Hoje é dia de poesia -Miguel Carlos Vitaliano – Café da manhã

Nesse “dia de poesia” trago um poema do Miguel Carlos, meu querido amigo Carlucho, do livro “Outro livro”, 2006:

 

 

Migalhas de vida esparramados na mesa

Cacos de um destino a rasgar a toalha

Lágrimas de dor umedecem o ambiente

E um ar impregnado de ausência

faz perceber a saudade no ar.

De um lado uma cadeira apara

o corpo do poeta

Do outro, outra cadeira

apara o nada.

A fome de amor invade a alma.

Pesa na penumbra da manhã cinzenta

um olhar de adeus, um aceno de mão.

E um insuportável vazio

toma conta da mesa posta.

Fim

Não sei se as palavras já não bastam

Ou se elas não mais são necessárias

O silêncio trouxe a distância

Que mantém separadas as paralelas

Essas linhas que tanto se querem

Mas só se encontrarão no infinito.

Onde fica esse infinito? Não se sabe

A paixão, tão ardente, mina em lágrimas

Que teimam em brotar nos olhos

De quem se viu em outros olhos

Ardem as mãos no vazio

Da falta das outras mãos tão queridas

O nada se impõe e domina

A vida se esvai nos fiapos

De um passado distante

De um amor mal-resolvido

De uma paixão não vivida

Metamorfose

Vivia encolhida, sem luz, sem ar. Presa na armadilha que o destino lhe preparara. A insegurança a dominava, limitada ao escuro da existência sem futuro, sem alegrias.

Mas, em seu âmago, crescia um sentimento novo: uma paixão ardente, descontrolada, que, naquelas condições, não podia ser vivida.

Subitamente sentiu que era hora de romper com tudo que a limitava. Porém, enfrentar o desconhecido poderia significar sua morte. Não podia ter certeza se sobreviveria.

                                            

De certa forma, morreu ali mesmo, porque, ao romper o casulo que a prendia, a pesada lagarta, feia e disforme, perdeu sua existência, no exato instante em que, colorida, leve e cheia de alegria, a linda borboleta alçou seu primeiro voo.

No dia em que nos separamos

No dia em que nos separamos o sol brilhava

E pássaros inundavam o ar com seu canto delicado.

Naquela noite a lua, insensível, surgiu radiante

E reinou soberana liderando o séquito de estrelas brilhantes.

E as flores da noite se abriram e perfumaram os caminhos.

As aves, amantes, aos pares se recolheram aos ninhos,

E o vento soprou mansinho, apenas leve brisa a acalentar as folhas.

Nada, nem ninguém, viu meu desespero, tanto sofrimento;

Lágrimas escondidas misturadas ao sangue corriam em minhas veias,

Não houve dentro de mim qualquer alegria, qualquer alívio ou bálsamo

Somente a dor aguda de mais uma separação, que me inundava toda

E ocupava os lugares onde até então era só alegria, e sorriso, e êxtase.

Amanheceu um novo dia. A natureza não se abala com a dor alheia.

Como se tudo estivesse bem, o sol brilhou novamente.