Fala a Loucura

Para dizer a verdade, não nutro nenhuma simpatia pelos sábios que consideram tolo e impudente o autoelogio. Poderão julgar que seja isso uma insensatez, mas deverão concordar que uma coisa muito decorosa é zelar pelo próprio nome.

De fato, que mais poderia convir à Loucura do que ser o arauto do próprio mérito e fazer ecoar por toda parte os seus próprios louvores? Quem poderá pintar-me com mais fidelidade do que eu mesma? Haverá, talvez, quem reconheça melhor em mim o que eu mesma não reconheço? De resto, esta minha conduta me parece muito mais modesta do que a que costuma ter a maior parte dos grandes e dos sábios do mundo. É que estes, calcando o pudor aos pés, subornam qualquer panegirista adulador, ou um poetastro tagarela, que, à custa do ouro, recita os seus elogios, que não passam, afinal, de uma rede de mentiras. E, enquanto o modestíssimo homem fica a escutá-lo, o adulador ostenta penas de pavão, levanta a crista, modula uma voz de timbre descarado comparando aos deuses o homenzinho de nada, apresentando-o como modelo absoluto de todas as virtudes, muito embora saiba estar ele muito longe disso, enfeitando com penas não suas a desprezível gralha, esforçando-se por alvejar as peles da Etiópia, e, finalmente, fazendo de uma mosca um elefante. Assim, pois, sigo aquele conhecido provérbio que diz: Não tens quem te elogie? Elogia-te a ti mesmo.

Não posso deixar, neste momento, de manifestar um grande desprezo, não sei se pela ingratidão ou pelo fingimento dos mortais.

É certo que nutrem por mim uma veneração muito grande e apreciam bastante as minhas boas ações; mas, parece incrível, desde que o mundo é mundo, nunca houve um só homem que, manifestando o reconhecimento, fizesse o elogio da Loucura.

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E porque, segundo o meu costume, não hei de vos falar mais livremente? Dizei-me, por favor: serão, talvez, a cabeça, a cara, o peito, as mãos, as orelhas, como partes do corpo reputadas honestas, que geram os deuses e os homens? Ora, meus senhores, eu acho que não: o instrumento propagador do gênero humano é aquela parte, tão deselegante e ridícula que não se lhe pode dizer o nome sem provocar o riso. Aquela, sim, é justamente aquela a fonte sagrada de onde provêm os deuses e os mortais.

Pois bem, quem desejaria sacrificar-se ao laço matrimonial, se antes, como costumam fazer em geral os filósofos, refletisse bem nos incômodos que acompanham essa condição? Qual é a mulher que se submeteria ao dever conjugai, se todas conhecessem ou tivessem em mente as perigosas dores do parto e as penas da educação? Se, portanto, deveis a vida ao matrimônio e o matrimônio à Irreflexão, que é uma das minhas sequazes, avaliai quanto me deveis. Além disso, uma mulher que já passou uma vez pelos espinhos do indissolúvel laço, e que anseia por tornar a passar por eles, não o fará, talvez, em virtude da assistência da ninfa Esquecimento, minha cara companheira? É preciso dizer, pois, a despeito do poeta Lucrécio, e a própria Vênus não ousaria negá-lo, que sem a nossa pujança e a nossa proteção, a sua força e a sua virtude languesceriam e se desvaneceriam completamente.

Foi, por conseguinte, dessa agradável brincadeira, por mim temperada com o riso, o prazer e a amorosa embriaguez, que saíram os carrancudos filósofos, agora substituídos pelos homens vulgarmente chamados frades, os purpúreos monarcas, os pios sacerdotes e os pontífices três vezes santíssimos. Finalmente, dessa brincadeira é que também surgiu toda a turba das divindades poéticas; turba tão imensa que o céu, embora muito espaçoso, mal pode contê-la. Mas, pouco amiga seria eu da verdade, se, depois de vos provar que de mim tivestes o gérmen e o desenvolvimento da vida, não vos demonstrasse ainda que provêm da minha liberalidade todos os bens que a vida encerra.

Que seria esta vida, se é que de vida merece o nome, sem os prazeres da volúpia? Oh! Oh! Vós me aplaudis? Já vejo que não há aqui nenhum insensato que não possua esse sentimento. Sois todos muito sábios, uma vez que, a meu ver, loucura é o mesmo que sabedoria. Podeis, pois, estar certos de que também os estoicos não desprezam a volúpia, embora astutamente se finjam alheios a ela e a ultrajem com mil injúrias diante do povo, a fim de que, amedrontando os outros, possam gozá-la mais frequentemente. Mas, admitindo que esses hipócritas declamem de boa-fé, dizei-me, por Júpiter, sim, dizei-me se há, acaso, um só dia na vida que não seja triste, desagradável, fastidioso, enfadonho, aborrecido, quando não é animado pela volúpia, isto é pelo condimento da loucura. Tomo Sófocles por testemunho irrefragável, Sófocles nunca bastante louvado. Oh! nunca se me fez tanta justiça! Diz ele, para minha honra e minha glória: “Como é bom viver! mas, sem sabedoria, porque esta é o veneno da vida”. Procuremos explicar essa proposição.

Todos sabem que a infância é a idade mais alegre e agradável. Mas, que é que torna os meninos tão amados? Que é que nos leva a beijá-los, abraçá-los e amá-los com tanta afeição? Ao ver esses pequenos inocentes, até um inimigo se enternece e os socorre. Qual é a causa disso? É a natureza, que, procedendo com sabedoria, deu às crianças um certo ar de loucura, pelo qual elas obtêm a redução dos castigos dos seus educadores e se tornam merecedoras do afeto de quem as tem ao seu cuidado. Ama-se a primeira juventude que se sucede à infância, sente-se prazer em ser-lhe útil, iniciá-la, socorrê-la. Mas, de quem recebe a meninice os seus atrativos? De quem, se não de mim, que lhe concedo a graça de ser amalucada e, por conseguinte, de gozar e de brincar? Quero que me chamem de mentirosa, se não for verdade que os jovens mudam inteiramente de caráter logo que principiam a ficar homens e, orientados pelas lições e pela experiência do mundo, entram na infeliz carreira da sabedoria. Vemos, então, desvanecer-se aos poucos a sua beleza, diminuir a sua vivacidade, desaparecerem aquela simplicidade e aquela candura tão apreciadas. E acaba por extinguir-se neles o natural vigor.

Por tudo isso, observai, senhores, que, quanto mais o homem se afasta de mim, tanto menos goza dos bens da vida, avançando de tal maneira nesse sentido que logo chega à fastidiosa e incômoda velhice, tão insuportável para si como para os outros. E, já que falamos de velhice, não fiqueis aborrecidos se por um momento chamo para ela a vossa atenção. Oh! como os homens seriam lastimáveis sem mim, no fim dos seus dias! Mas, tenho pena deles e estendo-lhes a mão. Não raro, as divindades poéticas socorrem piedosamente, com o divino segredo da metamorfose, os que estão prestes a morrer: Fetonte transforma-se em cisne, Alcion em pássaro, etc. Também eu, até certo ponto, imito essas benéficas divindades. Quando a trôpega velhice coloca os homens à beira da sepultura, então, na medida do que sei e do que posso, eu os faço de novo meninos. De onde o provérbio: Os velhos são duas vezes crianças.

(Elogio da Loucura – Erasmo de Rotterdam)

de mais Saudade

 

Lembranças doces que nos perseguem
Ausência de uma paixão que se esmaeceu no tempo
Presença constante da falta que alguém nos faz
Buscar no nada uma razão para a existência
Fazer da névoa da memória uma companhia
Olhar para as próprias mãos, agora vazias
Ainda com o perfume do amor compartilhado
De tudo que escorreu por entre nossos dedos
E não conseguimos reter em nossa vida,
Mas não tivemos jeito de tirar do coração.
Relembrar cada momento de doçura e encanto
Ouvir de novo a voz agora tão calada
Perder os contornos precisos e só ter um vulto
Como um barco que se afasta aos poucos do cais
Sentir de novo toda a ternura repartida
Ver caírem, uma a uma, as pétalas do amor
desfazendo a rosa vermelha da paixão
Saudade é o nome da solidão infinita
É a distância que insiste em ficar perto
É a certeza da perda, do não ter mais
É saber que o sonho acabou para sempre
É desejar morrer docemente dentro desse vazio

Depois dos 40 anos não há depois…

Depois dos 40 anos não há depois, é tudo agora.

 

Depois dos 40 anos, o pensamento feminino muda, desembaraça. O sexo não é mais performance, exaustão, é fazer o que se gosta e do jeito que gosta. É aproveitar dez minutos com a intensidade de uma noite inteira, é reconhecer o rosto do próprio desejo no primeiro suspiro, é optar pela submissão por puro prazer, sem entrar na neurose da disputa ou do controle.

A mulher de 40 não diminui o ritmo da intimidade. Pode ler um livro com a intensidade de uma transa. Pode assistir um filme com a intensidade de uma transa. Pode conversar com a intensidade de uma transa. Ela não tem um momento para a sensualidade, a sensualidade é todo momento.

Tomar o café da manhã não é apenas um desjejum, tem a sua identidade, o seu ritual, um refinamento da história de seus sabores. Tomar o café da manhã com uma mulher de 40 anos é participar de sua memória, de suas escolhas.

Ela não precisa mais provar nada. Já sofreu separações, e tem consciência de que suporta o sofrimento. Já superou dissidências familiares, e tem consciência de que a oposição é provisória. Já recebeu fora, deu fora, entende que o amor é pontualidade e que não deve decidir pelo outro ou amar pelos dois.

A mulher de 40 anos, cansada das aparências, cometerá excessos perfeitos. É mais louca do que a loucura porque não se recrimina de véspera. É ainda mais sábia do que a sabedoria porque não guarda culpa para o dia seguinte.

A beleza se torna também um estado de espírito, um brilho nos olhos, o temperamento. A beleza é resultado da elegância das ideias, não somente do corpo e dos traços físicos.

Encontrou a suavidade dentro da serenidade. A suavidade que é segurança apaixonada, confiança curiosa.

O riso não é mais bobo, mas atento e misterioso, demonstrando a glória de estar inteira para acolher a alegria improvisada, longe da idealização, dentro das possibilidades.

Não existe roteiro a ser cumprido, mapa de intenções e requisitos.

Há a leveza de não explicar mais a vida. A leveza de perguntar para se descobrir diferente, em vez de questionar para confirmar expectativas.

Ser tia ou mãe, ser solteira ou casada não cria angústia. Os papéis sociais foram queimados com os rascunhos.

A mulher de 40 é a felicidade de não ter sido. É a felicidade daquilo que deixou para trás, daquilo que negou, daquilo que viu que era dispensável, daquilo que percebeu que não trazia esperança.

Seu charme vai decorrer mais da sensibilidade do que de suas roupas. O que ilumina sua pele é o amor a si, sua educação, sua expressividade ao falar.

A beleza está acrescida de caráter. Do destemor que enfrenta os problemas, da facilidade que sai da crise.

A beleza é vaidosa da linguagem, do bom humor. A beleza é vaidosa da inteligência, da gentileza.

Depois dos 40 não há depois, é tudo agora.

(Texto de Fabrício Carpinejar – Publicado na Revista Isto É Gente – Março de 2014 p. 50 – Ano 14 Número 706)

 

 

Mês de agosto

Agosto. Mês das pipas. Com tanto vento sempre foi o mês preferido dos pipeiros. Esperávamos ansiosos os dias de vento para então empinarmos nossos papagaios e sonharmos nossos sonhos de altos voos.

Agosto, chamado também de mês do cachorro louco. Até hoje não encontrei nenhuma explicação no mínimo razoável para essa crendice boba.

Agosto, mês do desgosto. Seja por ser a data de partida das caravelas, na época das grandes navegações, seja por uma sucessão de infaustos acontecimentos políticos que se deram coincidentemente nesse mês, seja pela passagem da constelação de Leão, que se tornava visível nessa época e os romanos temiam que fosse um dragão que passeava no céu… mas nada comprovado que esse mês traga mais gosto ou desgosto do que os outros onze…

Nada tenho a favor ou contra o mês de agosto. Mas, não nego, esse mês me desperta um prazer especial – ver os ipês em flor.

Apaixonada que sou por plantas em geral, o ipê ocupa um lugar especial em minha predileção.

Assim, quando fiz minha primeira casa, plantei dois ipês amarelos marcando o caminho que levava à piscina. E, no fundo da casa, oito ipês, alternando roxos e amarelos, ao longo da calçada.

E esperava, ansiosa, as primeiras floradas de agosto.

Dia 1º de agosto era aniversário de minha mais que querida Maria Hortencia (quanta saudade, quanta tristeza desde aquele trágico dia 21 de maio).

Ela passava na minha casa para o café – servido no balcão da cozinha, seu lugar preferido – e para conferir se o ipê havia florido em homenagem a seu aniversário.

Ainda que uma singela florzinha, no dia 1º de agosto, um dos ipês do jardim amanhecia com seu ponto amarelinho.

Era o presente de aniversário da Maria Hortencia.

Depois de sua precoce partida os ipês amarelos continuaram a homenagem. Todo dia 1º de agosto amanhecia com a primeira flor aberta no ano. E a saudade dela doía mais fundo nesse dia, no abraço que não podia ser dado.

O tempo passou. Primeiro ela se foi para o outro lado do espelho. Depois de algum tempo, fui embora da cidade, passados alguns anos, os ipês também morreram.

Ainda há agosto, ainda há ventos. Mas já não empino pipas nem tenho ipês no quintal.

Conversa com meu avô- nº 08

Olá, Vô, tudo certo? Tenho certeza que aí está bem melhor do que aqui. O senhor não entendeu por que teremos mais manifestação neste final de semana?

Ok, vou tentar explicar.

O senhor já sabe que o parlamento aqui no Brasil está abaixo da linha da vergonha alheia. Ontem mesmo um deputado do partido do Presidente da República foi expulso. Mas era um sujeito em quem o senhor jamais votaria, sabe aqueles tipos que aparecem numa campanha, abusam da ignorância atávica da população para conseguir votos, e depois grudam na cadeira pior que marisco na pedra, só sai na ponta da faca? Pois é…

O Presidente da República está indo bem, fazendo tudo direitinho. Já falei para o senhor que ele é um homem simples, de origem humilde, fortes princípios morais e familiares. Ele estudou, fez duas faculdades, Capitão Paraquedista do Exército, parlamentar há mais de vinte anos sem nenhum escândalo de corrupção, propina, petrolão, mensalão, nada disso. Mas não tem rapapés nem papas na língua. Com ele é bateu-levou. Da mesma forma que se comportava antes de ser eleito Presidente da República. Isso incomoda muita gente. Realmente não é o melhor comportamento para quem ocupa cargo tão importante, mas não chega a ser um defeito que acarrete necessidade de afastamento.

Mesmo porque ele é assim e é sincero. Se os jornalistas não fossem burros e não fizessem perguntas tão cretinas, aproveitassem as oportunidades de se aproximarem do Presidente para conversas inteligentes, acredito que o nível das respostas seria outro. Ele deve pensar que pergunta idiota merece resposta à altura.

Ele nomeou um ministério de primeira linha, conforme eu já disse ao senhor. Todos se dedicando de verdade para tirar o Brasil desse atoleiro desgraçado que o pt o deixou.

Daí vem um deputado profissional – o tal Paulinho, originário dos movimentos sindicais, ou seja, nunca trabalhou, mas sempre viveu bem, e diz que eles – os parlamentares – devem fazer todo o possível para atrapalhar o governo, que é a única forma de impedir que o Presidente faça seu sucessor.

Veja o nível de deputados federais que temos, Vô, como um país pode voltar a crescer, readquirir estabilidade econômica, se o Congresso quer que tudo continue a mesma porcaria de antes????

Os presidentes das duas casas – câmara e senado, são dois em quem não podemos confiar. Acusados de envolvimento em negociatas, não têm um pingo de senso cívico, só pensam em encher os bolsos. E por isso tantos problemas.

E, para coroar toda essa lambança, temos o pior supremo tribunal federal da história do Brasil.

Verdade, Vô, onze inaptos.

Só se ouve falar em passagens de primeira classe, hotéis cinco estrelas pelo mundo todo para eles e esposas. Lagostas e vinhos premiados na licitação do supremo. Milhares de servidores para onze reizinhos. Nem a própria cadeira eles puxam. Tem um funcionário atrás da cadeira de cada um para puxar e empurrar a cadeira quando a excelência vai se sentar.

Outro para vestir a capa neles, provavelmente quando vão ao banheiro tem… OK, Vô, vou parar por aqui para não ficar feio.

Como se não bastasse toda essa vergonhosa situação, o supremo resolveu que vai administrar o país.

Começou a desbordar de suas funções de guardião da Constituição (aquela porcaria de 1988 que não serve para nada) e passou a violar o sistema de acordo com interesses pessoais e partidários.

Agora eles passam por cima dos princípios legais e analisam os atos administrativos no seu mérito, conveniência e oportunidade.

Um bandido, que nem é brasileiro, casado com um deputado (Vô, agora isso é comum, é uma nova forma de família), o qual herdou o mandado de um eleito que gostava de cuspir nos outros e fugiu do país num imbróglio muito mal explicado – esse sujeito soi-disant jornalista, contratou uns piratas cibernéticos e passou a divulgar conversas privadas de autoridades, obtidas ilicitamente.

O senhor acredita, Vô, que o supremo aceitou essa prática criminosa e agora quer punir Juízes de Direito e Procuradores da República? Quando uma conversa da mulher do ex-presidente, aquele que está preso, com o filho, xingando o povo brasileiro, que foi gravada mediante autorização judicial veio a público foi o maior auê. Que conversas telefônicas eram sagradas, que era invasão de privacidade, que não podia ser divulgado, quase reinstituíram a pena de morte no Brasil por causa do palavreado chulo e desrespeitoso da ex-“primeira-dama”…

Agora um profissional invade a privacidade de autoridades e passa a divulgar mensagens privadas e os sinistros do supremo acham que tudo bem. O crime está nas conversas, e não na violação da privacidade, como se estivéssemos vivendo no nazismo ou no comunismo de meados do século passado…

Pois bem, Vô, esse é o panorama. Por isso essa nova manifestação.

Há inúmeros pedidos – sérios, consistentes – de impeachment de alguns ministros do supremo. O presidente do senado engaveta todos (tal como o alagoano fazia) e nenhum anda.

O stf está contra o povo, acreditando que a toga os protege.

Então o povo brasileiro, que acordou há algum tempo, tirou uma presidente que não servia, apoiou as investigações dos desmandos e da corrupção que estavam destruindo o país, entendeu que chegou a hora de agir de novo.

No dia 25 de agosto – simbolicamente aquele em que comemoramos no Brasil o Dia do Soldado (foi fixado esse dia por ser o nascimento do patrono do Exército, Luís Alves de Lima e Silva, conhecido por Duque de Caxias – lembra-se da estátua dele, na Praça Princesa Isabel?) – teremos a manifestação. Com apoio, é óbvio, dos militares e também de todos os brasileiros, ou melhor, Brasileiros, aqueles que se vestem de verde-e-amarelo e se dispõem a lutar pela recuperação do país.

A pauta será o impeachment dos ministros do stf, revogação do texto da Lei de Diretrizes Orçamentárias e outros assuntos. Talvez na próxima a pauta seja a extinção do stf e o fechamento do congresso…

É, Vô, o povo acordou. E esses caciques e coronéis não dormem mais…

Viajando com os olhos…

Hoje estou com muita preguiça de escrever.

Vim até o escritório, comecei a ver fotos antigas nos arquivos de imagens.

E viajei. Viajei pelos lugares conhecidos, onde já estive e me apaixonei perdidamente.

Sempre amei Paris. Desde antes da primeira vez em que caminhei por suas ruas e avenidas, como se estivesse estado sempre lá. Há uma Paris dentro de mim e estou em casa naquela cidade mágica.

Assim foi com Praga. Quando cheguei lá, já a conhecia, ela já vivia em mim. Outras cidades despertam a admiração – por exemplo, Budapeste, a cidade mais bonita que já vi. Mas não a sensação de pertencer àquele lugar.

Durante muitos anos tive uma amizade forte com uma freira italiana, Irmã Silvana, a quem dedico imenso amor.

Ela sempre me dizia que eu pensava conhecer lugares bonitos, mas só poderia dizer que fui onde é realmente belo, depois de ir ao sul da Itália. Eu ria. Amava o norte. O que poderia ser mais bonito do que Cortina d’Ampezzo, no Veneto? ou de tudo na Toscana? ou do Lago di Como, na Lombardia? Ou Lago da Garda, no Trentino-Alto Adige? Ou todos os caminhos do Vale d’Aosta? Cada lugar mais maravilhoso do que o anterior…

Irmã Silvana tinha razão. Eu só conheci a beleza intensa quando cheguei no sul. E conheci a Campânia. A começar de Nápoles. A cidade e a natureza que a circunda. E Capri. E a Costiera, a Península Sorrentina e tudo o que os olhos conseguem absorver de beleza. A mão de Deus está no sul da Itália. E, no meio de tanta beleza, minha pequenina Sorrento. Eu conhecia aquelas ruas, já andara por aqueles becos, muito antes da primeira vez em que lá estive.

Eu já sentira o perfume dos limoeiros em flor, já sentara nos penhascos olhando o Vesúvio, desde muito antes de chegar nesse mundo.

E, confesso, é tanta beleza que a vontade é ir e nunca mais voltar.

Há lugares lindos em todos os países, em todos os cantos do mundo. Menos na Itália. Procure de Manarola a Alberobello, passando por todos os lados e todas as ilhas: lá não “há lugares lindos”. Lá – a Itália – é simplesmente o lugar mais bonito do mundo.