A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –
E chega, de surpresa, uma pergunta, que é um pedido de ajuda: “como faço para esquecer quem me deixou, para não sofrer?”
Eu, então, pergunto a mim mesma: “quem sou eu para responder, para ensinar a alguém aquilo que não sei nem para mim?”
Como se adivinhasse minha indagação, responde-me: “você é poeta; entende das coisas do amor e da paixão…”
Ah, quem me dera saber e poder ajudar. Quem me dera soubesse eu lidar igualmente com o amor e com o desamor. Com a paixão e com a indiferença. Com a alegria e com a tristeza. Com a chegada e a partida. O início e o final. O encontro e o desencontro. O achegamento e a separação.
Mas não sei. Talvez devesse ter aprendido com tantas decepções. Mas não há como aprender.
Sou feita de amor e paixão. Eternamente carente.
Sofro com a mesma intensidade com que me apaixono.
Meu delicado coração sangra continuamente com a indiferença, a desatenção, o desamor. Coleciono mágoas vida afora.
Aprendi a alegria do amor. A magia do reencontro. A beleza da entrega plena.
Mas não sei lidar com a separação.
O que poderia dizer? Como aconselhar quem sofre? Dizer “não sofra! Não chore!”????
Eu digo o contrário: “Sofra. Sofra muito. Sofra tudo o que tiver de sofrer. Chore. Chore muito. Chore tudo o que tiver de chorar.”
Toda separação é traumática. E o fim de uma relação de paixão é devastador para a alma humana. Porque, quando um se vai, o outro ainda está apaixonado. E não é possível amar pelos dois, sem reciprocidade. É a mão estendida que não encontra outra mão para segurar. E o apaixonado é um dependente do amor e da atenção do outro. Como, de repente, ver tudo acabado e fazer de conta que está tudo bem?
Podemos, em público e para consumo externo, colocar um lindo sorriso no rosto maquiado. Mas por dentro as lágrimas queimam, a dor é física.
A separação, em vida, desencadeia um luto – como se fosse uma morte. E a única forma de se livrar do luto é exatamente vivenciando integralmente esse luto. E sofrer. E chorar. E querer morrer.
Não desistir. Mas deixar toda a dor ter seu curso em nosso ser.
Quando parar de sangrar, começará a cicatrizar. Mas, quando o sangramento estancará? Exatamente quando tiver sangrado inteiramente. Quando o sangue acabar. Não tiver nada mais para escorrer. Então começa o doloroso processo de cicatrização. Dói, arde, incomoda, e faz chorar. Bastante.
Porque a saudade está ali, como milhares de alfinetes, espetando, fazendo lembrar da mágoa que foi a causa de tudo aquilo. E a saudade nos marca como um ferro em brasa na carne nova. É mais do que uma simples cicatriz o que fica onde sangrou. A saudade é uma chaga viva. Nunca irá desaparecer. E toda vez que a saudade doer, recordaremos, em lágrimas, a paixão vivida, o amor perdido.
Meu coração é uma colcha de retalhos de mágoas cicatrizadas e saudades vivas.
Eu não sei, realmente, como ajudar ninguém nessa hora.
Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto. No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz. Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado. Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado. Eu deixarei… tu irás e encostarás a tua face em outra face. Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada. Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite. Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa. Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço. E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado. Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos. Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir. E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas. Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
Está a maior bagunça, pessoas simplesmente ignorando a obrigatoriedade de isolamento e de uso de máscaras.
Pessoas simplesmente exercendo sua profissão para evitar que os filhos morram de fome, ainda que temendo a doença… o poder público, inerte e autoritário simplesmente se restringe a usar o isolamento como única forma de combate ao covid 19.
As escolas fechadas. As crianças soltas nas ruas como cães abandonados – inclusive dentro dos condomínios.
Festas e pancadões na periferia.
Aviões parados.
Empresas falindo.
Miséria batendo na porta.
Mas “fique em casa”.
A população está chegando no seu limite, como um tanque de gás prestes a explodir.
Criminalidade doméstica aumentando.
Consumo de bebidas alcóolicas batendo recordes.
Mas, “fique em casa”.
“Até quando?”, se perguntam, “até quando, meu Deus?”
Na Inglaterra é verão. Londres acabou com o isolamento. Chocantes as cenas de garotas caídas nas ruas completamente embriagadas e/ou drogadas.
O isolamento prolongado destrói o sentimento ético. Destrói o autorrespeito. Desconstrói a vontade de viver. As pessoas se desacostumaram da liberdade.
Poucos conseguem se manter livres mesmo quando encarcerados. A maioria simplesmente se deixou abater e se sentiu um animal na jaula.
Agora, livres, terão de reaprender a responsabilidade sobre seus atos e as formas de viver em sociedade.
Enquanto os outros países enxergaram que isolamento não é tratamento contra vírus, nosso atualmente tristonho Brasil insiste em manter essa insanidade.
Em alguns lugares a moda é aplicar multa a quem estiver sem máscara, a quem estiver em aglomeração na praia.
Aliás, praia é para caminhar e praticar esporte individual.
Nada de guarda-sol, cadeira, toalha, de família…
Pista de praticar cooper.
Tudo tão ridículo, tão sem sentido, que não conseguimos mais argumentos para acreditar que há alguma lógica nessa quarentena que já dura 125 dias.
Há, paralela à peste chinesa, uma epidemia de depressão. E muitos casos de suicídio.
Tanto tempo isolado, sem trabalhar, sem perspectiva de futuro, que as pessoas se sentem esvaziadas. Nada mais de bom, de positivo, têm a esperar na vida. Então preferem partir.
Isso é muito, muito triste.
Ainda que o julgamento dos homens falhe, tudo isso pesará nas costas dos atuais prefeitos e governadores. Eles serão, aos olhos da História, e do Pai, os únicos responsáveis pelas mortes, pelo sofrimento, pela doença se espalhando velozmente.
Porque se limitam em receber verbas e manter o povo em estado de terror.
Quando algumas pessoas saem em defesa da população em geral, apontam a bandalheira, simplesmente são neutralizadas – processos, prisões arbitrárias, um poder absoluto que não se sabe de onde se originou.
Estamos num barco à deriva. Não sabemos até quando será possível aguentar sem o comércio funcionando, as indústrias abertas com o povo trabalhando. Os profissionais liberais e prestadores de serviço simplesmente desesperados porque não têm como manter a própria família.
Mas, “fique em casa” e o Estado, impessoal, garante seus agentes para que mantenham o povo bovinamente aquietado.
A cada dia que passa mais nos sentimos vazios.
Vazios de vontade, de civismo, de civilidade.
Estão destruindo o pouco da nosso ânimo, que conseguimos preservar nos anos esquerdos. Tudo isso, aparentemente, porque não conseguiram digerir o resultado da eleição.
Mas, “fique em casa”, continue em casa, morra dentro da sua casa….
E há quem acredite que tudo voltará a ser como antes.
E, os mais bobos, acreditam que o mundo sairá melhor desse horror…