Sinto falta

Sinto saudades de ti, sem ainda te ter.

Sinto desejo de ti, sem nunca te ter tocado.

Sinto a tua falta, sem nunca teres estado junto de mim.

Sinto o que nunca aconteceu como que tudo tivesse acontecido.

Sinto falta do teu calor, sem nunca te ter tocado.

Sinto falta do teu amor sem nunca me teres amado.

Sinto falta das palavras de amor que nunca proferiste.

Sinto falta dos teus abraços que ainda não me deste.

Sinto falta e desejo de tanta coisa que conosco nunca aconteceu, porque sinto no teu olhar, que sentes o mesmo que sinto eu.

Sinto que quando olhas para mim, fantasias comigo, o que nunca aconteceu e que de noite na cama, sonhas comigo, como que eu já fosse teu.

É verdade!

Sentimos falta, do que entre nós, nunca aconteceu, mas que acontece, todas as noites, em que eu sonho que já és minha e que tu sonhas, como que eu já fosse teu.

Sentimos desejo do que nunca aconteceu e só deixará de haverá desejo quando tu já fores minha e eu já for teu.

Mas se o desejo continuar, é porque ainda não nos amamos o suficiente. para que ele possa acabar, ou então, nosso amor é ilimitado e quanto mais nos amarmos, mais nos desejamos amar…

(Piátnitsa Melo)

Da alegria

Hoje é domingo.

Mais – ou menos – um domingo na nossa vida.

Não importa, sendo mais ou sendo menos, temos de vivê-lo. Ou superá-lo. Enfrentá-lo. Com alegria.

Meu avô sempre destacou a alegria. Que devíamos por alegria em tudo o que fizéssemos.

Levei muito tempo para entender sua lição. Talvez só tenha absorvido completamente essas palavras depois de sua morte, em dos dias mais tristes que vivi, e que deixou um vazio imenso – onde mais tantas lições, tanta sensibilidade para falar sobre a vida, sobre a tristeza, sobre a superação, sobre tudo o que nos torna mais humanos?

Mas, sempre guiada em suas palavras, toquei minha vida nesses quase 35 anos órfã de meu avô  “… A casa de meu avô… Nunca pensei que ela acabasse! Tudo lá parecia impregnado de eternidade. Recife… Meu avô morto…”, escreveu Manuel Bandeira em Evocação de Recife. E a casa de meu avô também se foi, morta, ficou presa em um passado enroscado no peito e na saudade.

E comecei a pensar muito na palavra “alegria” que ele tanto usava.

E entendi, um dia, como em um flash, o que é a alegria. A alegria que devemos por até mesmo na tristeza que sentimos. A alegria que temos de ter sempre dentro da alma para conseguirmos superar tudo – até mesmo a depressão.

Porque alegria não é rir do palhaço no circo.

Alegria não é a felicidade de ver o nascimento de mais um filho/neto/sobrinho…

Alegria não é o abraço de amor pelo qual tanto ansiamos.

Alegria é o combustível da vida. É sentir que somos. Que podemos. Que conseguiremos.

Alegria é o ingrediente secreto que deve ser posto – com cautela e na dose certa – em cada ato de nossa vida.

Desde abrir os olhos pela manhã com a alegria de ter mais um dia, quanto a alegria de nos despedirmos de quem parte para sempre, pelo que esse alguém foi na nossa vida. A alegria de saber que esses nossos mortos viverão para sempre dentro de nós, com suas palavras, seus ensinamentos, o norte que sempre nos deram.

Alegria de ter um trabalho para executar e, fatigado, mas com alegria, no final do dia encerrar mais uma jornada, pelo que nos foi proporcionado.

Alegria pelos dons que recebemos. Alegria até mesmo na dor, na doença, no desespero, de saber que haverá um amanhã e que tudo isso passará.

Então, em mais – ou menos – um domingo de nossa vida, só desejo que todos tenhamos um dia com muita alegria.

Hoje é dia de Poesia – Neruda

Para mi corazón basta tu pecho,
para tu libertad bastan mis alas.
Desde mi boca llegará hasta el cielo
lo que estaba dormido sobre tu alma.
Es en ti la ilusión de cada día.
Llegas como el rocío a las corolas.
Socavas el horizonte con tu ausencia.
Eternamente en fuga como la ola.
He dicho que cantabas en el viento
como los pinos y como los mástiles.
Como ellos eres alta y taciturna.
Y entristeces de pronto como un viaje.
Acogedora como un viejo camino.
Te pueblan ecos y voces nostálgicas.
Yo desperté y a veces emigran y huyen
pájaros que dormían en tu alma.

(Poema nº 12 de Veinte Peomas de amor y una cancipon desesperada – Pablo Neruda)

Velhos quintais

(Escrito em 24/03/10, mas mais atual do que nunca) 

A casa de meu avô…

Nunca pensei que ela acabasse!

Tudo lá parecia impregnado de eternidade

(Manuel Bandeira

 

Viver é se reciclar. Ou não é viver, é ficar vivo e espantado esperando a morte. 

O que era já não é mais. O que foi já não tem mais… 

E nesse mundo do instantâneo em que vivemos, cinco minutos podem ser a diferença entre o novo e o obsoleto. 

A relação, por exemplo, entre as pessoas e seus aparelhos de telefone celular. Parece que nasceram já trazendo seu celular nas mãos. Não podem ficar sem eles por cinco minutos. 

Ando na rua e vejo muitas, muitas pessoas caminhando e falando ao celular enquanto andam; enquanto dirigem; enquanto comem em restaurantes (engolem a comida porque não prestam atenção no comer, apenas na conversa) e assim por diante. 

E pensar que há pouco mais de quinze anos não existia telefone celular, e sobrevivemos muito bem assim… 

Também os cachorros. Estes eram dados às crianças, para desenvolver a sociabilidade, inibir o egoísmo, ou eram adquiridos para mais segurança das casas e seus enormes quintais. Hoje pertencem à mãe, que gosta mais do cão que dos filhos, mora dentro da casa e dorme na cama dos donos. Coisa impensável em outros tempos. 

Os quintais – item essencial nas casas de algum tempo atrás, era o domínio da criançada. Fomos crianças dos quintais. Que tinham árvores, horta, grama, terra. E era nosso, nosso reino, nosso forte, nosso tudo. Hoje as crianças vivem em apartamentos que poderiam caber no quartinho da garagem de nossas casas. Crescem sem ralar o joelho, sem cair das árvores, sem ver a minhoca saindo da terra fresca…

O respeito aos mais velhos – éramos mesmo obrigados a respeitar tios, avós, vizinhos idosos etc. Fazia parte da educação. 

Hoje nada mais disso há. E temos que viver nesse mundo, não adianta ficar chorando num mundo que já se foi. 

Mas a nostalgia existe. E dá uma certa pena de ver essas crianças mecanizadas, que ganham brinquedos no lugar de afeto, que disputam os pais com os cães, e, pior do que tudo, não têm quintal…

 

Um pouco de minha poesia

Quero portas abertas

Quero janelas destrancadas

A alma escancarada

A vida sem medida

Na hora em que o amor vier

Entrará sem mesmo bater

E se a paixão transbordar

O sorriso a acolherá

 

Quero brisas outonais

Que espalhem as folhas secas

Com seus ruídos do passado

Quero sol de primavera

Que me traga um cheiro de flores

E as lembranças da infância

Com gosto de doces caseiros

Feitos em fogão de lenha

 

Quero calor de verão

Sobre a areia da praia

Um mar de poucas ondas

E paz de velas bem rizadas

Quero a intensidade do inverno

Com frio na medida certa

Um bom copo de vinho

E aconchego de um abraço

 

Quero ouvir música dos anjos

No vento que me acaricia

O murmúrio suave da água

Na gotas da chuva que cai

E sentir a pele se entregar

À suavidade do sol da manhã

Comungar os dons da natureza

Partilhando a beleza de viver

 

 Quero o altivo voo das águias

Por sobre todas as cordilheiras

Quero a paz de um colibri

Quando encontra a flor buscada

Quero ouvir os sons da música

Que a andorinhas compõem nos fios

Quero escrever toda a poesia

Que só o amor pode construir

 

E, depois de viver tudo isso

Se alguém me perguntar

Como pude viver tão intensamente,

Direi pergunte à paixão, ela que me fez assim

Porque ela me fez tanto amar

E me fez assim tão feliz,

Só ela poderá responder

E ela dirá então: encontrei as portas abertas…

O livreiro

“Entre os mais humildes comércios do mundo está o do livreiro. Embora sua mercadoria seja a base da civilização, pois que é nela que se fixa a experiência humana, o livro não interessa ao nosso estômago nem a nossa vaidade. Não é portanto compulsoriamente adquirido. – O pão diz ao homem: ou me compras ou morres de fome; – O batom diz à mulher: ou me compras ou te acharão feia. E ambos são ouvidos. Mas se o livro alega que sem ele a ignorância se perpetua, os ignorantes dão de ombros, porque é próprio da ignorância sentir-se feliz em si mesma, como o porco com a lama.

 E, pois, o livreiro vende o artigo mais difícil de vender-se. Qualquer outro lhe daria maiores lucros; ele o sabe e heroicamente permanece livreiro. E é graças a esta generosa abnegação que a árvore da cultura vai aos poucos aprofundando as suas raízes e dilatando a sua fronde. Suprimam-se o livreiro e estará morto o livro – e com a morte do livro retrocederemos à idade da pedra, transfeitos em tapuias comedores de bichos de pau podre.

A civilização vê no livreiro o abnegado zelador da lâmpada em que arde, perpetua, a trêmula chamazinha da cultura.”

(Monteiro Lobato)