânea de oitenta e cinco poemas e três contos serviu-lhe mais tarde como ponto de partida para futuras publicações. Na época, as primeiras tentativas de promover as suas poesias falharam.
No mesmo ano, Espanca iniciou-se como jornalista em Modas & Bordados (suplemento de O Século, de Lisboa), em Notícias de Évora e em A Voz Pública, também eborense. A poetisa regressou de novo a esta cidade em 1917. Completou o 11.º ano do Curso Complementar de Letras e matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Foi uma das catorze mulheres entre trezentos e quarenta e sete alunos inscritos. Aí teve como colegas de curso os escritores e poetas Américo Durão e Mário Beirão.

Um ano mais tarde, a escritora sofreu as consequências de um aborto involuntário, que lhe teria infetado os ovários e os pulmões. Repousou em Quelfes (Olhão), onde apresentou os primeiros sinais sérios de neurose0.
Em 1919, saiu a sua primeira obra, Livro de Mágoas, um livro de sonetos. A tiragem (duzentos exemplares) esgotou-se rapidamente. Um ano mais tarde, sendo ainda casada, a escritora passou a viver com António José Marques Guimarães, alferes de Artilharia da Guarda Republicana.
Em meados de 1920, interrompeu os estudos na Faculdade de Direito. Em 29 de Junho de 1921, pôde finalmente casar-se com António Guimarães. O casal passou a residir no Porto, mas, no ano seguinte, transferiu-se para Lisboa, onde Guimarães se tornou chefe de gabinete do Ministro do Exército.
Espanca ingressou então no Liceu Nacional de Évora, onde permaneceu até 1912. Foi uma das primeiras mulheres em Portugal a frequentar um curso liceal.
Em 1925, divorciou-se pela segunda vez.
Em 1927, a autora principiou a sua colaboração no jornal Dom Nuno de Vila Viçosa, dirigido por José Emídio Amaro. Naquele tempo, não encontrava editor para a coletânea Charneca em Flor. Preparava também um volume de contos, provavelmente O Dominó Preto, publicado postumamente apenas em 1982. Começou a traduzir romances para as editoras Civilização e Figueirinhas do Porto. No mesmo ano, em 6 de junho, Apeles Espanca, o irmão da escritora, de apenas 30 anos, faleceu num trágico acidente de avião, perto de Belém. A sua morte foi devastadora para Espanca. Em homenagem ao irmão, Espanca escreveu o conjunto de contos de As Máscaras do Destino, volume publicado postumamente em 1931. Entretanto, a sua doença mental agravou-se bastante. Em 1928, ela teria tentado o suicídio pela primeira vez.

Espanca tentou o suicídio por duas vezes mais em outubro e novembro de 1930, na véspera da publicação da sua obra-prima, Charneca em Flor. Após o diagnóstico de um edema pulmonar, a poetisa perdeu definitivamente a vontade de viver. Não resistiu à terceira tentativa do suicídio. Faleceu em Matosinhos, no dia do seu 36.º aniversário, a 8 de dezembro de 1930. A causa da morte foi uma “overdose” de barbitúricos. A poetisa teria deixado uma carta confidencial com as suas últimas disposições, entre elas, o pedido de colocar no seu caixão os restos do avião pilotado por Apeles quando sofreu o acidente. O corpo dela jaz, desde 17 de maio de 1964, no cemitério de Vila Viçosa, a sua terra natal. (Fonte: Wikpedia)

Ela foi trágica:
A UM MORIBUNDO
Não tenhas medo, não! Tranqüilamente,
Como adormece a noite pelo Outono,
Fecha os teus olhos, simples, docemente,
Como, à tarde, uma pomba que tem sono…
A cabeça reclina levemente
E os braços deixa-os ir ao abandono,
Como tombam, arfando, ao sol poente,
As asas de uma pomba que tem sono…
O que há depois? Depois?… O azul dos céus?
Um outro mundo? O eterno nada? Deus?
Um abismo? Um castigo? Uma guarida?
Que importa? Que te importa, ó moribundo?
– Seja o que for, será melhor que o mundo!
Tudo será melhor do que esta vida!…
Ela foi lírica:
Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços…
Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca… o eco dos teus passos…
O teu riso de fonte… os teus abraços…
Os teus beijos… a tua mão na minha…
Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri
E é como um cravo ao sol a minha boca…
Quando os olhos se me cerram de desejo…
E os meus braços se estendem para ti…
(Imagens: banco de imagens Google)
Dia de poesia – José Carlos SC – Saudade

Sigo livre, acorrentado, Vivo no presente o passado, Não consigo fechar a porta... O caminho faz-se caminhando, A luta vai-se travando, A faca é cega mas ainda corta. Perdi-me ao te perder, Morri antes de morrer, Sem ti, nada mais importa... Não existe maior castigo, Do que ter o corpo vivo E a nossa lama já morta.
(Imagem: banco de imagens Google)
Dia de poesia – Fernanda Junqueira – Deus não mora em gaiolas

Pássaros de ressuscitar manhãs revigorados rejuvenescidos de amanhãs Tiram de dentro de si o Deus que lhes deu o dom e O trazem para perto de nós, nas árvores, nas ruas, nas poças d'água da chuva da véspera sobreviventes ao dilúvio Deus está aqui no sentir de distraídas calmas O banho, o batismo a sede de santidade mergulhada na eternidade de pequenos amores. O sorriso solar movimenta o silêncio em algum canto da alma grávida de horizontes a reverter em asas os braços crucificados.
(Imagem: banco de imagens Google)