Rotina

Sons que atravessam o espaço e trazem o sussurro do que foi perdido

Vento que vem de tão longe com o perfume de flores desconhecidas

Mostram que o mundo é pequeno, é só um, é esse único mundo

Os que sofrem coabitam o mesmo mundo dos felizes

Rastros de estrelas ainda brilham pelo espaço

Mesmo depois que o sol surgindo ameaça tudo apagar com sua luz

A lua tristonha e esmaecida desaparece por trás dos montes

Porque essa Terra gira e gira sem nunca parar

E sol e lua se alternam desde sempre e assim sempre será

E os homens esperam a cada dia o novo amanhecer

Acreditando que nessa rotina infalível está a felicidade

Se nada muda na natureza e as estações do ano

Se sucedem e trazem suas velhas novidades

Na vida de cada um tudo se altera e nada fica

Mas é preciso acreditar que tudo se manterá

E teremos, sempre a certeza de ver acontecer

A cada dia, seus passos, a cada noite, seus sonhos

Dia de Poesia – Estrela do mar

Mais que uma canção, uma poesia…

Um pequenino grão de areia
Que era um pobre sonhador
Olhando o céu viu uma estrela
E imaginou coisas de amor


Passaram anos, muitos anos
Ela no céu e ele no mar
Dizem que nunca o pobrezinho
Pode com ela se encontrar

Se houve ou se não houve
Alguma coisa entre eles dois
Ninguém soube até hoje explicar


O que há de verdade
É que depois, muito depois
Apareceu a estrela do mar.

(Marino Pinto/Paulo Soledade)

Ainda pelo Dia dos Namorados

para hoje

 

 

No dia dos namorados

Queria uma carta de amor

Uma carta escrita com carinho

Cheia de palavras de amor

Que viesse em um papel delicado

Com letra tremida de paixão

Tinta carregada de ternura

E perfume de muita saudade

Que aquecesse meu coração

Alegrasse minha existência

E que me provocasse

Na boca um terno sorriso

Enquanto dos olhos escorresse

Uma lágrima de emoção,

Trazida com muito cuidado

No bico de um rouxinol.

Mas se não puder mandar a carta

Se não gostar de escrever

Se não tiver esse papel, nem essa tinta

Se não souber essa letra e nem tiver

De emissário um rouxinol, não faz mal

Venha então pessoalmente

Para me dizer essas palavras

Com voz de muita paixão

E nos olhos muita ternura

Nas mãos não quero flores

Nem mesmo quero presentes

De nada que há em lojas eu preciso

Quero apenas mãos trêmulas de desejo

E um abraço que mate toda essa saudade.

 

Haicais – poesia da natureza

 

 

  Cintila na noite

Riscando a escuridão

   – Lindo vagalume

 

 

                                         Caiu uma gota

                               com força outras vieram

                                     começa a chover

 

 

 

     São fortes as cores

das asas das borboletas

      – flores a voar

 

 

 

Amar (Dia de poesia, ou, dos namorados)

Não se há definir amar

e muito menos lhe impor regras.

Amar dispensa definições,

não cabe em simples verbetes.

Se a paixão é uma torrente,

o amor é um turbilhão.

A quem na vida coube amar

– dádiva divina,

também coube muito sofrer –

lágrimas que se misturam…

Se num momento se vai ao céu,

logo em seguida se desce ao inferno.

A dúvida é companheira constante,

um eterno desassossego:

é um bem-me-quer-mal-me-quer sem fim.

Ama-se no outro o que falta em si

e se espera ser completado.

Não se ama por uma razão,

amar não tem um por que.

É um sentir de tanto querer,

 um querer de muito sentir.

Sem limites, sem regras,

sem cobranças, sem lógica,

apenas amar

Janela de ver a vida

  Je rends grâce à cette terre qui exagère tant la parte du ciel. (Roger Caillois)

 

Da vidraça da janela vejo a vida passando pela rua. Pessoas, carros, bicicletas, motos, alguns ônibus.

Onde vai toda essa gente? Por que só eu estou dentro de casa?

Do outro lado da rua vejo uma moça na outra vidraça. É uma vitrine e a moça é de resina – ou gesso – não sei do que são feitos os manequins de vitrines.

Por que as moças que não são de verdade são tão perfeitas? Por que seus cabelos estão sempre penteados, sua maquiagem nunca está borrada nem a meia desfiada?

Sentado de costas para a parede vejo um homem com seu cão, que dividem uma refeição em uma marmitinha de papel alumínio.

Por que para eles essa comida miserável é tão apetitosa? Por que nada lhes faz mal e eles não ficam doentes de comer sobras que não fora guardadas com todos os requintes que a saúde pública exige?

Passando alegres e saltitantes vejo duas adolescentes voltando da escola.

Por que para os jovens a vida é tão leve? Por que acham tudo maravilhoso e vivem tão intensamente como se não houvesse um amanhã?

Logo depois vejo um casal que passa empurrando um carrinho de bebê. Conversam despreocupadamente da mesma forma que o bebê dorme.

Anoitece, está na hora de fechar a janela e enfrentar a vida aqui deste lado. Já não vejo mais nada, mas suspeito – seriamente – que lá fora a vida continuar palpitante e iluminada, não partilhando o escuro que reina dentro de mim.

(05.11.08)