Nostalgia

Nostalgia é saudade do que vivi, melancolia é saudade do que não vivi.(Carlos Heitor Cony)

 

Quantas vezes abro minhas caixas de e-mails esperando um – o qual nem sei de quem viria, nem o que falaria, mas um e-mail que enchesse minha alma de alegria.

Nunca vem.

Quantas vezes espero ouvir tocar o telefone na certeza ansiosa de é alguém para dar uma boa notícia – alguém que não sei quem seria, nem sobre o que falaria, mas que fosse como um sol num dia frio.

Nunca toca.

Quantas vezes começo o dia na certeza que algo extraordinário há de acontecer, que transforme minha vida como num sonho mágico.

Nunca acontece.

E assim vivemos: sempre esperando algo maravilhoso que nunca chega.

Começamos a ter saudade do que nunca vivemos, vontade de voltar a lugar onde nunca fomos.

E uma profunda tristeza vai crescendo dentro de nós, tomando conta de tudo e apagando as luzes da alegria.

Perdemos a vontade de tudo, quando amanhece só queremos sumir, passar para debaixo da cama e ali ficar, quietinhos, no escuro, esquecidos do mundo.

Cada tarefa a cumprir é um calvário. Sorrir, comer, trabalhar, até mesmo pensar é penoso.

E como não podemos parar vamos nos arrastando vida a fora, carregando um peso incrível que não é nosso e nem sabemos porque temos de suportar.

Aí um dia, sem mais nem menos, um belo dia, quando acordamos ouvimos um sabiá cantando do lado de fora da janela.

Abrimos a janela e vemos um lindo sol lá fora, sorrindo para nós e nos convidando para a vida.

Leves, felizes, retomamos nossa vida, deixando para trás a nostalgia e a melancolia, que voltam então, cabisbaixas, para seus cantinhos, e ficam por ali esperando um dia em que estivermos distraídos para pularem de volta no centro de nossa vida e tomarem conta de tudo novamente.

 

Da morte

Dans l’Histoire des temps la vie n’est qu’une ivresse, la Verité c’est la Mort.

 

Não sou muito de pensar em morte, mas às vezes essa idéia vem e martela… 

Será que se percebe a aproximação da morte, ou só se encara a morte quando não tem mais jeito, quando ela realmente intercepta nossa trajetória por aqui? 

O que será que Jesus pensava enquanto caminhava rumo a seu calvário? Quando andei por lá, sentindo a emoção de pisar as mesmas pedras que meu Deus pisou, olhava para o chão do caminho entre o local do julgamento e da crucificação e essa idéia me martelava: o que Jesus pensava, será que ele realmente sabia da vida, da morte e da vida depois da morte? 

E quem morre de acidente, será que dá tempo de ver a morte chegar? Quem fica preso em um carro que cai no mar, que demora a morrer e não pode se salvar, o que será que pensa? 

Os passageiros dos aviões que caem – quase sempre à noite, em locais ermos, escuro total – será que eles vêem que já estão de frente para o além, que não voltarão mais ao mundo onde viviam até então? 

As vítimas que morrem baleadas, em assaltos, em homicídios, em tiroteios que não participam, o tempo que leva entre o tiro, a entrada da bala e a perda da consciência – será que dá tempo para pensar em alguma coisa? 

E os suicidas? O que eles pensam depois que dão início à execução da própria morte, será que se arrependem, mas já é tarde demais para voltar atrás? 

Estranha a morte, não se encaixa em nada do mundo dos viventes…

Poesia da casa – A pena

A pena que leve voa,

solta, flutua no espaço,

é a mesma que transcreve

as mágoas todas que passo.

 

A pena que nada sente

é a pena que tudo escreve;

e que de nada tem pena,

mas todas as dores descreve.

 

Essa pena, todas as penas

e a dor que o outro sente,

ela apenas reescreve;

ela subscreve o que não sente,

 

mas a pena nunca mente:

porque a dor que ela escreve

é o poeta quem sente.

Soneto do Amor como um Rio

Hoje é dia de poesia. Dia de Vinicius de Moraes:

 

Este infinito amor de um ano faz
Que é maior que o tempo e do que tudo
Este amor que é real, e que, contudo
Eu já não cria que existisse mais.

Este amor que surgiu insuspeitado
E que dentro do drama fez-se em paz
Este amor que é o túmulo onde jaz
Meu corpo para sempre sepultado.

Este amor meu é como um rio; um rio
Noturno, interminável e tardio
A deslizar macio pelo ermo

E que em seu curso sideral me leva
Iluminado de paixão na treva
Para o espaço sem fim de um mar sem termo.

(Vinicius de Moraes)

Naufrágio

La mer / Qu’on voit danser le long des golfes clairs

A des reflets d’argent / La mer

Des reflets changeants / Sous la pluie

 

La mer / Les a bercés

Le long des golfes clairs / Et d’une chanson d’amour

La mer / A bercé mon cœur pour la vie

(Charles Trenet)

 

 

                                               Era um barco. Um simples e vulnerável barco, cortando as águas em busca de seu porto.

                                               Singrava as águas mansamente, sem pressa, sem querer chegar depressa. Apenas queria chegar.

                                               As águas, tépidas e amigas, o balançavam suavemente, brincando de resistir com suas marolas

                                               O céu a tudo assistia. Tentava clarear o máximo de tempo possível, dourando as águas ao amanhecer, e as prateando antes de jogar sobre elas o marinho noturno.

                                               E o barco, de dia singrava, de noite adormecia. Ao sabor das águas, confiante e sereno. Não receava tempestade, não temia o vento. Ele se bastava, não sentia solidão nem precisava de outro barco a lhe fazer companhia. Esperava as primeiras estrelas de cada anoitecer para conferir o rumo que o sol lhe dava. E, se a lua estivesse bem-humorada, logo surgia rastreando de prata toda a superfície visível.

                                               Tão sereno, tão valente, o pobre barco confiava em seu poder e não temia seu destino.

                                               Até o dia em outro barco, de repente, vier a cruzar sua travessia e desviar sua atenção. É a própria tragédia anunciada. O pobre barco não terá mais paz, buscando encontrar seu igual, e se sentirá só nessa imensidão.

                                               Sem paz, não poderá mais enfrentar ventos e procelas. E conhecerá o sofrimento. A ansiedade de esperar, de querer, de desejar.

                                               E, de repente, soçobrará.

                                               Meu coração, esse mar. Minha paixão, esse barco, que naufragou quando buscou outro barco.

 

 

Poesia da casa – Anoitecer

Na hora mágica do anoitecer,

quanto o encanto acontece

por já não ser mais ser dia

mas não é noite ainda

as cores e as luzes se misturam

numa indecisão de brilhos e reflexos vários

 algo se rompe dentro de mim

e também já não sei quem sou nem onde estou

e loucamente começo a te buscar

em cada minuto em cada segundo

em cada astro que surge no infinito

cada estrela que surge a brilhar me trazem teus olhos

 a lua ri de mim e mostra direções incertas

 todos os sons da natureza se transformam

pássaros já não cantam mais, recolhidos nos ninhos

 os gritos das crianças silenciam

e não se ouvem mais as buzinas dos carros

novos sons surgem a cada instante 

grilos invisíveis enchem o ar com seu cricrilar encantador

ao longe a primeira coruja pia, daqui outra responde,

e, num repente não  visto, o sol se retira completamente

e o escuro impera no céu e na terra.

Outras são as luzes que agora me guiam

E esses novos sons às vezes me apavoram

Mesmo assim sigo nessa procura insana

Que talvez já tenha perdido o sentido

Quanto mais eu te busco a cada noite,

mais eu não te encontro

e não me pergunte se e por que tenho tanta pressa em te ver

eu sei que tenho pressa,

muita pressa nesse encontro

porque como esse anoitecer que encerra mais esse dia

a noite dos tempos também está chegando

para encerrar o dia da minha vida