Amanhecer

 

 

Alvorecer

A hora mágica em que a madrugada se esvai

E o dia ainda não chegou

As cores mais lindas da natureza se exibem

Orgulhosas entre a primeira claridade e os

Primeiros raios de sol.

A aurora, clara como a lua, se aproxima

E põe fim, então à madrugada.

 

Madrugada

Quando os pensamentos se encontram

E o poeta sofre e chora entre seus versos

Momento em que o mundo, buscando a paz, respira tranquilo

Não há cores. Apenas o escuro do céu e algumas

Luzes de estrelas que teimam em brilhar,

Procurando amantes desgarrados

Que ainda estão nas ruas

 

Madrugada

Fim das noites de tristeza ou de alegria

Fim das festas e dos velórios

A troca dos turnos dos dias

Que se revezam com noites imensas

Tudo faces da mesma moeda

Calmaria no silêncio da natureza.

 

Alvorecer.

Instante único em que a madrugada se veste de branco

E traz de volta a esperança da vida

O último momento antes do raiar do dia

A alvorada dos pássaros em algazarra

O despertar da vida até então em repouso

A vida voltando a acontecer

E a saudade da madrugada que se foi

 

Pelo dia dos Pais – Mario Quintana

As Mãos do Meu Pai

 

As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuis 
sobre um fundo de manchas já cor de terra 
— como são belas as tuas mãos — 
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram 
na nobre cólera dos justos… 

Porque há nas tuas mãos, meu velho pai, 
essa beleza que se chama simplesmente vida. 
E, ao entardecer, quando elas repousam 
nos braços da tua cadeira predileta, 
uma luz parece vir de dentro delas… 

Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente, 
vieste alimentando na terrível solidão do mundo, 
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento? 
Ah, Como os fizeste arder, fulgir, 
com o milagre das tuas mãos. 

E é, ainda, a vida 
que transfigura das tuas mãos nodosas… 
essa chama de vida — que transcende a própria vida… 
e que os Anjos, um dia, chamarão de alma… 

(Mário Quintana, in “Esconderijos do Tempo”)

 

Hoje é dia de poesia – Victor Hugo – A ponte

Diante de mim, a escuridão. A voragem
Que não tem cimo e que nem sequer tem margem
Lá estava, sombria, imensa; nada nela mexia.
Perdido no mundo infinito eu me sentia.
Ao longe, através da sombra, impenetrável véu,
Entrevia-se Deus, pálida estrela no céu.
Clamei: – Ó alma, alma minha! eu precisava,
Para atravessar o abismo cujo fim não vislumbrava,
E para durante a noite até Deus eu ascender,
De construir uma ponte e em mil arcos a estender.
Quem o conseguirá? Ninguém!ó dor! tormento!
Chora! – Um fantasma branco ergueu-se no momento
Em que à sombra um olhar de temor eu deitava.
A forma de uma lágrima esse fantasma mostrava;
Tinha uma fronte de virgem e duas mãos de criança;
Lembrava um lírio que toda a brancura alcança;
As suas duas mãos juntas acendiam uma luz.
Apontou o abismo onde tudo a pó se reduz,
Tão fundo que nem o eco aí segue a sua lei,
E disse-me: – Se quiseres, a ponte construirei.
Para o desconhecido ergui meus olhos do chão.
-Como te chamas? perguntei. Respondeu: – A oração.

É assim que é

Quem vai dizer ao coração, Que a paixão não é loucura… (Oswaldo Montenegro)

 

 

O que é mais bonito – ver a montanha da planície ou escalar a montanha e ver a planície lá do alto?

Acredito que a montanha vista da planície é a visão mais linda que se pode ter da montanha. Mas escalar a montanha dará como prêmio, a vista da planície e do horizonte.

São ângulos completamente diferentes. Não é possível comparar.

Deitar na grama e olhar o céu, o leve movimento das nuvens, fitar o azul profundo. Não é a mesma visão que se tem de quando se está “no céu” – as nuvens são diferentes. A Terra não é de uma só cor.

Quando um olha para o mar, vê o mesmo mar que o outro está olhando? Ou enquanto um olha as espumas, o outro só vê a linha que o separa do céu?

Assim é a vida. O que um vê não é o que o outro vê. Mesmo que estejam, lado a lado, olhando para o mesmo objeto.

A experiência, as dores, os amores, as frustrações e as alegrias de cada um o faz ver tudo de forma personalizada. Cada um vê o que olha e não pode enxergar o que o outro vê.

Por isso tão difícil a convivência.

Não se pode esperar receber o que se dá – seja amor, seja atenção, seja carinho. E nunca se sabe o que o outro espera.

Coisas indizíveis, que se quer sejam dadas por mera adivinhação.

E a quebra das expectativas aumenta a cada dia.

As pontes se vão na torrente das pequenas desilusões, que, unidas, fazem caudaloso rio.

As portas se fecham.

E a distância se impõe.

Como a nuvem que se dissipa lenta e quase imperceptivelmente, a paixão se esvai. E um dia se percebe que todo aquele tsunami de sentimentos desapareceu, ficou só o fundo azul do céu, que já escurece no prenúncio da noite existencial.

Em busca de ser feliz

Era tanta tristeza, que um dia a vida me falou: “é hora de ser feliz! Venha!!!!!”

E fomos em busca da felicidade.

“Para se sentir feliz, em primeiro lugar é preciso ter paz”, disse ela. Escalamos montanhas, atravessamos desertos e vimos o sol nascer na África.

Vimos o sol se pôr no Oceano Pacífico.

Vimos a lua entre as montanhas dos Andes.

Ficamos no branco eterno do Mont Blanc.

No silêncio do voo do Condor.

E encontramos a paz.

Com o coração em paz era hora de continuar a busca pela felicidade.

“Para se sentir feliz, também é preciso ter os olhos preenchidos de beleza”, ela disse.

Fomos para a praia ao amanhecer. Caminhamos na areia ainda úmida. Quando o sol se levantou e aqueceu a imensidão de água, ali mergulhamos e nos deixamos levar pelo mar, doce amigo tão salgado.

Os olhos se enchiam das maravilhas daquele mar sem fim. Era hora de partir e ver a natureza pura, as cores da terra e das matas, e “l’aurora di bianco vestita”.

“Para ser feliz é preciso ouvir a música da natureza”, ela falou.

Fomos para floresta. O barulho dos animais noturnos, o chilrear dos grilos e os gritos das corujas, a algazarra dos animais do final da noite e então o canto dos pássaros no alvorecer. A alma estava em paz…

“Para ser feliz é preciso dançar”, ouvi então.

E fomos para a Grécia onde dançamos o hasapiko, percorremos toda a costa do Mediterrâneo, entramos na Itália, aprendemos as danças napolitanas, fomos para o norte, dançar com os cossacos e depois à Baviera aprender a dançar holzhacke.

Chegamos às Américas, aprendemos dançar rumba, samba, tango, salsa, bolero e mambo…

E enquanto dançávamos, cantávamos, ríamos e nos divertíamos.

E foi tanta alegria, nessa busca da felicidade, que eu me esqueci porque estava triste.

Como eu te amo

Eu te amo

sem orgulho

sem esperança

Como o mar ama a montanha

sem jamais a alcançar

e, por suas ondas, incessantemente,

tenta chegar a seus pés

 

Eu te amo

Com desvario

Com insanidade

Como a lua ama o sol

Sem jamais encontrá-lo

E sem temer o abraço fatal

Que os fundiria irremediavelmente

 

Eu te amo

Sem vaidade

Sem egoísmo

Com um amor que não tem brio

que sufoca a dignidade

e se basta a si mesmo

 

Eu te amo

Com loucura

Com paixão

Nesse doce devaneio

Que é apenas insanidade

Esse constante delírio

De inquieta alucinação