Dia de poesia – O mais-que-perfeito

  O MAIS-QUE-PERFEITO

           (Vinicius de Moraes)

 

 

Ah, quem me dera ir-me

       Contigo agora

Para um horizonte firme

       (Comum, embora…)

Ah, quem me dera ir-me!

 

Ah, quem me dera amar-te

        Sem mais ciúmes

De alguém em algum lugar

        Que não presumes…

Ah, quem me dera amar-te

 

Ah, que me dera ver-te

        Sempre a meu lado

Sem precisar dizer-te

        Jamais: cuidado…

Ah, quem me dera ver-te

 

Ah, quem me dera ter-te

        Como um lugar

Plantado num chão verde

        Para eu morar-te

Morar-te até morrer-te

Homenagem ao Dia do Imigrante Italiano

 

                                                 

                                                       O som do adeus

Há muitos anos não chovia tanto no outono. E o único jeito de chegar ao porto de Genova, era caminhando. Na chuva ou no sol. Era preciso caminhar. Quando a chuva apertava, a lama dificultava até tirar os pés do chão, eles se abrigavam em qualquer tapera ou loca, especialmente para que as trouxas não se encharcassem. E era tudo o que tinham. Porque venderam os outros bens – galinhas, xícaras, bules e enxadas. Tudo. O pouco que ficou era posto em trouxas de grosso tecido. E então seguiam até o porto. A pé. Genova era longe. Dias de distância. Noites dormidas nas beiras de caminhos, onde faziam uma roda em torno de si mesmos, crianças, moças e idosos no meio.

Antonella seguia firme, o coração apertado. Os pais ficaram na casinha de pedra esperando a morte. Os irmãos partiram antes, primeiro Giovanni, o mais velho. Que logo chamou os outros três mais novos, até Carlo, que sempre foi seu companheiro de vida. E com eles seguiu Luigi. Seu prometido. Ou seria ela a prometida?

E assim, andando dia após dia, o grupo chegou a seu destino.

Imponente, o vapor Matteo Bruzzo dominava a paisagem no porto de Genova.

Para Antonella  – e também para quase todos do grupo, era a primeira visão do mar. Ela começou a chorar. E se prometeu que todas as vezes em que visse o mar, enxergaria seu lindo Rio Pó, que deixara para trás, para sempre.

Do bolso do casaco tirou, amassadas, as cartas do irmão Carlo e do amado Luigi. E, o bem mais precioso que possuía, a foto dos dois juntos, rindo, com a dedicatória que a esperavam na América, no Brasil, em São Paulo.

Entraram no navio. Era simplesmente horrível a parte destinada aos mais de mil imigrantes pobres, lugar insalubre, mau cheiroso, onde ficaria nos próximos dias e noites. Antonella sentiu que começaria a chorar de novo, tinha apenas quinze anos, era a filha caçula do grupo de cinco irmãos e nunca mais veria os pais. Estava sozinha com um grupo de estranhos – vizinhos e conhecidos que também imigravam para tentar nova vida, longe da miséria e da guerra. Era muito triste fazer essa escolha. Mas seus pais não cabiam no seu futuro. Não tinham saúde para atravessar o Atlântico. Agora ela via que realmente não havia condição para sua mãe ficar naquele lugar, estava muito doente, não tinha muito tempo de vida. Ao menos morreria em casa, ao lado do marido e no seio da família, com as irmãs e primas cuidando dela. Sem os filhos. Mas sempre fora ela, a mãe, quem mais incentivara que partissem para buscar nova vida no Brasil.

Foi até o convés, e, aos poucos, a costa da amada Itália se desfazia no horizonte, quando, pela primeira, ouviu o verdadeiro som do adeus: o apito do navio que partia.

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Premio Eccellenza Letteraria, Milano, 2018

Publicado na Coletânea Incontro Letterario a Milano – Oficina do Livro, São Paulo, 2018

O futuro de todos nós

L’avenir c’est ce qui dépasse la main tendue. (Louis Aragon)

 

O que significa de verdade Depois, Amanhã, Futuro? 

Vivemos em função do futuro, do depois, do amanhã, do que há de vir e do que há de ser. Que desconhecemos. Às vezes nem acontece, pois acabamos antes que o futuro chegue. 

Mas se não tivermos essa idéia de futuro, não dá para viver, ficaria tudo sem sentido, seria terrível viver se só existissem o hoje e o ontem. 

Então vivemos em função de algo que desconhecemos, não atingimos, não enxergamos, o abstrato mais absoluto. Se pudéssemos, nem que fosse por um só momento, uma única vez em toda a existência, afastar a cortina tênue mas indevassável que esconde o que está à frente e espiar um mínimo que fosse do nosso futuro… 

Veríamos talvez dias ensolarados e floridos, amores bem resolvidos, paixões bem vividas, bonança e alegria. 

Também poderíamos ver choro e ranger de dentes… 

Agora que caminho entre o outono e o inverno de minha existência, vejo o quanto tenho para olhar para trás, e que nunca me foi dado ver uma hora, um segundo sequer do que há de vir. Tenho milhares de lembranças – principalmente boas, porque minha memória seletiva não me deixa fixar muitas recordações amargas, somente aquelas necessárias para não repetir erros passados – e com elas recheio o edredon que há de me agasalhar quando chegarem as horas derradeiras. 

Como não posso nem poderei conhecer o que virá depois, levo comigo a luz de muitas lembranças e algumas saudades para iluminar o caminho, que não sei onde vai dar, não sei onde vou chegar. Mas continuo firme, caminhando adiante, indo ao encontro desse amanhã que nunca chega. 

E tecendo abstratamente conceitos sobre o desconhecido, vou imaginando o que é amanhã, o que é futuro. 

Quando o novo dia nasce deixa de ser amanhã para se tornar hoje. 

Quando pensamos que chegamos no futuro, vemos que ele na verdade é o presente, e muitas vezes já é passado… é tentar segurar fumaça, reter água, guardar neve… 

A grande certeza da vida é a morte e o grande enigma é o futuro. Que nunca chegará.

(08/03/10 )

Silêncio pelo menino morto

Esse texto foi escrito em 03 de setembro de 2015. O mundo já esqueceu… 

 

O menino deitado na areia

Adormeceu

Espera por seu pai

De quem se perdeu.

O menino deitado na areia

Fugiu de sua pátria

Fugiu da guerra e do horror

Fugiu da fome e da violência.

No vento frio da noite

Segurava na mão de seu pai

O menino deitado na areia

Tinha pai, tinha mãe e irmão.

No vento da noite o balanço do mar

No frio da noite as ondas imensas

No escuro da noite seu corpo no mar.

Não viu onde foi seu irmão

Não ouviu mais a voz de sua mãe

Não achou mais a mão de seu pai.

E as ondas do mar levaram o menino

E o deixaram na beira da praia.

Adormecido ali ficou o menino.

O pequenino na areia da praia.

Rostinho virado de lado não viu

A cem metros estava seu irmão

Deitado na areia da praia

Dormindo na beira do mar.

Não mais se deram as mãos

Não mais se viram os rostos.

O menino deitado na areia

Deixou um planeta chocado

Sacudiu o conforto de todos

Arrancou lágrimas de dor

Porque não brincava o menino

Não aproveitava a alegria da praia

O menino deitado na areia

Fugindo do horror e da guerra

Não dormia o menino na areia:

Estava morto o menino

Deitado na areia da praia

Morrera nas ondas do mar.

A água e o rio

Era como se fosse a primeira vez que via o rio. Mas, na verdade, todos os dias olhava para ele, andava em suas margens, atravessava suas pontes. Há muito tempo morava ali.

Olhou com encantamento toda aquela água que descia cantando, enchia o ar com seus sons, trazia de tudo – madeira, flores, lixo, e tudo o que encontrasse pelas margens.

Parou no meio da ponte. Havia algo diferente hoje. Não era o mesmo rio de sempre.

Não conseguia identificar o que estava mudado. Seus olhos eram os mesmos. Seus ouvidos também. O que havia de diferente no rio, que parecia ser a primeira vez que o via?

Recostou-se na amurada, e olhou a água que vinha. Tão límpida, tão decidida, sabia seu destino e se atirava com coragem e alegria. Descia em busca da foz. Nada a detinha. Passava por baixo das pontes, por cima das pedras, contornava todos os obstáculos, mas sabia que chegaria a seu destino sem nada temer.

Depois atravessou a pequena ponte e olhou a água que ia.

Mansamente, sem atropelo nem angústia, ela seguia seu curso tranquilamente, levando em seu dorso as luzes do dia e as dores dos homens que do rio viviam e dele dependiam.

O rio sempre seguia. Dia e noite sem cessar, o rio fluía com a doçura de aceitar seu destino de seguir sempre até encontrar o mar.

Desceu até a beira do rio, e molhou as mãos. Sentou-se e ali ficou, pensando na vida, no dia que começara com tantos problemas. A briga em casa logo cedo. Decidiu ir embora para sempre. Chegou no emprego e encontrou tudo fechado, lacrado, os funcionários inquietos, nenhum responsável no local. Falaram em fraude fiscal. Não sabia o que aconteceria. Resolveu sair dali e ir caminhar.

À medida em que se afastava de casa e do emprego, sentia uma sensação desconhecida, como se outra pessoa estivesse surgindo em seu âmago. Quando chegou na velha ponte que atravessava todos os dias, viu outro rio. Tudo era novidade. Começou então a entender que na verdade era uma nova pessoa. Rompera os grilhões de um relacionamento falido, estava fora de um emprego sufocante. Agora finalmente respirava o que os outros chamavam de liberdade.

Voltou perto da água e tornou a molhar as mãos para lavar o rosto. E entendeu que era uma nova água. A água que vira da ponte, a água em que molhara as mãos, eram outras águas. Essa em que agora tocava era uma nova água, que se renovava a cada instante. Porque não se deixava, jamais, aprisionar, e, uma vez passada, não voltava para passar novamente pelos mesmos obstáculos, pelas mesmas dificuldades. Apenas ia. Não parava nem voltava.

Olhou seu reflexo na água que seguia e compreendeu o destino de quem é livre.

Cozinheira, com muita honra

La destinée des nations dépend de la manière dont elles se nourrissent. (Brillat-Savarin)

 

Dentre meus hobbies, tenho um que é na realidade o maior prazer na minha vida: cozinhar.

 

Isso mesmo, ir para a cozinha e qual uma alquimista atual, transformar matéria.

Do feijão duro e sem gosto tirar o virado de couve, macio, cheiroso…

Do frango malcheiroso, nojento, tirar um cuscuz maravilhoso, inesquecível.

E por aí vai…

Minha família é da religião que se reúne em torno de uma mesa. De preferência de uma boa mesa, bem servida, agradável e animada.

Fico horas na cozinha, com prazer e alegria, testando, inventando, criando.

Sim, tentando criar novos pratos – já dizia Brillat-Savarin*, La découverte d’un mets nouveau fait plus pour le genre humain que la découverte d’une étoile.

Concordo.

Vivo pensando em receitas, quando como alguma coisa diferente em uma festa ou restaurante da qual gosto muito, enquanto não consigo reproduzir a receita em meu laboratório, quer dizer, em minha cozinha, não tenho sossego.

E aquela comida maravilhosa, inigualável, dos franceses? Que se come e se fica imaginando como foi feita, quais os ingredientes, como foi feito aquele tempero espetacular, no qual não se conseguem identificar os ingredientes?

Para tudo na vida há uma primeira vez. E a primeira vez que “pilotei” um fogão – sozinha – e preparei uma refeição para minha família eu estava com nove anos de idade. Subi em um banquinho para cozinhar, porque o fogão de lenha era muito alto para uma criança. Mas enfrentei. E venci. Nunca se esquece do primeiro arroz e feijão…

E também um dia veio a primeira madeleine… nunca se esquece…

Já me aconteceu de comer um prato e não conseguir fazer igual – então fica sendo “meu prato” naquele restaurante – por exemplo o Coq au Vin do Le Procope – é impossível reproduzir em casa, acho que o galo lá não é da mesma raça do frango aqui.

O camarão com arroz negro do Amadeus – o arroz eu consigo, mas o camarão é só lá mesmo para comer daquela forma.

O fettuccine à moda, lá do Lellis da Campinas. Faço quase igual, mas não igual.

E nem por isso pratico o pecado da gula, pois não sou gulosa. Gosto de fazer, de servir, de provar. Sou de comer pouco. Mas sempre como bem quando fiz a comida.

A transformação da matéria é fascinante. De duro, sem gosto, sem cheiro (ou malcheiroso, como as carnes em geral), se tornar, por minhas mãos, macio, apetitoso, cheiroso, saboroso e bonito.

 

A boa comida preenche todos os sentidos – é agradável à visão, ao olfato, ao tato e ao paladar. E os elogios que virão agradarão a audição.

 

Uma simples salada pode ser uma saborosa refeição. Depende de como for apresentada.

 

Leio compulsivamente sobre culinária – desde receitas até filosofia. Já tirei receita de livro do Eça de Queiroz, cujas descrições minuciosas de banquetes dos quais acredito que ele nunca participou nem presenciou aguçam meus desejos culinários.

Tudo que é publicado sobre arte culinária me interessa.

Desde que o homem dominou o fogo e percebeu que depois de submeter a matéria ao calor era mais apetitosa, a descoberta dos temperos, tudo é muito interessante.

 

A tradicional Enciclopédia da Cozinha  – que sempre vi minha mãe usar (cozinheira “de mão cheia” ela também), Helena Sangirardi (que inspirou até mesmo Vinicius de Moraes), publicações da Cláudia Cozinha, livros portugueses (O Thesouro da Cozinheira, onde se leva ao lume a panela e não se põe no fogo), livros franceses (o difícil é encontrar os ingredientes por aqui).

E os ingredientes, esse capítulo é um desafio.

Trago de viagens temperos, receitas, ingredientes.

Em Budapeste consegui – no mercadão central – vendidas a granel, à moda antiga, as pápricas picante e doce, sem as quais não se faz um goulash de verdade, e que não são encontradas aqui.

Em Barcelona o açafrão em flor.

Do México trouxe pimentas.

Nas épiceries de Paris sempre há novidades, venho com meus frasquinhos cheirosos, doida para chegar e usar, em novas receitas.

Do sul da Itália as ervas secas que enriquecem massas e risotos.

E os utensílios adequados. As facas devem ser bem amoladas, e amoldadas adequadamente às mãos da cozinheira.

O material das panelas e das colheres – barro para moqueca, louça para alcachofra, cobre para compotas; ágata para cremes, colheres de pau separadas para mexer doces e salgados … tudo tem que ser certinho.

Aprender os truques também é importante.

Sofri anos tentando fazer uma batata sauté de verdade, nunca ficava da forma como eu queria, era certeza que havia um truque, mas qual???

Um dia, em Madrid, sem nada para fazer, assistindo um programa – de culinária – na TV, o chef preparou, ao vivo e em cores, uma batata sauté, explicando como fazê-la. Nunca mais errei.

Tenho minhas fases – peixes, frutos do mar, massas, risotos… A cada época invento uma modalidade. Mas há os clássicos, fáceis ou difíceis, simples ou sofisticados, que sempre são pedidos – frango ao catupiry, carpaccio, salada de alface com banana, costelinha de porco à mineira; arroz com lentilhas; bacalhau com queijo ao forno; risoto de alho poró; cuscuz; charutinho vegetariano; moussaka; moqueca baiana ou capixaba; camarão ao thermidor; canelone; pudim de legumes, dentre outros.

Qual o segredo de um prato especialmente apetitoso? O verdadeiro prazer em prepará-lo.

Uma simples omelete, se feita com prazer, no capricho e com cuidado e algumas ervas, deixa de ser um prato de roça daqui e se transforma em uma iguaria de cuisine française.

E, também importante: ter alguém para compartilhar esses pratos…

 

É uma alquimia verdadeira. Acho que é mais fascinante do que transformar pedra em ouro – porque ouro você encontra no fundo de qualquer riacho, embaixo de muita terra, mas uma comida com C – maiúsculo – poucas pessoas sabem fazer.

Et voilà, bon appétit! 

*(Anthelme Brillat-Savarin, 1755-1826)