Escritor

A definição de escritor é banal: escritor é quem escreve.

Hoje, Dia Nacional do Escritor, medito sobre ser escritor. Porque não se está escritor – ou se é ou não se é escritor. Não dá para ser mais ou menos escritor. Não é possível ser escritor apenas às vezes.

Escrever está no sangue. Corre nas veias, invade todos os sentidos, inunda nosso ser e somos praticamente obrigados a deixarmos qualquer outra atividade para escrevermos.

Cada escritor tem uma maneira toda peculiar de colocar no papel – ou na tela – suas palavras. São muitas as histórias dos hábitos – alguns bens esquisitos, como, por exemplo, escrever imerso em um barril de água ou uma banheira; só escrever completamente nu; escrever ouvindo trechos de óperas; escrever sentado no chão… – mas, em comum, todos têm a paixão que leva a escrever.

Inspiração, criatividade, fantasia, seja lá o nome que se possa dar ao impulso que leva a transmitir, por escrito, algo que se traz na alma, sem esse ímpeto não existe escritor.

Complicado responder quando nos fazem a clássica pergunta: “de onde você tira inspiração?”, porque não “tiramos” inspiração de nenhum lugar.

Apenas, dentro de nós, surge uma ideia ou uma outra pessoa que pede para sair. Precisamos ajudá-la a ganhar a liberdade. Tornar-se um texto – poesia, crônica, conto, romance, qualquer forma de escrito – e lançar-se ao mundo.

Quando temos um romance começado, por vezes o deixamos de lado. Os personagens surgem em nossos pensamentos, ganham vida própria, reclamam que estão abandonados, e temos de voltar ao texto e dar novo impulso. Escrevemos o nascimento dos personagens, mas eles vivem a própria vida e muitas vezes tomam outro rumo totalmente diverso daquele que a princípio imaginávamos que teriam.

Não há dúvida que ler bastante ajuda a ser escritor, mas não faz o escritor. Ter um bom dicionário também é grande ajuda, mas não basta para ser escritor. Escrever é sair de dentro de si e assumir múltiplas personalidades, é mostrar ao mundo seus mais íntimos pensamentos e sentimentos. Desnudar sua alma.

Não é possível tornar-se um escritor. Já se nasce escritor, ainda que não se escreva ou que se demore a começar a escrever. Não há curso, faculdade, apostila, nada que possa levar uma pessoa a ser um escritor. Porque a escrita nasceu dentro das veias.

O impulso de escrever é irresistível. Há uma necessidade física de escrever, não é possível viver com todas as frases, todos os textos dentro do cérebro.

Não é preciso ritual nem preparação. Necessários uma superfície – qualquer uma – e um objeto que a marque. E 26 letras, alguns sinais e pontos. Está pronto o arsenal do escritor.

Porque a escrita, essa não se aprende em nenhum lugar, não tem para comprar, não tem como vender. Vem do ponto mais fundo das memórias, dos sentimentos acumulados, de algum lugar inacessível de dentro do ser. Quando tudo isso excede a capacidade de armazenamento, é preciso escrever.

Escritor é quem tem a sensibilidade de deixar outros viverem dentro de si.

Escrever é o transbordar das emoções.


Escrevendo – ou lendo – 2020

Por que foi que cegamos. Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão. Queres que te diga o que penso. Diz. Penso que não cegamos, penso que estamos cegos. Cegos que veem. Cegos que, vendo, não veem. (Ensaio sobre a cegueira, José Saramago)

Ler junto - A Crítica de Campo Grande Mobile

Se, atualmente, alguém me perguntar sobre um livro que explique ou retrate nossa realidade, terei dificuldade em apontá-lo.     

Talvez faça um “mix”.     

O mundo foi alterado. O nosso “modus vivendi” desapareceu para sempre. Depois de escrita a História, alguns fatos sempre são destacados como causadores de mudanças graves e notáveis. Na minha opinião, os futuros historiadores grafarão “depois do atentado das torres gêmeas” que foi o primeiro fato mais catalisador do curso da História depois do final da Segunda Guerra. Teve consequências no mundo todo.

Alguns anos de neurose com relação à segurança, sustos, e então vêm os “naufrágios com morte maciça dos refugiados e imigrantes no Mar Mediterrâneo”, sacudindo o mundo de seu comodismo e mostrando o horror que acontecia do outro lado da civilização.

A par disso, terríveis e violentas manifestações da natureza causando mortes e danos.     

E, depois, eles dirão: podemos apontar como fato que marcou o fim de uma era, a “pandemia pela peste chinesa no ano de 2020 – o ano que não existiu”.     

Quando o mundo parou, os aviões pousaram definitivamente, as pessoas foram trancafiadas em suas casas, passaram a andar mascaradas em todos os países do mundo, inegavelmente algo mudou. E para bem pior.

Olhando para trás, não só estes últimos 129 dias em que fomos brutalmente atingidos, mas desde cerca de duas décadas atrás, quando o Brasil começou a caminhar sem rumo, para chegar nesse caos, entendo que posso apontar alguns autores que viram ou previram a realidade atual.

Tudo começa com “A revolução dos bichos”, de George Orwell. Difícil acreditar que foi escrito na década de 40, por um inglês, e não no Brasil depois de 2003.       

Passamos por Tomasi de Lampedusa, com toques de Marcel Proust e Leon Tolstói.     

A situação política vai-se complicando. Entramos em Jorge Amado e Eça de Queiroz.      

Aldous Huxley e seu “Admirável Mundo Novo” surgem no horizonte próximo.     

De repente, simultaneamente somos jogados nas páginas de Garcia Marquez, por um neo-alienista de Machado de Assis, e passamos a viver um pesadelo de Franz Kafka, com pinceladas de Albert Camus, Daniel Defoe e José Saramago.     

E, diante de tudo isso, acredito que voltamos a Orwell, e, que, finalmente, “1984” chegou.     

Basta escolher. Todos nos trazem a 2020.

Dia de poesia – Florbela Espanca – Conto de Fadas

Florbelaespanca Instagram posts (photos and videos) - Picuki.com

Eu trago-te nas mãos o esquecimento

Das horas más que tens vivido, Amor!

E para as tuas chagas o unguento

Com que sarei a minha própria dor.

Os meus gestos são ondas de Sorrento…

Trago no nome as letras de uma flor…

Foi dos meus olhos garços que um pintor

Tirou a luz para pintar o vento…

Dou-te o que tenho: o astro que dormita,

O manto dos crepúsculos da tarde,

O sol que é d’oiro, a onda que palpita.

Dou-te comigo o mundo que Deus fez!

– Eu sou Aquela de quem tens saudade,

A Princesa do conto: “Era uma vez…”

Ainda na quarentena horizontal – 125º dia

Decepção

Chego no meu 125º dia de isolamento.

Era prevista uma quarentena. Mesmo assim eu pensei que não passaria de 15 a 20 dias. Não havia justificativa.

Atônita, dou-me conta que já se passaram 125 dias da minha vida – 128 dias para quem entrou na quarentena no primeiro dia do decreto. E tudo continua igual. Pessoas sendo contaminadas. Algumas sendo internadas. E outras morrendo. Muitas morrendo de outras causas, mas sendo anotado covid 19 em seu atestado de óbito, afastando a família – morrem sozinhos em um hospital, a família não pode ver, não pode velar, os filhos não podem sequer carregar seu caixão e acompanhar o enterro. Quarentena, isolamento horizontal e uso de máscaras não adiantaram nada.

Não há vacina. Mas, a essa altura, sete meses depois da divulgação que a peste existe, impossível que ainda não se tenha nenhum tipo de prevenção. Ou não interessa ter.

Desde o momento em que, de problema de saúde, a pandemia se tornou instrumento político de poder, o que menos é levado em conta é exatamente o povo. Que sofre e morre. Porque políticos não morrem de covid 19. Estranhamente.

Hoje somos obrigados ao uso das horríveis máscaras. Que, para os alérgicos, portadores de rinite – meu caso – é uma tortura.

Tenho saudade da praia, tenho vontade de caminhar ao ar livre. Mas não consigo fazer nada usando máscara. Então fico em casa. Direto.

E o pior – ainda que sempre tenha sido uma pessoa caseira, eram várias casas. Eu ficava em uma das minhas casas. Agora, são 125 dias e noites dentro da MESMA casa. Estou criando limo. Estou mofando. Morrendo por dentro. Entediada. Enjoada. Enojada dos poderosos da vez. Estou no meu limite.

Sei que não ficarei por muito tempo nessa passividade. Apenas esperando resolver alguns problemas que dependem do correr do tempo. E tomarei meu rumo. Não sou poste nem árvore para ficar parada aqui, só porque meia dúzia de idiotas resolveram que a solução contra o vírus é o isolamento.

Por enquanto, da minha vida eu que sei.

Apenas tenho de ultimar uma reforma. Depois, nem o céu será o limite. E quem acredita em coelhinho de páscoa que continue em casa e pregue o infame “fique em casa”.

Tristemente tomo conhecimento de tantas falências, alguns suicídios. Tudo por uma insana quarentena eternizada e que não temos a mínima ideia de até quando permanecerá. Se o tribunal prorrogou o home office até dezembro e já estão falando em cancelar o réveillon e adiar o carnaval, suspeito que estaremos na mesma situação até maio ou junho de 2021.

Quem aguentará? Como ficará a economia?

O povo, pobre povo criado na beira do cocho de sal, não tem a menor noção da força que possui. E o quanto a união derruba barreiras, destrói projetos de ditadores e faz valer os direitos de cada um e de todos.

Porque, se o povo resolver exercer seu poder, constitucionalmente reconhecido, essa quarentena e essa pandemia política acabam em três tempos.

Mas a boiada, bovinamente, continuará agradecendo mansamente pelo sal que lambe.

Tudo e todos têm um limite. Isso é um princípio da física – aplique uma pressão em um corpo até o limite, porque ele não suportará indefinidamente, e, se passar do ponto, estoura.

O limite do povo está chegando. Quanto ao meu, estou em hercúleo esforço para manter mais um pouco.

Mas haverá uma explosão.

O que será depois? Isso é uma grande incógnita. Não sabemos direito a quem aproveita essa situação.

Repito, pela enésima vez: só temo vir a ter saudade dos tempos de isolamento.

Quero minha vida de volta. Por favor, podem devolvê-la a mim?

Conjugando o verbo Amar

Repito hoje esse texto, porque estava lendo sobre o AMOR. E recordei-me do que já havia escrito. Quem já leu está dispensado de ler novamente.

Eu te peço perdão por te amar de repente, embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos. (Vinicius de Moraes)

Queimando (enésima tentativa de publicar este post) – cabecaliberta

Um dia Mário de Andrade nos brindou com “Amar, Verbo Intransitivo”. 

Deixando para lá o enredo, que não é do agrado geral, fico no título e sobre ele medito: “Amar, verbo intransitivo”. Para Mario de Andrade, eu amo. Ponto final. Eu amo porque amo. Eu amo por amar. Eu amo. Não interessa o que. Se amo alguém, se me amo, se amo o próprio amor. Porque não seria um verbo transitivo. Nem direto nem indireto. Mas um verbo intransitivo, sem qualquer complemento. Eu amo. Apenas.

Não, não é assim. Para mim amar é um verbo transitivo. Quem ama, ama alguém, ou ama algo. Ainda que ame a si próprio. Ou uma coisa desprezível. Mas ama com complemento. Portanto prefiro a outra forma: “amar, verbo transitivo”. 

Falo hoje não do amor, sentimento sublime, que une pais e filhos, que eleva, que apura, que doa, que tudo… Não. Nada disso. Falo do amor sensual. Ou melhor, da paixão quando denominada amor. 

O que seria do mundo sem esse amor-paixão? Já teria acabado há muito tempo. Por tédio, por inércia. Por verdadeira inação. 

Só agimos sob o signo da paixão. 

Vê-se de longe quem é, e quem não é, apaixonado. E não falo de quem está, ou não está, apaixonado. Porque não se trata de “estar”, mas de “ser” apaixonado. Como uma qualidade que a pessoa carrega consigo. 

Os apaixonados se arriscam, se lançam, se atiram, vão mais longe, querem chegar a algum lugar. 

Diferente de quem não ama ou não tem paixão: se deixa ficar, não busca, não sonha, não vai… 

A paixão é o sal e a pimenta do viver. Tempera a existência, dá gosto. Desperta o prazer de viver. 

Quanto mais se é apaixonado, aquela paixão que cega, de adrenalina, que faz acelerar o coração, que tira o fôlego, mais feliz se é. 

Colocar paixão em tudo – no estudo, no serviço, no que se faz por gosto e também em tudo que é feito somente por obrigação – torna a vida mais leve. 

Portanto, ser intensamente apaixonado nos torna melhores humanos, nos leva mais longe do ponto de partida. 

Esse verbo amar do amor-paixão tem de ser conjugado diariamente para que a vida valha a pena ser vivida. 

Mas, para mim, deveria ser modificado um bocadinho: o verbo amar não poderia, jamais, ser conjugado no tempo passado.

Pelo “Dia do Amigo”

One day in your life when you find that you’ve always waiting / For the love we used to share, just call my name, and I’ll be there. (Don Eliot)

698 vídeos e vídeo clips de stock de Sunset Beach Hawaii - Getty ...

O que é um amigo? São tantas as respostas que nós nos sentimos perdidos na hora de definir amigo.

Algumas definições – clássicas nesse mundo do descartável – são hilárias, outras, sentimentais e outras ainda parecem verdadeiras.

… amigo não é o que separa a briga, mas o que chega do seu lado dando voadora no agressor…

…amigo não é aquele que impede seu pranto, mas o que enxuga sua lágrima…

…amigo não é a sombra, que só te acompanha enquanto o sol brilha…

Fui e sou pessoa de poucos amigos. Não sei bem o porquê.

Em criança preferia os livros às brincadeiras – por volta de cinco anos de idade os adultos descobriram que eu já sabia ler – ninguém me ensinara, mas eu lia, e, curiosamente, não sabia ainda escrever porque não fora alfabetizada, mas sabia ler. Ler não me magoava. Ler não me feria.

As outras crianças em geral eram más – mesmo quando entrei na escola, não tinha amigos. Resultado: hoje sei que fui uma criança solitária, e por isso mesmo gosto da solidão, me sinto bem comigo mesma.

Sempre tive a companhia dos irmãos e primos, família numerosa, à moda antiga, unida e amorosa. Para que precisaria de estranhos?

Muitas pessoas não conseguem manter amizade com os próprios irmãos, e se desmancham em amizades com estranhos. Não entendo isso.

Mas, ao longo dos anos, obrigada à convivência social, fiz alguns amigos, além das relações familiares.

E vejo que amizade não é algo que se põe na balança, que se mede em centímetros… não adianta porque a conta não bate – sempre alguém dá mais, cede mais, se doa mais…

Mas é bom ter amigos, ainda que não sejam tão amigos, mas sejam mais que simples conhecidos ou colegas de trabalho.

Se algum, por uns momentos, se dispõe a pegar a outra alça da nossa sacola da vida, já torna momentaneamente mais leve nosso caminhar.

Os encontros, as conversas descompromissadas, a convivência alegre e despreocupada da relação volátil, isso é tempero de viver.

Alguns amigos são tão passageiros que sequer marcam nossa existência, nem sei se podemos denominá-los amigos, ainda que frequentem nossa casa e se façam muito presentes por um breve tempo. Mas nada trazem, não somam, não acrescentam.

Outros, porém, se tornam parte de nossa existência, e ainda que fiquemos muito tempo sem encontrá-los, quando temos a sorte e a felicidade de um reencontro, a conversa flui leve, a distância não existe e o tempo de separação não interferiu no carinho mútuo. Esses eu acredito que são os verdadeiros amigos. Mesmo distantes estão, de alguma forma, a nosso lado.

Concluo, então: amigo é o que ficou quando todos já se foram, sejam os amigos/irmãos de sangue ou de vida.