Canivetes

 

Meu avô era o “homem do canivete” – nunca, nem uma única vez, eu o vi sem estar portando pelo menos um canivete.

Ele dizia que não se pode andar sem canivete. Tinha alguns, bem afiados, e os usava. Para picar fumo e fazer seus cigarrinhos de palha (ah, que saudade, meu avô, quando o senhor me ensinou a fazê-los e me delegava essa função – preparadora de cigarros de palha…), para destravar a porta do carro quando a fechava com a chave dentro. Para abrir a porta da casa quando perdia a chave. Para descascar frutas. Para abrir correspondência. Para usar como chave de fenda. Para cortar pequenos objetos e, às vezes, até mesmo para cortar a comida no prato. Com um canivete meu irmão, orientado por ele, tirou o gesso com que veio para casa, quando teve alta depois de um sério acidente na BR 116, indo para a fazenda. Chamou o neto mais velho, mandou fechar a porta do quarto, entregou-lhe o canivete e o guiou para a retirada do gesso que envolvia seu tronco e um ombro.

Realmente, não há dúvidas quanto à utilidade de se ter à mão um canivete!

Fico fascinada nas vitrinas onde há canivetes. Quando os vejo a saudade de meu avô aperta o peito.

Eu era muito pequena quando ele meu deu meu primeiro canivete. E mandou usar. Sempre. E o mantinha afiado para mim. Descascar laranja com um bom canivete vem amolado é minha especialidade. Até hoje ando com canivete na bolsa.

E já me foi muito útil em muitas ocasiões.

Só não faço cigarros de palha porque não fumo e meu avô partiu para sempre há muitos anos.

Ainda tenho alguns, dentre eles um é muito especial – pertencia ao tio Ary, uma das pessoas que mais amei nessa vida, em forma de caneta, com seu nome gravado, sempre no bolso da camisa – e eu também nunca saio sem um canivete…