Velho ou novo?

O segredo da mudança está em focar toda sua energia, não em lutar com o velho, mas em construir o novo. (Socrates)

 

Será tão fácil como prega o filósofo? Quando temos a certeza que o velho já deve ser deixado de lado, não compensa mais lutar por ele – ou com ele?

Sejam conceitos, trabalhos, relacionamentos, amores ou pessoas?

Quando o que temos na mão se torna velho? O que é ser velho?

Essas questões são suficientes para atormentar a mente de qualquer vivente. Porque o que amamos nunca se torna velho nem ultrapassado.

O que nos dá prazer nunca é velho.

O trabalho que nos sustenta não pode ser deixado de lado.

As pessoas que estão à nossa volta devem ser preservadas, mais valiosas quanto mais o tempo passa…

Construir o novo é, sim, uma necessidade. Porque tudo se renova.

Nossa missão é exatamente construir – ou possibilitar que seja construído – o mundo novo que deixaremos quando partirmos.

Mas equilibrando com a permanência do que já está aí e ainda é positivo, é útil, é fonte de amor. Acredito que o grande problema do mundo atual é exatamente essa ideia do descartável – se faço ou tenho (ou posso ter) outro mais novo, deixe o velho largado, desfaça-se dele…

Não. Não o deixe, mas tempere-o com o novo. Esse é o segredo.

Texto de Piátitsa Melo – Se eu escrevesse

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Se eu escrevesse tudo que me vai na alma, tu irias ler e reler, mas também irias pensar que eu estava louco e eu no meu silêncio diria: será que sou eu que estou louco ou és tu que estás a enlouquecer por eu ter aflorado, em ti, desejos adormecidos e delírios de prazer.

Se eu escrevesse tudo que me apetece escrever, começavas a transpirar e não ias aguentar tanto deleito, só com o prazer de ler.

Se eu escrevesse o que me apetece escrever, todos os dias ias ler, sem ninguém se aperceber o que é que te excita tanto e porque é que gostas tanto de ler.

Se eu escrevesse todos os devaneios, que contigo anseio ter, teu ser se transcendia em desejos desmedidos e tua força cedia ao domínio dos sentidos.

Se eu escrevesse tudo que a minha alma quer que eu escreva, sobre o que contigo desejo partilhar, não chegavam mil páginas, para descrever a minha forma de amar.

Se eu escrevesse tudo que imagino contigo, era o maior drama de amor, algum dia escrito, mas era triste e ias chorar, porque não sobrava tempo para te amar…

Melhor mesmo, é não escrever, e se um dia quiseres saber o que eu tenho para te dizer, eu o prometo fazer, cada vez que te esteja a amar… 

Desejo-te uma boa noite e sonhos de amor intenso comigo, para te ires habituando, à minha forma de amar…

Quando for partir

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Deixe todo o peso, todo o excesso para trás e parta

Tudo o que faz mal, tudo o que angustia deve ficar

Não leve a poeira de antigas paixões já vividas

Nem a tristeza de tudo que morreu antes de florescer

 

Não leve nada do que nunca mais usará na vida –

Sejam amizades vencidas, amores rompidos, roupas apertadas,

Cadeiras desconfortáveis, louças quebradas, perfumes usados.

Faça uma nova bagagem, leve e prazerosa, do que é necessário

 

Leve apenas essa alegria e essa sede infinita de viver que você tem

Leve ainda as cobertas que sempre afastaram o frio e aqueceram sua alma

E também as lembranças de todos os momentos felizes que viveu

 

Se é para uma nova vida, a partida é um verdadeiro rompimento.

Lembre-se de deixar livre um espaço para um novo amor apaixonado

E faça, com toda sua força, desse momento um renascimento.

Dia de poesia – Mia Couto – O amor, meu amor

 

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Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
e em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

Texto de Vinícius de Moraes – Ausência um

Eu deixarei que morra
em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei… tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

Minha Bandeira

Bandeira do Brasil / Ninguém te manchará
Teu povo varonil / Isso não consentirá

Bandeira idolatrada / Altiva a tremular
Onde a liberdade / É mais uma estrela a brilhar.

(Fibra de Herói – Música de Teófilo De Barros Filho e Cesar Guerra Peixe)

 

Dia de faxina de documentos no escritório.

Olho pela janela. Vejo a Bandeira Nacional.

Não na sua tradicional forma retangular de fundo verde, sobreposto por um losango amarelo e um círculo azul, no meio do qual está atravessada uma faixa branca com o lema nacional em letras maiúsculas verdes, na proporção 7:10.

Mas outra forma, que a natureza traz à minha janela:

 

Contra o céu azul malhado de nuvens brancas, uma sibipiruna coloca estrategicamente sua folhagem de um verde forte, salpicado de delicadas flores de intenso amarelo.

Fico a olhar longamente esse enquadramento. E vejo a Bandeira do Brasil.

A verdadeira.

Aquela que representa um país que foi às ruas para evitar que nossa bandeira se tornasse vermelha, sendo substituída pela bandeira de um partido esquerdista e oportunista, que estava destruindo a economia da nação e tirando a dignidade de um povo.

Não sei o quanto investi nessa luta. Não sei quantas centenas de e-mails e mensagens. Não sei quantas dezenas de vezes ouvi dos céticos e omissos “Ah, isso não vai dar em nada…”. Não sei quantos milhares de passos caminhei pela Avenida Paulista, sol ou chuva, cansada ou disposta, doente ou sã.

Mas estava lá. Não ganhando, mas até mesmo pagando. Porque meu ideal era maior que qualquer desânimo, qualquer dificuldade, qualquer perigo. E, nesses dias, não apenas a Paulista ou São Paulo era verde e amarelo, mas um país de dimensões continentais se revestia com suas cores e se transformava em imensa Bandeira viva.

Fui pioneira ao cunhar a expressão “A minha Bandeira jamais será vermelha”, que se transformou em “A nossa Bandeira jamais será vermelha”. Sinto orgulho quando a ouço nos quatro cantos do país.

Foi uma grande alegria ver que o país – pela primeira vez em sua História – se uniu em um objetivo comum, de recuperação, reconstrução e democracia. Um povo que no máximo se unia para torcer em jogo de copa do mundo de futebol.

É uma alegria ver que a mobilização não acabou, o povo não se dispersou.

Conseguimos, como efeito colateral, despertar a consciência política. A população se interessa pelo que acontece na vida do país. Se une para pedir, reclamar, boicotar, agir para melhorar. E isso é lindo. Muito lindo. Isso é o pleno exercício da cidadania.

Chegamos lá? Claro que não. Ainda falta muito.

Mas o primeiro passo foi dado, e, como em uma maratona, ninguém mais conseguirá segurar nossa caminhada rumo ao Brasil Verde-e-Amarelo que sonhamos. Agora é realidade.