Para se pensar

O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela. (Fernando Pessoa)

Ontem ouvi o relato do suicídio de uma garota – estava com depressão e a família não conseguiu ajuda-la. Os pais, obviamente, estão devastados. 

Além do choque para as pessoas que convivem com o suicida e ficam estarrecidos com aquela morte, fica o invencível e inevitável sentimento de ter falhado.

Falhado porque não percebeu o desespero daquela alma, falhado por não ter tirado a cortina negra que escurecia os pensamentos do suicida, falhado por não ter evitado o gesto.

Mas ninguém poderia evitar o suicídio em si.

Depois que a decisão de morrer é tomada, dificilmente alguém poderá evitar esse ato.

Convivi com alguns suicidas, chorei suas mortes e sei que ninguém tem culpa do ocorrido. Mas é difícil, muito difícil, conviver com a sensação que poderíamos ter feito alguma coisa e nada fizemos. Inevitável sentirmo-nos assim.

E o que é o suicídio? Um gesto de coragem ou covardia? Um gesto de desespero ou esperança em algo melhor?

Alguns casos podem-se entender, pessoas que estão acometidas de moléstias terríveis, sem qualquer chance ou esperança de cura, sofrendo no corpo as dificuldades da doença e na alma a falta de motivo para continuar vivo… até se entende, embora a religião nos ensine que a morte pertence ao Pai e somente ele poderá tirar-nos a vida.

Mas outros casos, a jovem que perdeu o ano na faculdade, a mulher madura e centrada que se aposentou e não mais se sentiu viva, o amigo que se viu envolvido em um processo judicial quase kafkaniano…

E assim eles foram ficando pelo caminho, enquanto outros enfrentaram as mesmas situações – doenças, velhice, processos, divórcios, perdas de filhos e continuaram vivos dando testemunho de uma fé inabalável na vida e no sentimento que não há caminho predeterminado, que fazemos nosso caminho ao caminhar.

Quando penso nesses assuntos lembro-me de  palavras do Padre José Mário Ribeiro: “Deus deu a vida – e não a morte – ao homem. Então devemos cuidar da nossa vida com muito carinho e desvelo, porque teremos que prestar contas deste dom ao Criador. Mas Deus guardou para si a morte, não a deu ao homem. Por isso devemos viver sem pensar na morte, sabendo que é inevitável e virá para todos, mas não é problema nosso. Na hora certa Deus cuidará de tudo. Não devemos ignorar que a morte existe, mas não devemos buscá-la nem desejá-la.”

E assim Padre Zé Mário me deu uma lição para toda a vida, mas que torna difícil entender a razão dos suicidas.

Há uma estatística que a cada 40 segundos uma pessoa se suicida – isso é um número altíssimo. Já temos notícias de crianças suicidas.

O que está acontecendo com a humanidade? Estamos perdendo o instinto de sobrevivência?